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Argentina

Postado em 22/04/2021 9:30

Lula livre fala ao povo argentino, impulsiona Alberto Fernandez e a reunificação progressista da América Latina

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Significativa entrevista de Lula ao canal C5N causa emoção na Argentina

Helena Iono/Direto de Buenos Aires.

O canal argentino, TV C5N, após noticiar a decisão da Plenária do STF que votou a incompetência da 13a. Vara Federal de Curitiba e restituiu direitos políticos ao presidente Lula, transmitiu uma entrevista especial de Lula ao programa Minuto Uno, de enorme audiência no país, ancorado por Gustavo Silvestre, durante um horário nobre. Assista aqui: Entrevista ao Lula no C5N

Lula vitorioso,  reaparecendo, prestes à absolvição total, criou muita emoção nos irmãos vizinhos argentinos, solidários diante da catástrofe da pandemia, com inegáveis evidências políticas de genocídio provocado por Bolsonaro no Brasil. Lula não perdeu a oportunidade para dirigir-se ao povo argentino e diretamente ao presidente Alberto Fernandez, agradecendo a solidariedade que lhe deu ao visitá-lo na prisão em Curitiba pouco antes da sua eleição. Transcrevo tradução de partes do vídeo gravado em castelhano.

Lula, recordou os anos flóreos da América Latina unida e progressista:

“Eu tive o prazer, o privilegio de viver os momentos mais ricos da política da América do Sul. Eu governei ao mesmo tempo que Michel Bachelet (Chile), Kirchner e Cristina na Argentina, Evo na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Chávez na Venezuela, também Pepe Mujica, Lugo no Paraguai, um conjunto de presidentes. E quando nós compusemos na UNASUL, era possível sonhar e pensar num grande bloco na América do Sul para poder competir política e economicamente com os demais blocos, sobretudo com a Europa e os EUA. Foi um momento muito rico durante a minha presidência e uma ascensão muito grande da América do Sul em toda a história. Eu me lembro quando Kirchner se tornou presidente da Argentina; me lembro qual era a situação do país naquele momento e como o recuperou.”

Lula fala como líder mundial, solidarizando-se com o povo e governo argentino, diante da desgraça da pandemia disseminada na terra arrasada deixada pelo governo anterior:

“… Por isso, neste momento, eu me preocupo e sei como o presidente Alberto Fernandez encontrou a Argentina, com a que ele tem entre as mãos, com a dívida enorme que o outro presidente (Macri) fez. Por isso, quero aproveitar o teu programa (se dirige ao jornalista)  para dizer que o povo argentino tem esse presidente com um compromisso enorme; e o FMI não pode fazer pressão à Argentina, não pode cobrar a dívida da Argentina e tampouco os juros da dívida argentina. O FMI tem que entender que o presidente Alberto Fernandez tem que ter um compromisso urgente e prioritário que é salvar a vida de milhões de argentinos que podem morrer pela falta de recursos para o crescimento econômico; por isso o FMI não pode cobrar o que a Argentina lhe deve porque um presidente irresponsável (Macri) deixou essa dívida para o presidente Alberto Fernandez pagar. Estou muito solidário com o presidente Alberto Fernandez e o povo argentino e quero dizer algo: a Argentina não pode aceitar a pressão do FMI.”

“… Eu gostaria de aproveitar a oportunidade para mandar uma mensagem ao povo argentino no teu programa. Eu sei das medidas duras que tomou o presidente Alberto Fernandez ontem (se refere ao Decreto 241 pela emergência pandemia). E é necessário tomá-las. Sei que isso é muito duro, mas as pessoas têm que tomar consciência de que não sabem em nenhum lugar do mundo como se vence este vírus. Aqui já houve a terceira variante deste vírus. Portanto, mesmo que alguém não esteja de acordo, é importante tomar estas medidas. As pessoas não devem sair da sua casa, não devem celebrar, ir aos restaurantes, as crianças não devem ir às escolas até que se diminua a gravidade do vírus; e então, a economia se retomará, com todos os cuidados necessários. Não podemos levar os pobres a um genocídio total porque as pessoas já não têm o que comer na sua casa, não têm emprego, não têm casa. Há que cuidar das pessoas. Primeiro a gente se cuida, e depois cuida da economia. Eu aqui no Brasil, defendo abertamente uma ampliação da base monetária. Não há nenhum problema aumentar a dívida pública interna para poder cuidar do povo. Há que salvar a vida de milhões e milhões de brasileiros e argentinos. Os ricos não se preocupam com os pobres. É preciso assumir as suas responsabilidades. O governo tem que cuidar do seu povo e os mais pobres necessitam mais do seu governo que os ricos. Espero que todos compreendam isso. Porque aqui no Brasil defendo que as pessoas fiquem na sua casa, que usem máscaras, e que as pessoas que trabalham tenham um bom transporte, limpo, máscaras adequadas, que se possa higienizar nos lugares de trabalho.”  

