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quinta-feira, 13 junho, 2024

Jovens anticapitalistas ganham eleições na única universidade jesuíta do Chile

Andrés Figueroa Cornejo
Adital

Durante a primeira metade de novembro, foram realizadas as eleições estudantis na única casa de estudos superiores da Companhia de Jesus da Igreja Católica chilena, a Universidade Alberto Hurtado. Em um apertado processo eleitoral, os jovens anticapitalistas agrupados na chapa Todxs, encabeçados pelo aguerrido presidente da Federação Estudantil, Gustavo Orellana Acuña, venceram o conglomerado composto pelos partidos afins ao governo nacional de Michelle Bachelet.

Gustavo tem 20 anos e estuda, atualmente, Pedagogia em Música e Sociologia. O estudante de excelência provém da populosa comunidade de Puente Alto, da metrópole. Sua mãe trabalha como cabeleireira e seu pai é repartidor de parafina e lenha. Declara-se “antiimperialista, anticapitalista, antipatriarcal e ecossocialista”.

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Gustavo Orellana Acuña

Qual é o programa dos Todxs?

Está fundado sobre três eixos cujo objetivo principal é a democratização da universidade. Se bem as distintas chapas que participaram das eleições propunham a democratização, as e os estudantes se inclinaram por quem tinha consequentemente mais tempo trabalhando por esse fim primordial. Ao término do dia, as pessoas votaram em quem lhes oferece maior confiança e capacidade de condução participativa.

Que contradições tinham as chapas do oficialismo a respeito da democratização da U [universidade]?

A principal incongruência é a impossibilidade de não poder democratizar nada, toda vez que por trás do oficialismo está um diretório empresarial, dono da universidade, e, além disso, por princípio, o oficialismo está constituído por partidos políticos que são parte de um executivo nacional que se opõe à democratização. Nós, em troca, sempre propusemos uma democracia sem o governo empresarial da instituição.

Rumo a uma comissão tripartida para democratizar a UAH

Concretamente, quais são as propostas democratizadoras que pensam realizar?

Junto com potencializar um corpo de conselheiros/as por faculdade, levar adiante uma comissão tripartida, através do qual refundemos a democracia no interior da universidade. O objetivo é que qualquer um de nós, como todo/a trabalhador da instituição, valha a mesma coisa para eleger o reitor da UAH. Ocorre que não pode existir uma “cabeça dupla”, como hoje. A direção e o conselho diretor devem ser eleitos pelo conjunto, uma vez que só o conselho diretor ou o diretório são quem elege atualmente a direção. E o diretório está composto por militantes dos partidos políticos do governo de Bachelet, entre os quais se encontram grandes empresários, como Rafael Guilisasti (ex-presidente do grêmio do empresariado no Chile), Anita Holuigue (diretora da Unimarc), Diego Vidal (diretor de várias empresas de distintos rubricas), Sergio Molina (ex-vice-presidente do Banco do Desenvolvimento), José Said (presidente do Banco BBVA e da Associação de Bancos e Entidades Financeiras e Afins A.G.), e Eugenio Tironi (diretor da Tironi Associados e colunista habitual do golpista jornal El Mercurio), entre outros (http://www.uahurtado.cl/universidad/autoridades-universitarias/). Eles são os que, na realidade, mandam. Em consequência, a UAH não é um órgão autônomo.

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Estudantes da UAH protestam contra a mercantilização da educação.

E já existe a instancia de auto-organização dos acadêmicos e trabalhadores da UAH?

Existe um sindicato único de trabalhadores/as, que aglutina acadêmicos e trabalhadores. Neste sentido, o importante é que o sindicato se amplie mais porque faltam docentes que se somem. Perdura ainda a reprodução da tradicional diferenciação entre trabalhadores/as de primeira e de segunda classe (acadêmicos e administrativos), agravada pela exclusão dos trabalhadores/as subcontratados/as de serviços gerais, da segurança e do cassino. Este é um dos desafios principais.

Lamentavelmente, o reitor e sacerdote jesuíta da UAH, Fernando Montes, uma das autoridades mais relevantes da Companhia de Jesus no Chile, a mesma congregação da qual provém o atual Papa Francisco, em relação aos estudantes e trabalhadores tem se caracterizado por adotar medidas repressivas e persecutórias quando considera ‘oportuno’ (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=200276). Notou-se a mão pesada de Fernando Montes durante a última eleição da Federação?

