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terça-feira, 11 junho, 2024

João Leonardo e o tempo dos cardos

Emiliano José*

Um soco no estômago, o livro de Celso Horta. Nem teve tempo de desfrutar do lançamento. Morreu em 21 de abril deste ano. Estive com ele em São Paulo desenvolvendo pesquisa sobre Marighella. Provocou em mim a lembrança de uma ditadura marcada por massacres. O massacre do Movimento de Libertação Popular (Molipo), tratado por Horta, suscita outras trágicas recordações sobre a ditadura.

Houve o massacre do Araguaia. O massacre contra o Partidão. O massacre contra Ação Popular. O massacre da Chácara São Bento. O massacre do PCBR. O massacre da Lapa. O massacre de Lamarca e camaradas. Lembrança de alguns, para não nos esquecermos. Todos eles, massacres, acontecidos nos trágicos anos 1970, entre Médici e Geisel.

Foto: Reprodução/MST

Embora Horta (foto) pretendesse, como jornalista, ex-prisioneiro político, ex-militante da ALN, tratar da saga de João Leonardo e do massacre do Molipo, foi além. Consegue trazer para o leitor a atmosfera da vida sob a ditadura, de como os militantes sobreviviam no tempo dos cardos, quando entre mil perigos comia-se cardos em vez de rosas, no embalo do “Poema do mais triste Maio”, de Manuel Bandeira. Leitura de um fôlego só, sem chance de pausas.

Leitor, tenha a pretensão de conhecer a saga do baiano João Leonardo, natural de Amargosa, mesma cidade onde Waldir Pires viveu entre os três anos e a adolescência, terá de ir atrás do livro, e só tem a ganhar se o fizer. Porque, além de tudo, bem escrito, capaz de transpirar a tensão daquele tempo e as singularidades dos personagens, de modo especial a de João Leonardo, cuja trajetória inclui outra cidade baiana, Alagoinhas, ele já adulto. Nada de imaginar possa eu, nem de raspão, substituir a leitura.

Há momentos de o leitor considerar a transformação de uma coadjuvante, Ana Corbisier, em protagonista, tal a presença, tal a tensão da passagem dela em busca do ponto com João Leonardo no Nordeste. Sente-se a pulsação, a emoção, o receio de não encontrá-lo, e isso depois de ele ter se frustrado com outros pontos não cobertos. Um encontro cinematográfico, como toda a história. Fascinante personagem, Ana Corbisier. A merecer mais e mais atenção.

Haverá também a revelação do papel de José Dirceu na tentativa de garantir condições à vida do militante e companheiro, eles dois raros sobreviventes do III Exército, nome emprestado aos 28 militantes treinados em Cuba, e levavam o nome por conta de duas outras experiências de treinamento de revolucionários na Ilha. Também um encontro emocionante, e João Leonardo morrerá sem cobrir o último ponto com Dirceu.

Ao voltarem da Ilha em 1971, os militantes do Molipo, oriundos do III Exército, o fizeram dispostos a retomar a luta revolucionária, correr atrás dos sonhos, por loucos fossem, e eram, embalados pela perspectiva foquista em voga. Havia de parte dos militantes militaristas, debraystas, como no caso dos integrantes do Molipo, a ilusão da força das armas e a subestimação do inimigo.

O inimigo não dormia de touca, no entanto. A subestimação era um equívoco. A ditadura decidira dizimar a oposição armada, e não só ela porque o PCB, adepto de outra estratégia revolucionária, não escapou da ofensiva. Os órgãos de segurança eram orientados sobrem quem torturar, quem devia sobreviver à tortura, quem devia ser aniquilado. Tudo era oficial. O terror não se escondia.

Acabou-se a idade das rosas!

Das rosas, dos lírios, dos nardos

E outras espécies olorosas:

É chegado o tempo dos cardos

Treinados em Cuba ou na China, com curso de guerrilha, condenados à morte. Banidos que retornassem, da mesma forma. Para viabilizar tal política de terror, de dizimação, e poder tentar de todas as maneiras extrair informações dos militantes, a ditadura criou aparelhos clandestinos de repressão, como a Casa da Morte, em Petrópolis, e o sítio 31 de março, em São Paulo.

João Leonardo, vindo de Cuba, retorna ao Brasil nos primeiros dias de 1972. Ele ainda não havia entrado no País e o Molipo já havia perdido nove militantes entre os retornados do chamado III Exército. De parte da ditadura, não havia contemplação, com nenhuma força revolucionária, da luta armada ou não. Um balanço trágico, sangrento em relação ao Molipo: em poucos meses de atividade, do final de novembro de 1971 a fevereiro de 1972, 12 dos 22 desembarcados ao longo de 1971 haviam sido trucidados pela repressão.

Comovente a andança de João Leonardo pelo Nordeste, tentando encontrar ambiência e caminhos para a retomada da luta revolucionária. Impressionante o esforço de Ana Corbisier para cobrir o ponto com ele em Arcoverde, Pernambuco. E a vida dele num povoado pernambucano desde a chegada à região. Espécie de Riobaldo Tatarana imerso no sertão, ele, letrado, conhecia o inesquecível jagunço de Guimarães Rosa.

