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terça-feira, 11 junho, 2024

Ignorância, neoliberalismo e retrocesso civilizatorio

 Pedro Augusto Pinho*

John Armitage (1807-1856), comerciante inglês, viveu no Brasil durante os primeiros anos da nossa Independência e escreveu uma História do Brasil, onde se lê, no prefácio: “Talvez não haja país algum com o qual as relações da Grã-Bretanha sejam tão vastas, e do qual, no entretanto, conheça tão pouco, como o Império do Brasil. A carência de quaisquer meios de referência sobre os negócios políticos e financeiros do país foi tão vivamente sentida pelo Autor, durante sua longa residência no país, que o induziu a empreender a história que se segue, principalmente pela consideração das vantagens que, do ponto de vista comercial, lhe adviriam do conhecimento perfeito dos fatos aqui assinalados. Teve também ocasião de visitar o teatro da guerra Cisplatina, tornando-se, destarte, apto para apreciar, baseado em observação própria, os costumes e o caráter dos rudes habitantes dessa região. Em 1º de julho de 1835.” (J. Armitage, “História do Brasil”, Ed. Itatiaia, Ed. da Universidade de São Paulo, Belo Horizonte, 1981).

Logo no Capítulo I da obra citada, Armitage nos revela fato que muito influenciará o futuro do Brasil: a ignorância, o desconhecimento das ocorrências como efetivamente se dão e não como se divulgam. “Pela política de Portugal, uma das mais belas e férteis regiões do Globo havia sido privada de toda a comunicação e comércio com as outras nações da Europa, a ponto que a residência e admissão dos estrangeiros eram ali vedadas”.

Entenda-se que para um inglês do século XIX o mundo era a Europa, fora da qual só existiriam colônias e selvageria. E prossegue Armitage:

“A consequência natural destas medidas foi que, das instituições coloniais pouco mais se sabia daquilo que a Metrópole assentava dever comunicar; e como a maior parte das notícias, emanadas de tal origem, eram desfiguradas pelo sentimento de prevenção, é de presumir que seja bem aceito um relatório prévio, que, apesar de ser em si mesmo pouco interessante, servirá para elucidar muitas partes históricas da época que se seguiu”.

O domínio inglês foi o domínio das finanças até que, sufocando seu próprio desenvolvimento, agora industrial, teve seu poder mundial tomado pela colônia na América do Norte: os Estados Unidos da América (EUA).

No Brasil, o poder colonial era sustentado pelo poder fiduciário, sendo matriz as capitanias hereditárias, e se perpetuando com os poderes que o Estado Colonial, fundado por Tomé de Sousa cumprindo o Regimento de Dom João III, de Portugal, entregou aos senhores de terra, onde destacamos o de alistar, para guerra ou qualquer ação defensiva, os habitantes em suas terras.

“QUEREMOS O BRASIL DE VOLTA” (Aloysio Biondi, 2000)

O neoliberalismo chegou ao poder no Brasil conduzindo a sucessão do Presidente Ernesto Geisel.

O golpe das finanças internacionais foi possível pelo endividamento que os governos de Costa e Silva (1967-1969), Emílio Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979) tomaram no exterior para promover o salto de desenvolvimento, o “Milagre Brasileiro”, no país que importava 80% do petróleo que necessitava para crescer e manter a industrialização nacional.

Não foi o endividamento que mantém a dívida crescente, como ocorre desde 1990. Mas colocou Geisel na difícil condição de entregar um país sem crédito, pária entre as finanças internacionais, destruindo todo trabalho dos “tenentistas” no governo, agora como generais.

Preferiu entregar o País ao filho de quem derrotara na contra revolução, apoiada pelas finanças, de 1932, general Euclides de Figueiredo.

