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quarta-feira, 28 fevereiro, 2024

Isolado na Venezuela, Guaidó faz campanha para Bolsonaro e teme vitória de Lula

Desde 2019, governo Bolsonaro reconhece o ex-deputado como ‘presidente interino’ da Venezuela – Alan Santos/PR/Flickr
Apoio mútuo entre presidente brasileiro e ex-deputado venezuelano é por sobrevivência política, apontam pesquisadores
Lucas Estanislau
Caracas (Venezuela) |

Sem qualquer tipo de mandato público vigente, envolvido em escândalos de corrupção e com níveis de popularidade em crise, o ex-deputado que se autoproclamou presidente da Venezuela, Juan Guaidó, agora enfrenta um isolamento internacional cada vez maior.

Prestes a completar quatro anos liderando o que ele e seus apoiadores chamam de “governo interino”, espécie de organização paralela que foi estabelecida em fevereiro de 2019 no momento em que ele se autoproclamou, o opositor venezuelano assistiu nos últimos meses a derrota de aliados de direita em países vizinhos e agora teme perder um de seus últimos apoiadores na América do Sul: o presidente Jair Bolsonaro (PL).

A tendência é visível para analistas políticos venezuelanos e também para Guaidó. Tanto que o ex-parlamentar chegou a gravar um vídeo de apoio ao candidato da extrema direita à reeleição que enfrentará o ex-presidente Lula (PT) no 2º turno das eleições presidenciais no dia 30 de outubro.

Na mensagem, publicada um dia antes do 1º turno da votação, Guaidó agradece Bolsonaro pelo apoio que tem recebido do mandatário brasileiro nos últimos anos e diz esperar que, após as eleições, o país “continue a ser aliado da democracia e não de uma ditadura”, insinuando que poderia perder apoio caso o atual presidente seja derrotado.

Já Bolsonaro reafirmou seu respaldo ao “interinato” de Guaidó e disse que os venezuelanos acompanham as eleições no Brasil pedindo que o país “nunca mais [volte] a eleger políticos que apoiam e financiam a ditadura que os massacra”.

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Para o cientista político e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Central da Venezuela (UCV) Atilio Romero, o isolamento enfrentado por Guaidó também ocorre com Bolsonaro, na medida em que a derrota da direita em países como Argentina, Peru, Colômbia e Chile terminou desmontando o Grupo de Lima, aliança regional criada para desestabilizar o governo de Nicolás Maduro e dar suporte às iniciativas do “interinato” opositor.

Sendo assim, continua Romero, o apoio mútuo que Bolsonaro e Guaidó manifestam responde à sobrevivência política dos dois direitistas que estaria ameaçada com o impulso que partidos de esquerda vêm retomando na região.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Romero ainda afirma que os discursos do opositor venezuelano e do presidente brasileiro são muito parecidos e parecem obedecer a uma “lógica norte-americana” de colocar seus adversários como “ditadores”, enquanto eles seriam os verdadeiros defensores da democracia.

“A lógica de Guaidó sempre foi e será a mesma lógica dos norte-americanos, ou seja, a suposta defesa da ‘democracia’, ‘liberdade’ e dos ‘direitos humanos’ contra o que chamam de ‘ditadura’ e ‘repressão’. No fundo, esse discurso é totalmente conveniente a Bolsonaro porque faz com que o presidente brasileiro coloque seu adversário, Lula, no terreno da ‘ditadura’, do ‘comunismo’ etc”, diz.

Crise no “interinato”

Por não ser resultado de eleições, o “governo interino” de Guaidó buscava sua legitimidade no reconhecimento de outros países. Logo em 2019, vários governos passaram a reconhecer o ex-deputado como “presidente interino” da Venezuela. O apoio de nações como Brasil, Colômbia, Argentina, Chile, da União Europeia e dos Estados Unidos foi fundamental para dar sustentação à narrativa do opositor.

Com o apoio político, financeiro e logístico desses governos, Guaidó conseguiu se apropriar de diversas empresas e ativos do Estado venezuelano no exterior para manter seu “governo paralelo” funcionando. Além disso, o opositor protagonizou tentativas de golpe de Estado – como a Operação Libertad, em 2019, e a Operação Gideón, em 2020 – e invasão ao território venezuelano, todas fracassadas.