“… Portanto, minha solidariedade ao presidente Alberto Fernandez, a minha companheira Cristina Kirchner,  que é tão perseguida na Argentina como me perseguem no Brasil. Estou seguro que Cristina, como eu, vencerá seus processos na Argentina.”

Um parêntesis sobre a referência de Lula ao Decreto Nacional de Urgência (DNU 241/2021) de Alberto Fernandez

Veja a Coletiva do governador  Axel Kicillof onde defendeu as medidas de restrição por 15 dias decretadas pelo governo nacional e rebateu a resistência do prefeito da capital, Horácio Larreta, e da oposição (Cambiemos-PRO) que politiza e judicializa a pandemia. Macri e a ex-ministra da segurança, Patricia Bullrich se articulam para abertamente desestabilizar o governo democraticamente eleito de Alberto Fernandez, no pior momento da pandemia e da crise sanitária que se aproxima do colapso dos hospitais, das camas e do pessoal médico de terapia intensiva (privados e públicos), sobretudo na capital (epicentro da pandemia) e no subúrbios adjacentes (AMBA). Essa oposição, num ato imoral, decidiu apelar à Justiça contra o Decreto presidencial, sobretudo no quesito de suspensão da aula presencial nas escolas (somente por 2 semanas); o objetivo da oposição é claro: agarrar a bandeira da educação (com a qual pouco se preocupou), opor-se e atear fogo, de forma oportunista – diante de uma medida necessária, mas antipática – dirigindo-se ao seu público neste ano de eleições legislativas. Dizem defender a educação os que reduziram o Ministério da Educação, cortaram salários e o Plano conectar dos notebooks.

O decreto presidencial implica sobretudo no fechamento das atividades recreativas, sociais, esportivas, culturais e religiosas; fechamento de comércio, bares e restaurantes às 19 horas, e circulação noturna, entre 20 horas e 6 horas da manhã seguinte; não incide em nenhuma atividade diurna comercial, nem econômica, industrial ou de instituições públicas como na fase 1 da quarentena de 2020. Além disso, virão acompanhadas, neste período de ajuda emergencial do Estado nacional às mães grávidas e de baixa renda (AUH),  e subsídio de emergência para trabalhadores autônomos (IFE), e empresas no pagamento de salários. O decreto inclui também a virtualidade das aulas por 15 dias. O DNU impõe medidas urgentes na área metropolitana da capital (epicentro pandêmico) para conter a subida abrupta e inesperada da pandemia (com novas variantes), o colapso sanitário, chegando hoje a 59.228 mortes; e desta forma, ganhar tempo com a vacinação massiva, liberação de camas, antes da catástrofe e medidas mais drásticas. São medidas mínimas, mas suficientes para acelerar o oportunismo provocador da oposição, que levaram os ministros da Defesa e da Segurança, a ter que esclarecer a sua cidadania, e o povo brasileiro sobre a falsidade da notícia espalhada por Bolsonaro de que o governo argentino decretou colocar “o exército na rua para manter o povo na casa”. Diga-se de passagem, os que espalham tal fakenews, numa alusão à ditadura militar, são também afins à repressão dos anos 70.  São os de sempre, que acusam de haver uma “infectadura”, os anti-quarentena, anti-vacina (sobretudo se chinesa ou russa), os prefeitos instigados por Macri ao anti-DNU.

Diante do twitter de  Bolsonaro, Alberto Fernandez esclareceu na Rádio 10 : “Não declarei o estado de sítio, nem penso fazê-lo. As Forças Armadas não existem para realizar segurança interna, mas para atuar em catástrofes dando apoio ao povo. É preciso explicar-lhe a Constituição”.  O ministro da Defesa, Agustin Rossi tem aclarado: “As Forças Armadas argentinas não realizam segurança interna. Desde o início da pandemia, o setor Sanitário Militar tem trabalhado na luta contra o covid. Somente em prevenção sanitária, durante o dia, desarmado como em todas as ações que fizemos durante a pandemia.” A atuação do exército, tem sido na construção de hospitais modulares, transporte de vacinas, no apoio ao pessoal médico nos centros de vacinação. O controle nas estações, transportes públicos e estradas, em função das restrições de circulação competirá à Polícia Federal (e da capital) e Portuária.

