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sábado, 22 junho, 2024

Mãe Cici de Oxalá e os analfabetos da oralidade

José Bessa Freire

O burburinho cessou. Fez-se um silêncio reverente quando Mãe Cici, vestida de branco, apoiada em uma bengala, mas caminhando com garbo, entrou pontualmente às 19h00 da quarta-feira (15/05) no auditório do Centro Cultural Vale do Maranhão (CCVM). Trazia seus 84 anos, sua majestade e centenas de histórias, algumas já publicadas no livro de sua coautoria “Cozinhando Histórias: Receitas, História e Mitos de pratos afro-brasileiros”. Ela era a figura central da Semana de Museus do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

Nascida no Rio de Janeiro, Nanci de Souza Silva, a Mãe Cici, filha de Oxalá – o orixá supremo, criador do universo – mudou de mala, cuia, atabaques e agogôs para o terreiro de Lauro de Freitas (BA), em 1971, levando com ela os cantos que destacam as propriedades medicinais das plantas, que ela tão bem conhece. Atualmente, a Bahia já lhe deu régua e compasso, além dos títulos de cidadã honorária e de doutora Honoris Causa pela Universidade Federal (UFBA) conforme informou Ubiratã Trindade, coordenador de Educação do CCVM na abertura do evento.

– Faltou mencionar meu pai Fatumbi – ela disse singelamente e foi logo atendida.

Fatumbi é o nome religioso do etnólogo e fotógrafo franco-brasileiro Pierre Verger, que nasceu em Paris em 1902 e renasceu no Benin no Oeste da África. Convertido ao candomblé, residiu durante 50 anos na Bahia, onde atuou como professor da UFBA e ogã do Terreiro Opô Afonjá. Organizou o Museu Afro-Brasileiro e criou a Fundação que leva seu nome com um acervo de mais de 63 mil fotografias, 11 mil delas legendadas por Mãe Cici, sua assistente de pesquisa, que cuidou dele já velhinho. Faleceu em 1996 em Salvador.

Essa mestra griô Ebomi do Terreiro Ilê Axé Opó Aganju, que já percorreu o Brasil e países da Europa, África e Caribe contando histórias afro-brasileiras, quase sempre acompanhadas de música e dança, abria agora a semana de museus na mesa “Tradição Oral, práticas educativas e dinâmicas de atualização dos sentidos”, ao lado de Dulce Ferreira, professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e deste locutor que vos fala.

A letra e a palavra

Mãe Cici se dirigiu a mim, organizando a ordem das falas:

– Você começa, porque os indígenas estavam aqui antes dos europeus e dos africanos – disse. Obedeci, mas em deferência a ela comecei com o relato mencionado na crônica sobre dona Fiota da comunidade quilombola do município de Bom Despacho (MG), que discute a relação entre oralidade e escrita. Resumo aqui o que expus.

Conheci dona Fiota em março de 2006, em Brasília, durante seminário sobre a diversidade linguística. Ela se expressou na Língua do Negro da Costa, de origem Banto, conhecida como “Gira da Tabatinga”, que as crianças estavam esquecendo. Lei de 2003 sobre as culturas afro-brasileiras obrigava a Secretaria de Educação a remunerar uma professora da língua. Os quilombolas, com liberdade de escolha, elegeram dona Fiota que, após um mês de trabalho, foi em busca do seu salário. O secretário de educação invocou outra lei:

– Ah, não sabia que era a senhora. Não pago, porque legalmente não posso contratar professor analfabeto. A senhora é analfabeta. Se pagar, posso ser preso.

Ela botou o dedinho na cara dele e disse:

– Eu não tenho a letra, tenho a palavra, que é mais do que a letra.

Diante de tal argumento, ele pagou. Nem foi preso. E ela continuou ensinando as crianças de ensino fundamental e médio, combatendo o tratamento de analfabeto dado a pessoas das sociedades de tradição oral sem escrita alfabética, consideradas como carentes de escrita, quando na realidade são independentes da escrita.

A escrita alfabética assumiu o poder nas sociedades letradas, onde em todas as instituições só vale o que está escrito: na legislação, no judiciário, nas transações bancárias e comerciais, no jogo do bicho e até na palavra de Deus registrada nas Sagradas Escrituras. Quem desconhece o alfabeto e não sabe ler nem escrever é tratado como analfabeto, termo que passou a designar o ignorante, como se o registro escrito fosse a única forma de apropriação do saber.

Entrelinhas e entrefalas

Existem pessoas que podem reconhecer letras, sílabas, palavras e frases, mas não são capazes de compreender o seu significado. São leitores rasos que acreditam piamente, ao pé da letra, naquilo que está escrito, não entendem que o processo crítico de leitura é a produção de significados, que são múltiplos. Não conseguem ler nas entrelinhas e nem descobrir os vários sentidos da interpretação de um texto. São os chamados “analfabetos funcionais”.