Compra um sítio em São Vicente, distrito de Itapetim. Faz amizades, tudo. Um luxo: depara até com o amor novamente, Virgínia Paes Lima, atraente viúva. Parecia, até parecia, vida de sitiante, um camponês comum. Por dentro, a angústia o corroía, no entanto.  Não era possível o desenvolvimento do trabalho revolucionário. Uma andorinha só não faz verão. Um dia, à chegada da repressão, teve de sair às pressas, deixando tudo para trás.

Desembarca em Guanambi, depois Palmas de Monte Alto, no Oeste da Bahia, onde sabia poder encontrar um amigo de São Vicente. Não custa lembrar ser Monte Alto terra natal de Maria José Malheiros, militante de AP, a quem chamei “a última clandestina em Paris”, em livro escrito por mim.

Envolvido involuntariamente num conflito de terras, numa briga de coronéis, e provavelmente já identificado pelos órgãos de segurança da ditadura, foi cercado na fazenda onde estava, exatamente no dia 4 de novembro de 1975, data do sexto aniversário do assassinato de Carlos Marighella em São Paulo. Ele e dois trabalhadores amigos deram uma pausa na lida para almoçar, naquela terça-feira quase modorrenta. Jogar conversa fora, que ninguém é de ferro.

E o cerco, impiedoso, desaba sobre eles. A certeza de José Eduardo da Costa Lourenço, nome falso presente na identidade de João Leonardo: era a ditadura, e não havia alternativa senão meter bala. Meteu. Matou o tenente Oscar Pereira da Silva, capanga do chefe político local, Milton Laranjeira. O tenente, oriundo da PM paulista, já na reserva, espalhava o terror na região, a mando de Laranjeira. João Leonardo foi fuzilado no ataque, abatido por muitos tiros.

O pesquisador da Comissão Nacional da Verdade, Ivan Seixas, e Maria do Amparo de Almeida Araújo, representante da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, têm convicção de uma operação comandada pela repressão política, determinada a executar João Leonardo.

Desde Pernambuco, estavam no encalço dele. E cumpriam a determinação da ditadura de exterminar os integrantes do III Exército, tantos quantos pudesse. Foi o último dos executados dos militantes treinados em Cuba.  Do livro, emerge a tragédia de um tempo. O tempo dos cardos.

E passada a sazão das rosas,

Tudo é vil, tudo é sáfio, árduo,

Nas longas horas dolorosas

Pungem fundo as puas do cardo

Tempo em que o filho chorava e a mãe não via.

Tempo de uma geração, a do final dos anos 1930 a meados dos anos 1940, trespassada pelas balas assassinas da ditadura, envolta em sangue, a expor mártires desse tempo.

Outros, sobreviventes desse tempo, com marcas inscritas para sempre no corpo e na alma.

Tempo de cardos e de heróis, não cabendo aqui análise dos muitos erros deles, também consequência do espírito daquele tempo, marcado pela pressa.

Pressa em fazer a Revolução, que não veio.

A apresentação do livro é de José Carlos Barreto de Santana, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Ele tem razão: João, Ana, Maria, José, e tudo e todos os que eles representam continuarão vivos em cada um de nós, sempre que para eles dirigirmos os nossos pensamentos na forma de construção dos sonhos.

As saudades não me consolam,

Antes ferem-me como dardos.

As companhias me desolam,

E os versos que me vêm, vêm tardos.

Da mesma região onde João Leonardo da Silva Rocha tombou, ecoam vozes repletas de sonhos, e a nós cabe ouvi-las. A voz de Carlos Lamarca, de Zequinha, de Santa Bárbara, Otoniel, executados ali entre Brotas de Macaúbas e Ipupiara, no sertão da Bahia, ali onde mataram Corisco de feriram Dadá.

Maria José Malheiros saiu menina, e escapou desse destino, e vive como lavradora, a 250 quilômetros de Paris, imersa nos mesmos ideais.

A ditadura manchou o sertão de Riobaldo Tatarana de sangue. Os mártires, no entanto, deixaram-nos a disposição de mudar o mundo, transformá-lo numa festa de fraternidade e sonhos.

Meus amigos, meus inimigos,

Saibam todos que o velho bardo

Está agora, entre mil perigos,

Comendo, em vez de rosas, cardo.

Pudesse nos dizer, e à Walter Benjamin nos diz, João Leonardo cravaria uma frase simples, presente:

A luta continua!

HORTA, Celso. Tempo dos cardos

e o massacre do Molipo / Celso

Horta; edição: Aluizio Leite; Revisão:

Janete Tavano – 1.ed. – São Paulo :

Expressão Popular, 2023, 343 p.

*jornalista, escritor, integrante da Academia de Letras da Bahia. Autor de “Carlos Marighella, o inimigo número um da ditadura militar”; “Lamarca, o Capitão da Guerrilha”, em parceria com Oldack Miranda; “O cão morde a noite”; “As asas invisíveis do padre Renzo”, e a “A última clandestina em Paris e outras histórias”, entre tantos livros.

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