Sputnik – Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas apontam que a retomada das negociações em torno do excedente energético de Itaipu, em um momento que o governo dos EUA sinaliza interesse na energia da usina, se transformou em um imbróglio diplomático e geopolítico, que pode levar o Brasil a perder um parceiro no sonho da integração regional.
Brasil e Paraguai retomam em dezembro as negociações em torno da atualização do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras e de prestação de serviços da usina. Atualmente, a energia gerada na usina é dividida meio a meio entre Brasil e Paraguai, mas o Paraguai consome apenas cerca 35% dos 50% que tem direito.
O Anexo C estabelece que toda a energia excedente gerada pelo lado paraguaio seja enviada compulsoriamente ao Brasil. O Paraguai quer mudar essa determinação de modo a poder escolher para quem vender o excedente e a preços maiores.
A retomada das negociações ocorre após meses de congelamento. Em março, o governo paraguaio suspendeu as conversas após virem à tona acusações de que Agencia Brasileira de inteligência (Abin) tentou espionar o país vizinho, entre junho de 2022 e março de 2023, durante negociações financeiras relativas à usina.
Na semana passada, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, se reuniu com seu homólogo paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, para apresentar um relatório com os esclarecimentos solicitados pelo país vizinho sobre a suposta espionagem. Após receber o relatório, Lezcano afirmou que o Paraguai “deu por concluído o assunto”.
Em paralelo ao imbróglio, os EUA manifestaram interesse em comprar a energia excedente da usina, hoje destinada ao Brasil, para abastecer data centers. Em maio, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que a energia poderia impulsionar projetos de inteligência artificial norte-americanos.
À Sputnik Brasil, Beatriz Bandeira de Mello, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirma que as negociações são estratégicas para ambos os lados, mas sublinha que o envolvimento dos EUA no imbróglio ameaça tornar ainda mais custosas as tratativas para os dois lados, e pode “afetar outros mecanismos regionais, como o Mercosul, onde Brasil e Paraguai são sócios”.
“Além disso, uma ofensiva dos Estados Unidos sobre os recursos energéticos da região pode ser usada para desequilibrar a relação entre os países sul-americanos, como o que tem sido feito na Venezuela, por exemplo”, observa.
Ela destaca que hoje Paraguai e Argentina são os países de maior alinhamento com os EUA no Cone Sul, “o que gera ruídos na relação de ambos com o Brasil”.
“Paraguai é o único país que reconhece Taiwan, Marco Rubio constantemente tem dialogado com o governo paraguaio e nos últimos meses as relações entre [Santiago] Peña e Javier Milei [presidentes de Paraguai e Argentina] têm sido cada vez mais próximas. Essas condicionalidades conferem certo poder de barganha do Paraguai para entrar nas negociações do Anexo C, uma vez que o governo quer garantir sua soberania energética.”
Ela acrescenta que mesmo que a atualização do texto do Anexo C determine que o Paraguai não pode vender o excedente energético para outros países, essa postura do governo paraguaio pode pressionar o Brasil a adotar medidas mais benéficas ao interesse paraguaio, como um aumento pontual das tarifas de repasse de energia. E caso o acordo não seja alcançado, pode levar a um alinhamento ainda maior entre EUA e Paraguai, com possibilidade de abertura de data centers no país vizinho ou incremento da cooperação militar e de defesa entre as partes.
“É exatamente esse cenário que a diplomacia brasileira quer evitar”, destaca a analista.
Mello afirma ainda que, caso o Paraguai deixe de fornecer a “energia excedente”, pode haver um aumento dos preços para o consumidor final, de pequeno e médio porte, no Brasil, o que causaria diminuição da competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional e alterações no padrão de distribuição da energia no território brasileiro.
“Esse aumento também pode atravessar os interesses do próprio governo do Brasil em atrair investimentos em tecnologia e inteligência artificial baseado na economia verde, como o Plano Redata.”
Regiane Nitsch Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que a retomada das negociações ocorre em um cenário muito diferente do observado no início das tratativas.
“O que antes era uma discussão técnica e financeira bilateral, foi se transformando, aos poucos, num imbróglio diplomático e geopolítico também, de muita complexidade”, afirma.
Segundo ela, o impacto da espionagem fornece ao Paraguai capital moral e deixa um rastro de desconfiança que a administração atual do presidente paraguaio, Santiago Peña, “utiliza muito ao seu favor”.
“A gente tem que ver que existe a geopolítica da inteligência artificial. A estratégia dos EUA não é importar a eletricidade, mas exportar a demanda energética instalando data centers de IA no Paraguai. Então isso transforma Itaipu num ativo muito estratégico na corrida tecnológica global, tirando de uma discussão puramente regional.”
Somado a isso, ela aponta o alinhamento automático entre Peña e o presidente norte-americano, Donald Trump, destacando que o presidente paraguaio enxerga a aliança com os EUA como uma oportunidade de “reposicionar o Paraguai com esse hub tecnológico-financeiro em contraponto à influência brasileira ou chinesa”.
Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, professor de economia e relações internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), afirma que o que ocorre hoje “é uma disputa clássica entre uma grande potência, no caso, os EUA, e uma potência regional, no caso, o Brasil, buscando exercer seu espaço de influência”.
“Nós temos aqui uma questão que passa pelas transformações globais, pela existência de um mundo multipolar entre três grandes potências, Rússia, China e EUA, e todas essas grandes potências pressionando as potências regionais para ocupar o espaço dessas potências regionais”, explica.
Segundo ele, se as negociações tiverem resultados negativos podem afetar não apenas o mercado energético brasileiro, mas também levar o Brasil a perder “um parceiro do sonho de integração regional da América do Sul, e eventualmente da América Latina”.
“Não seria uma goleada, mas uma vitória de 1 a 0 para Donald Trump contra [o presidente brasileiro] Lula, mostrando que, de fato, os países não têm amigos, mas interesses e, nesse caso, EUA e Brasil estão em lados opostos”, afirma o especialista.
Que cartas na manga a diplomacia brasileira tem na negociação?
Mello avalia que, para impedir que o excedente energético de Itaipu seja destinado aos EUA, o Brasil pode estimular o governo paraguaio com a assinatura de um pacote de investimentos para obras de infraestrutura como, por exemplo, apoio para as obras da hidrovia Paraguai-Paraná e do Corredor Bioceânico.
Outras opções seriam fornecer estímulos que promovam o desenvolvimento sustentável do Paraguai, como cooperação técnica para ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, ou ainda uma coordenação de ações de segurança pública, já que esta é outra área na qual os EUA têm avançado sobre o Paraguai nos últimos meses.
“Em agosto deste ano, Paraguai e EUA firmaram um memorando de entendimento para ações contra migração ilegal e terrorismo em território paraguaio. Nessa área, o Brasil pode oferecer uma resposta regional coordenada ao combate aos crimes transnacionais, por exemplo. O que o governo brasileiro precisa fazer é conferir prioridade às relações bilaterais com o Paraguai, que nos últimos anos foram escanteadas.”






