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segunda-feira, 22 julho, 2024

Lula e a causa palestina: esperanças, frustrações e os limites da política externa brasileira

© AFP 2023 / Evaristo Sa

Sputnik – Oriente Médio sempre teve um lugar especial na política externa dos governos Lula à frente do Brasil. Juntamente do seu assessor para Relações Exteriores Celso Amorim, Lula tem tentado exercer um papel decisivo para a resolução do conflito entre Israel e Palestina, embora sem muito sucesso.

Fato é que, durante seus dois primeiros mandatos (2003-2010), Lula procurou posicionar o Brasil como uma potência global emergente, apoiado em uma intensa diplomacia presidencial, o que levou a uma maior participação do país na discussão de problemas regionais complexos, como é o caso da situação envolvendo o conflito Israel-Palestina. Em repetidas ocasiões, o presidente Lula expressou seu desejo de ajudar a resolver o impasse nos processos de paz da região, apesar de entender os limites da atuação do Brasil para a consecução desse objetivo.
No geral, a estratégia de Lula para o Oriente Médio tradicionalmente conteve duas características principais. Em primeiro lugar, estava o papel do Brasil como potencial mediador de conflitos regionais. Tal aspiração já fora demonstrada quando, em 2010, Lula viajou para Jerusalém e Ramallah, na Cisjordânia, no intuito de estreitar contatos tanto com Israel quanto com a Autoridade Palestina.
Também no intuito de apresentar-se como um mediador internacional “neutro”, Lula e Amorim fizeram visitas inclusive ao Irã para auxiliar (junto da Turquia) um acordo nuclear com Teerã. Essas visitas, em um segundo momento, ampliavam as oportunidades comerciais e políticas para o Brasil no âmbito global, dado que o país pleiteava um tão sonhado assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
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Fazendo sinalizações positivas ao mundo árabe, o Brasil de Lula também foi um dos poucos países fora da Europa e do Oriente Médio a criticar abertamente a decisão do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de invadir o Iraque no início de 2003. Como resultado, o Brasil recebeu pouco tempo depois o status de membro observador da Liga Árabe.
Em segundo lugar, estavam os interesses brasileiros com a ampliação do comércio, importante componente nas interações do Brasil com o mundo árabe. Até por isso Lula procurou impulsionar relações com países-chave na região como Síria e Líbia (antes da eclosão da Primavera Árabe em 2011), que se apresentavam como potenciais parceiros comerciais de peso, podendo abrir oportunidades estratégicas para setores exportadores importantes do Brasil, como a agricultura e a pecuária. Durante os dois primeiros mandatos de Lula, aliás, transações econômicas com Israel também estiveram no foco das atenções, sobretudo após a assinatura de um acordo de livre comércio Mercosul-Israel em 2007.
Entretanto, as relações diplomáticas do Brasil com Tel Aviv viriam a ser impactadas negativamente pela posição abertamente pró-Palestina de Lula, que se manteve em consonância com as posições tradicionais do Partido dos Trabalhadores em favor da autodeterminação dos povos oprimidos em todo o mundo. Não por acaso, entre 2006 e 2010 o então ministro das Relações Exteriores do Brasil Celso Amorim (hoje assessor especial da Presidência) visitou os territórios palestinos por quatro vezes.
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Além disso, em 2007 o Brasil foi convidado a participar da Conferência de Anápolis, nos Estados Unidos, encontro dedicado a promover uma retomada nos processos de paz no Oriente Médio envolvendo Israel e a Palestina. Na ocasião, o Brasil chegou até mesmo a apresentar um roteiro político para os americanos, contendo determinadas premissas que, no entendimento brasileiro, poderiam ser úteis para diminuir as tensões na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
Seja como for, a aproximação mais evidente do Brasil com a Palestina e com o próprio Irã não foi bem recebida pelo governo de Israel. Ainda mais porque, em um de seus últimos atos diplomáticos em dezembro de 2010, o Brasil de Lula reconheceu oficialmente a soberania do Estado da Palestina ao longo das fronteiras de 1967, decisão apoiada por diversos outros governos latino-americanos. Seja como for, os interesses estratégicos do Brasil no Oriente Médio, a saber, como possível mediador em conflitos locais, inegavelmente tiveram suas limitações, em função do posicionamento mais pró-Palestina de Lula, gerando certas tensões sazonais com Israel e com o próprio Ocidente, principal patrocinador político de Tel Aviv.
Com Dilma à frente do Brasil entre 2011 e 2016, no entanto, arrefeceram as tentativas do Brasil de participar ativamente da resolução do conflito palestino-israelense, dado o baixo engajamento internacional da então presidente brasileira, que preferiu relegar ao Conselho de Segurança da ONU o papel de resolver as constantes crises no Oriente Médio. Ainda assim, em termos de marco político, o governo Dilma apoiou em 2012 o pedido de Mahmoud Abbas para que a Palestina obtivesse maior reconhecimento no âmbito das Nações Unidas, auferindo então o status de membro observador na organização.

Atualmente, diante da tragédia humanitária resultante de mais um novo conflito envolvendo Israel e a Palestina, Lula e a diplomacia brasileira têm enfrentado mais uma vez dificuldades em promover uma solução para a crise. Presidindo as últimas reuniões no Conselho de Segurança, o Brasil tentou passar resoluções (como as do dia 18 de outubro) que pediam por uma “pausa humanitária” e um cessar-fogo nas hostilidades na Faixa de Gaza.
A proposta brasileira, embora apoiada no mundo árabe, no Sul Global e pela própria Palestina, foi vetada de forma cínica pelos Estados Unidos que, assim como no conflito na Ucrânia, parecem estar satisfeitos com o prolongamento da violência na região, enquanto fornecem apoio incondicional para as ações do governo de Israel.

Esbarrando nos jogos de poder da principal potência ocidental, há muito pouco o que Lula e o Itamaraty possam fazer para trazer um fim ao conflito, independente das boas intenções do presidente brasileiro. Diante desse contexto, as esperanças de Lula com relação à causa palestina tendem a se transformar em frustração e a demonstrar os limites da diplomacia brasileira.

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