Da mesma forma, existem pessoas que ouvem a fala, mas não sabem entender o que ela está dizendo, não leem nas “entrefalas”. Quem não sabe ler o discurso oral pode ser designado, por analogia, como “analfabeto funcional da oralidade”. Exemplifiquei com alguns casos de narrativas orais e a leitura delas feita por cientistas e indígenas

Dois grandes cientistas do séc. XIX, o botânico Martius e o zoólogo Spix, que viajaram em 1819-1820 pelo rio Amazonas, consideraram “fantasioso” o mito Tikuna de origem da vida, que fala de um único ser saído da água e do qual descendem os demais. A hipótese da ciência da época – foi antes de Darwin e sua teoria da evolução – era a de que o homem havia surgido prontinho no planeta. Por isso, os dois alemães, com arrogância abissal, desqualificaram a narrativa Tikuna.

Hoje, os biólogos ensinam nas universidades e nas escolas que toda vida existente na terra descende de um único ancestral, de um organismo unicelular que deu origem a todas as espécies vivas, visão mais próxima do mito Tikuna do que da ciência de Martius e Spix. Com todo respeito à contribuição efetiva que deram em outros campos, os dois eram analfabetos funcionais da oralidade.

Lendo oralidades

Já os Tukano do rio Negro eram alfabetizados em oralidade, como relatado pelo padre salesiano Casimiro Beksta no caso de uma criança mordida por cobra numa comunidade do alto Uaupés. Era preciso transportá-la para um hospital em São Gabriel da Cachoeira, distante três dias por via fluvial, percorrendo trechos encachoeirados de difícil navegabilidade, onde ocorriam sempre naufrágios e mortes. Um barco de pequeno porte estava disponível, mas não havia quem o pilotasse, os indigenas especialistas estavam ausentes.

–  Eu levo o barco – se ofereceu um jovem tukano.

– Você já fez essa viagem? – perguntou Casimiro.

– Eu nunca, mas os antigos fizeram o trajeto na cobra-canoa e eu conheço os wametisé – os lugares por onde a cobra-grande passou, meu avô me contou a história das casas de transformação.

A narrativa mítica, desqualificada como “invencionice” pelos analfabetos da oralidade, registra as referências geográficas, as marcas e os sinais nas pedras, nas praias, nas serras, nas ilhas e acabou sendo usada pelo jovem como um mapa de navegação. Orientado pelo mito, o jovem tukano passou por todas as cachoeiras e guiou o barco até São Gabriel. Esses lugares sagrados foram mapeados para fortalecer os saberes tradicionais sobre o território e contribuir para sua proteção e seu manejo adequado.

A sogra do Jacamim recolhida pelo botânico Barbosa Rodrigues é outra história que circula no rio Negro (AM), trata-se de um minitratado de ornitologia dos pássaros da Amazônia. Parte desse conhecimento, que foi satanizado por não se enquadrar dentro dos cânones da ciência e da religião dominantes, são aulas de botânica, zoologia, astronomia, ciências sociais e ciências humanas, como observou o botânico encantado com a capacidade de observação e o espírito científico dos indígenas.

Barbosa Rodrigues viveu no Amazonas, conheceu diferentes etnias e aprendeu o Nheengatu, que lhe permitiu registrar a ciência indígena. Sua grande sacação foi perceber, no século XIX, que numa sociedade sem escrita alfabética, mas com forte tradição oral, as histórias e cantos funcionam como enciclopédias repletas de saberes necessários para a sobrevivência e a reprodução das culturas. Outras narrativas recolhidas por Couto de Magalhães ensinam como se relacionar com a natureza, os animais e os rios.

Contação de histórias

Mãe Cici começou sua fala também de 20 minutos, contando uma história dos Wapixana de Roraima sobre o sapo que queria devorar os grilos. Depois centrou suas reflexões sobre as culturas de matriz afro-brasileira. Cantou e, na ausência de instrumento musical, usou uma colher em batidas ritmadas contra um copo.

No final, a fala sobre processos educativos e cultura popular esteve a cargo da professora Dulce Ferreira do Núcleo de Extensão e Pesquisa com Comunidades Rurais, Negras, Quilombolas e Indígena da UFMA. Mas o evento prosseguiu no dia seguinte com a Oficina de Saberes do Terreiro ministrada por Mãe Cici e Marlene Monteiro e com a mesa “Cantar, contar e festejar: elaborações sobre a vida compartilhada”.

O evento foi encerrado no terceiro dia pela Mãe Cici, uma vez mais com   Contação de histórias e contos afro-brasileiros, que não pude assistir por ter me deslocado para a Terra Indígena Awá Guajá, onde participei de uma oficina com professores bilingues, o que será objeto do próximo artigo no Taquiprati. É preciso destacar que todas as atividades da Semana de Museus foram dirigidas para a necessidade de formar letrados na oralidade.

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