Nos últimos meses, entretanto, mudanças de governo fruto de eleições nos países vizinhos e reflexos geopolíticos gerados pela guerra na Ucrânia retiraram força dos planos de Guaidó e acabaram isolando o ex-deputado, inclusive entre a oposição venezuelana.

A vitória de Gustavo Petro na Colômbia foi o golpe mais duro para o “interinato”, que tinha no ex-presidente Iván Duque um de seus maiores patrocinadores. O novo mandatário colombiano já retomou relações diplomáticas com o governo do presidente Nicolás Maduro e devolveu a empresa venezuelana Monómeros ao Estado vizinho, após ela passar mais de 3 anos sendo controlada por funcionários de Guaidó.

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O governo do democrata Joe Biden, apesar de não retirar totalmente o apoio ao opositor, também já deu sinais de que seguirá uma linha diferente de seu antecessor, Donald Trump, em relação à Venezuela. Desde o início de 2022, os Estados Unidos já enviaram duas delegações para negociar diretamente com Maduro em busca de soluções energéticas para suprir a demanda por petróleo.


Juan Guaidó gesticula ao falar durante uma conferência de imprensa no parque Morichal, no bairro de Prados del Este / Yuri Cortez / AFP

Outro episódio recente deixou ainda mais claro o enfraquecimento político do “governo interino” venezuelano, quando seu representante na Organização dos Estados Americanos (OEA) esteve ameaçado de perder o assento no órgão. No dia 6 de outubro, 19 países votaram a favor da exclusão do representante de Guaidó, que ocupa a cadeira venezuelana desde que a OEA reconheceu o ex-deputado como “presidente interino”. A votação favorável foi puxada por Argentina, Bolívia, Chile, México e Colômbia, e só não foi concretizada pois EUA, Canadá, Paraguai e Guatemala votaram contra a exclusão.

Para Romero, a tentativa de excluir Guaidó da OEA simboliza uma mudança que vêm ocorrendo na América Latina de maior presença de forças de esquerda na região e que deve normalizar as relações com a Venezuela, ainda que não mantenha laços íntimos com o país.

“Esse fato revela uma mudança geral das relações entre os governos progressistas e de esquerda, e aqui precisamos fazer uma distinção entre progressistas e de esquerda, pois estes se relacionam com a Venezuela de uma maneira mais íntima do que os primeiros. De qualquer maneira, agora já existe um conjunto de governos mais favoráveis diplomaticamente”, afirma.

Bolsonaro e Guaidó: agentes do rompimento diplomático

O reconhecimento do governo Bolsonaro ao “governo interino” de Guaidó em 2019 foi a antessala do rompimento diplomático entre Brasil e Venezuela que viria um ano mais tarde, em 2020, quando Brasília decidiu fechar todas as sedes diplomáticas em território venezuelano.

As relações entre os países já eram tensas desde o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). Para o pesquisador venezuelano Diego Sequera, já era claro para Caracas que a diplomacia brasileira entrava em um período de hostilidade e que os laços com o Brasil iriam se deteriorar após a derrubada de Dilma.

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“As relações começaram a se deteriorar dramaticamente logo após o golpe legislativo e a chegada de [Michel] Temer. Com Bolsonaro, essa agonia foi prolongada e isso ocorreu junto com a degradação da diplomacia brasileira, no que converteram o Brasil em tão pouco tempo, justamente após o país ter atingido esses altos níveis como potência regional e como uma potência global emergente”, diz.

Para o futuro, no caso de uma vitória de Lula nas eleições, Sequera acredita que as relações entre Brasil e Venezuela serão retomadas em moldes mais pragmáticos do que ideológicos, simbolizando um resgate da diplomacia brasileira.

“Eu acho que a comparação com a retomada colombiana é correta, porque não é apenas por afinidade política e ideológica, mas sim por um tema de profissionalismo diplomático e da correção de um desastre que comprometeu as relações do Brasil com seus vizinhos”, afirma.

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