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domingo, 23 junho, 2024

‘Jovens estão servindo de carne de canhão’: especialista vê corrosão do apoio ocidental à Ucrânia

© Sputnik / Stringer

Corrupção, falta de transparência e desorganização. O conflito na Ucrânia completou um ano e meio e vive uma fase de questionamentos sobre o apoio ocidental a Kiev. Só dos EUA, o governo de Vladimir Zelensky já recebeu somas que ultrapassam US$ 114 bilhões (R$ 562,1 bilhões), montante que é superior ao PIB de países como Croácia, Paraguai e Sérvia.

Na última semana, um grupo de senadores dos EUA chegou a encaminhar carta ao diretor do gabinete de Gestão e Orçamento sobre a ausência de informações dos reais gastos americanos no conflito. “É difícil imaginar uma explicação benigna para esta falta de clareza”, enfatizou o texto.
Com isso, cresce a pressão do Congresso sobre o presidente Joe Biden e até sobre Zelensky no que diz respeito a prestação de contas.

“A grande maioria do Congresso permanece inconsciente de quanto os Estados Unidos gastaram até agora neste conflito, informação necessária para que o Congresso exerça prudentemente o seu poder de apropriação”, afirma a carta.

Tradicional aliada ucraniana, a Polônia também anunciou o fim do fornecimento de armas, enquanto políticos franceses como Florian Philippot, antigo membro do Parlamento Europeu, cobram um posicionamento parecido.
Para analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, tudo isso demonstra um “certo cansaço” com o conflito e a falta de qualquer possibilidade de vitória da Ucrânia, diante da ineficiência do governo local, que também começa a enfrentar questionamentos internos — estudo do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev aponta que 78% dos ucranianos culpam Zelensky pela corrupção no governo e nas administrações militares.
“Na verdade, o que os ucranianos veem é que eles não estão ganhando a guerra, o governo está desorganizado administrativamente, os jovens estão servindo de carne de canhão e a vida só vai piorando, embora para uma elite isso não seja verdade”, explica Ricardo Quiroga Vinhas, pesquisador da Segunda Guerra Mundial e servidor do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro.
O especialista cita ainda o maior poderio militar e econômico da Rússia.

“Então a gente vai assistir esta mudança no perfil do Zelensky, de um cara que trabalha para financiar a sua guerra para uma figura que vai ter que negociar”, diz Vinhas.

Tudo isso já tem levado às discussões nas altas esferas tanto dos Estados Unidos, da União Europeia e também da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre um eventual fim do apoio a Kiev.
“É fornecido armamento que não está fazendo a menor diferença, apenas prolonga o sofrimento dos ucranianos sem a possibilidade de vencer. A contraofensiva demonstra isso e implica no aumento da pobreza na União Europeia e nos Estados Unidos, porque boa parte do orçamento está sendo deslocada para a guerra na Ucrânia e os preços vão subindo.”
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Caminho é a negociação

Mesmo com o envio de armas e recursos, o especialista aponta que falta estratégia e capacidade de se organizar ao Exército ucraniano.
Sem isso, mesmo com os melhores equipamentos, não conseguirão êxito na contraofensiva.

“E se não houver avanço efetivo, vai ser bom eles começarem a repensar o apoio e talvez começarem a forçar o Zelensky a sentar para negociar. Quero lembrar que no início da guerra o Zelensky já havia sentado para negociar, e foi por influência do Ocidente que ele não aceitou construir pontos de paz em comum com os russos para dar um fim ao conflito”, disse Quiroga.

Antes da operação militar especial, o analista lembra que Zelensky tinha baixa popularidade, o que chegou a ser revertido no início, quando o presidente ucraniano era visto como um herói da resistência. “Mas, com o tempo, vai se vendo a incompetência do governo, a desorganização administrativa, a questão da corrupção voltando a aparecer de uma maneira bem explícita”, acrescenta.
Para Quiroga, não há sequer possibilidade de o governo prestar contas dos gastos e do armamento que chegou ao território — há, inclusive, denúncias de armas que caíram nas mãos de grupos supremacistas.
O coordenador do mestrado profissional em governança global e formulação de políticas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Tomaz Paoliello, ainda questiona a capacidade de uma eventual negociação de Zelensky para o cessar-fogo do conflito em entrevista à Sputnik Brasil.
Caso não fosse o próprio Ocidente, que pressionou a Ucrânia, a operação militar especial russa sequer teria começado, aponta o analista.
As exigências eram consideradas, segundo ele, “tranquilas”: garantir a independência e a autonomia ampliada das repúblicas do leste da Ucrânia, além de neutralidade em relação à OTAN e à União Europeia.

“Ele se vendeu como o cara da guerra, do combate e do enfrentamento. Eu não sei qual vai ser a capacidade dele nesta segunda etapa. Já deu para perceber isso nos discursos, sempre indo nas viagens ao Ocidente cobrando mais dinheiro, mais recursos, e isso não está se segurando assim”, analisa.

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Eleições podem mudar panorama

Diante do envio de vultosos recursos e da falta de efetividade e transparência dos gastos, o ex-presidente Donald Trump já começa a aproveitar os questionamentos a Joe Biden na corrida à Casa Branca do ano que vem.
Em comício na Carolina do Sul na última segunda-feira (25), um dos principais nomes republicanos para a disputa chegou a prometer rápida resolução do conflito caso retorne à presidência.
“Se o Biden ganhar a eleição, acho que [a situação] se mantém muito no cenário que está. Com o Trump no governo, muda totalmente. Trump ou um trumpista, teremos muito o que ver. Se mudar a posição dos EUA com relação à Rússia, e com relação à Ucrânia, isso pode levar as negociações para outro lado”, argumenta Tomaz Paoliello.
Além dos EUA, Zelensky, que chegou a adiar o processo eleitoral na Ucrânia para se perpetuar no poder, ainda encontra grande apoio da França e Alemanha.
Enquanto isso, a contraofensiva ucraniana, que prometia grandes resultados no último verão, falhou e já acumula mais de 71 mil baixas.

Durante encontro com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, Zelensky foi alvo de diversos protestos de manifestantes contrários à manutenção do conflito. O encontro ainda recebeu fortes críticas após aplausos efusivos ao ucraniano Yaroslav Hunka, de 98 anos, veterano nazista da Segunda Guerra Mundial.

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