O lawfare está moribundo, mas não está morto

Várias fatos no campo Judicial ocorreram nos últimos tempos bastante desfavoráveis à oposição (JxC): o avanço dos processos que incriminam o ex-presidente Macri em torno a causas do Correio Argentino, da perseguição aos donos do Grupo Indalo (proprietário do canal C5N), sem contar as recentes revelações das visitas periódicas de certos juízes, procuradores e jornalistas do lawfare na casa presidencial de Olivos durante a sua gestão. Em contrapartida, nesta semana, foram anulados processos infundados sobre o Dólar Futuro contra Cristina Kirchner, Axel Kicillof e outros dirigentes kirchneristas. O início da queda dos pilares do lawfare na Argentina (como no Brasil) nos últimos meses, permitem entender a histeria no campo opositor dos últimos dias.

Os donos do Grupo Clarin (Héctor Magnetto), do La Nación, o jogador de futebol Tevez e uns 80 milionários apelam à Justiça para não pagar o imposto sobre suas grandes fortunas, contrariando a lei já aprovada no Parlamento que serviria à emergência para salvar vidas na pandemia. Enquanto isso, Cristina Kirchner renunciou ao seu salário de vice-presidenta ao vencer uma causa (criada por Macri) na qual recuperou a sua aposentadoria como ex-presidenta. Enfim, como alguém disse, a chamada rachadura entre as duas forças políticas opostas hoje na Argentina, se expõe também uma rachadura moral, não apenas de posicionamentos políticos opostos; dos negócios contra a vida; do ódio contra o amor à humanidade. Desestabilizar o governo progressista e popular de Alberto Fernandez agora, politizando e institucionalizando a pandemia é imoral. Assim o lawfare, levou Bolsonaro ao poder e daí ao genocídio.

A recente notícia de que a Justiça local da capital de Buenos Aires, descumprindo o DNU presidencial, deu o aval ao prefeito da cidade, Horacio Larreta, para ordenar as aulas presenciais nas escolas, agrava os riscos sanitários e a crise política entre o governo nacional e a oposição. Tal desacato, após a morte recente por Covid-19 de 3 professores na capital, é rechaçado pelos sindicatos dos professores (UTE e Ademys) que já decretaram greve inicial (24 horas) com apoio da maioria dos pais e familiares. Outros sindicatos (CTERA, ATE Capital e de funcionários do Poder Judicial) se mobilizam contra o que chamam sedição de Larreta que põe em risco a governabilidade e a saúde pública. Uma nova tentativa de politização da Justiça, de lawfare em pandemia, contando com juízes parciais em tribunais municipais incompetentes. Tudo indica que haverá reações a nível de governo da nação, do ministério da Justiça e da Saúde para preservar a Constituição e a vida.

Lula foi claro: “O lawfare é o uso do poder Judiciário para processos políticos. Isso aconteceu com Cristina Kirchner na Argentina, com Rafael Correa no Equador, com Evo Morales na Bolívia… No caso do Brasil, o mais grave é que havia interesses do departamento de Estado dos Estados Unidos, das petroleiras americanas, das empreiteiras americanas… Queriam destruir a indústria de petróleo e gás”

 “A América Latina e a América do Sul perdem com os governos fascistas e de direita, pois quase todos se submetem e se subordinam  aos EUA, quando na realidade o que temos que fazer é construir nossa pátria, uma pátria grande, livre e independente que não tenha problemas e conflitos com nenhum outro país. América do Sul pode ser isso. O Mercosul pode ser isso. Nunca vou me esquecer que em Mar Del Plata em 2005 quando deixamos de lado a tese da ALCA e fortalecemos e reforçamos a UNASUL.”….  “Por isso, eu creio que a democracia, vai voltar,  e espero poder participar deste processo que devolverá ao Brasil a esperança, a alegria, a possibilidade de construir um país que seja melhor, porque o que já fizemos entre 2003-14 é possível, que o Brasil seja sócio da Argentina, do Chile, de Bolívia, da Venezuela, do Equador, do Uruguai, da Colômbia. Isso é possível! Já fizemos isso uma vez. E podemos fazê-lo uma vez mais”.

O lawfare na América Latina pode estar moribundo, mas não está morto. É um grande desafio derrotar o lawfare, recuperar-se da destruição dos patrimônios nacionais, recuperar as economias para os excluídos, fortalecer os governos progressistas, tendo ainda que vencer a pandemia. Mas, Lula reconquistou seu direitos políticos e com isso acendeu uma luz de esperança no fundo do túnel para toda a região latino-americana.  Mas, acendeu também o farol vermelho do alerta à guerra ao vírus, do chamado aos governantes mundiais, pela quebra das patentes e vacinação internacional, massiva e solidária.

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