Sim. Sobretudo, no último dia das votações, quando durante as horas finais em que as urnas estiveram abertas, os estudantes de pós-graduação chegaram em massa para votar. Então, apareceu quase uma centena de votos em favor da chapa oficialista e contra nós. Eram sufrágios significativos em favor de quem triunfaria, mas, de maneira estranha, sua imensa maioria foi para a chapa do diretório da UAH! Por isso se efetuou uma pequena investigação, que apurou que os oficialistas fizeram propaganda nos dias em que legalmente já não se poderia fazer. Mais grave foi que muitos acadêmicos receberam a ordem da direção de obrigarem os e as estudantes a votarem contra nós. De fato, alguns acadêmicos chegaram a oferecer subir as notas de quem votasse contra de nós. Finalmente, ganhamos de todos os modos e sem necessidade de impugnar essa urna superfatura para cima.

“Somos povo que busca o seu povo”

Por que a Federação é importante para os jovens revolucionários/as da UAH?

Depois de vários anos de aprendizagem, de sanções e repressão, avaliamos que é o melhor que podemos fazer para enfrentar o diretório empresarial da UAH. É uma das maneiras de criar contra-hegemonia e apoiar o fundamental: o estabelecimento de relações sociais que apontem para a construção de uma maioria crítica na U. A direção sempre atuou para nos atacar como uma ‘minoria revolucionária’, e a nos dividir. Isso nos levou à unidade mais ampla possível para enfrentar e ganhar as eleições.

Vocês ganharam as eleições em meio à chamada ‘reforma educacional’ do governo nacional. Que visão tem dessa política do Executivo?

Entre março e abril de 2016, realizaremos um congresso estudantil, que resolverá democraticamente nossa posição e nossa ação a respeito. Agora bem, nossa reflexão preliminar como força social e política indica que, até agora, o ‘bloco de condução’ do movimento estudantil geral tem nos levado por um lugar equivocado. E esse lugar equivocado foi reduzir as transformações do ensino no país a uma pura demanda economicista, cheia de tecnicismos, mas sem tocar seus conteúdos e interesses. Não temos lutado por uma educação a serviço do povo. É mais em matéria somente de recursos, a reforma do governo não comporta a gratuidade universal do ensino, mas se limita a um sistema de bolsas (‘vouchers’ ou cupons) para os 40% mais empobrecidos da população. A luta consiste em combinar comoem só momento um sistema de ensino subordinado aos interesses dos oprimidos/as, mediante uma educação gratuita e de excelência.

Mais além de que o projeto de democratização profunda e participativa para o funcionamento interno da UAH, como observam seus vínculos ampliados para as diversas frações do movimento popular, até o momento exitosamente mercantilizado pelo poder?

Na prática concreta do que buscamos para a universidade, é, em miniatura, o que queremos para o conjunto da sociedade. Por isso colocamos também o acento em um sistema de representações: as representações do meio ambiente, de gênero e diversidade sexual, de autoeducação, de voluntariado (que não tem nada a ver com o assistencialismo paternalista e aparentemente apolítico), de defensoria popular. A sociedade chilena está baseada em relações de exploração, opressão e dominação. E nós somos povo que se solidariza reciprocamente. Somos povo que busca o seu povo. Nosso grande objetivo não pode reduzir-se ao campo puramente estudantil.

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Eleições movimentadas para a representação estudantil na UAH.

Gustavo, você escolheu ser um estudante da única universidade jesuíta do Chile. ¿Por que?

Há uma questão de valor fundamental nesse meio. As e os estudantes não sentimos um desafeto pelo discurso jesuíta da UAH. Nosso problema é com a incongruência entre o relato e a prática, sobretudo, no concernente à solidariedade de classe, que deveria existir, mas que não existe. Veja, na U devemos pagar uma taxa média anual por curso de 3 milhões de pesos (USD4 280), que, em seis anos, alcançam mai de USD25.700.

Nós consideramos que o serviço público não se faz somente abrindo cursos universitários de Humanidades e Ciências Sociais. O serviço público compreendemos como um ensino para e a partir do próprio povo. Isto estranhamos. A distância entre uma narrativa ética, por um lado, e os critérios concretamente discriminatórios da atual direção da UAH, por outro. A incoerência dói mais do que a verdade, por mais dura que ela seja.

Andrés Figueroa Cornejo

Jornalista. Twitter @PeriodistaFigue

 

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