Com as finanças, apátridas desde as desregulações promovidas nos mercados financeiros na década de 1980, que fizeram decuplicar o número de “paraísos fiscais”, e com o “Consenso de Washington” (1989), instala-se no Brasil, na década de 1990, o neoliberalismo, a privataria, como denominou o jornalista Elio Gaspari (1944), e a mais ampla corrupção, narrada por Amaury Ribeiro Jr (1959), que a qualifica “Tucana”, e envolve, entre outros, os psdebistas Tasso Jereissati, Ricardo Sérgio de Oliveira, Gregório Marin Preciado nas privatizações dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) (A. Ribeiro Jr, “A Privataria Tucana”, Geração Editorial, SP, 2011).

Se a industrialização exige crescente capacitação tecnológica e, consequentemente, mais instrução, mais conhecimento, as finanças, concentradoras de renda, como no Brasil Colônia, preferem a concentração da educação no reduzido quantitativo dos ricos, da elite que governa o país. Para os demais as versões que melhor garanta à elite financeira o poder, que melhor iluda o povo, que conduza os despossuídos e ignorantes para as religiões dos shows, das mágicas, dos milagres, daí a expansão extraordinária das igrejas neopentecostais.

NO OCIDENTE, COMO NO BRASIL

Se a situação brasileira sob a condução de governos neoliberais é muito ruim e piora a cada nova gestão, a situação do Ocidente, assim entendidos os países europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), alguns países da Europa Central e nórdica, os EUA, o Estado de Israel e a “Grã-Bretanha asiática”, o Japão.

Este mundo, que Pepe Escobar (1954), jornalista investigativo paulista, atuando no exterior, denomina OTANISTÃO, vem perdendo capacitação industrial, militar, recursos econômicos, financeiros, desde a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS (dezembro de 1991), aceleradamente a partir de 2000.

Os países do Otanistão e seus aliados metem-se em guerras nas quais têm sido sempre derrotados, embora a imprensa internacional, como a brasileira, controladas por eles neguem esta realidade.

Fiquemos apenas no século XXI. Começa com a farsa do 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, para justificar os ataques no mundo islâmico. A desinformação passa a divulgar como sinônimas palavras que se relacionam a etnia, nacionalidade, religião e governança. Árabe, muçulmano, islâmico, passam a significar inimigo e agressor desleal.

E os EUA e aliados são derrotados no Afeganistão, destroem o Iraque, mas não conseguem governar o país, assim com retrocedem a Líbia ao tempo das tribos isoladas, destruindo o país que Muammar al-Gaddafi (Kadhafi) transformara no de maior Índice de Desenvolvimento de Humano (IDH) da África.

E, dentro de casa, a outrora desenvolvida e criativa tecnologicamente Alemanha, vive o processo de desindustrialização, de desemprego, de greves e miséria onde se encontram moradores de rua, inimagináveis há 40 anos. A França, o Reino Unido, a Bélgica, os Países Baixos, para ficar na rica Europa, conhecem, para a maioria da população, o desemprego, a falta de saúde, a fome e a violência prenunciando dias ainda piores.

As triunfantes privatizações dos anos 1980 passam pelo processo de reestatização pois a falta de manutenção e de substituição de peças (às vezes não mais fabricadas) tornaram o transporte ferroviário, os serviços de saneamento básico e de fornecimento de energia deficientes ou inexistentes.

E as guerras são sorvedouros de recursos, de pessoas e de bens. Toda Europa sofre com a guerra que a OTAN resolveu desencadear, a partir da primavera ucraniana de 2013/2014 (Euromaidan), contra a Rússia, antecedida pelo Acordo de Associação da União Europeia (EU) com a Ucrânia de 30/03/2012.

O Estado de Israel foi criação das finanças inglesas que perdiam seu domínio colonial que, sob a forma de territórios governados por Londres, protetorados, mandatos britânicos e condomínios, se estendiam pelo Oriente Médio e norte da África. Ou seja, iam da Pérsia à Abissínia, em área rica de petróleo.

A Guerra contra a população palestina, pois Israel e seus aliados – Reino Unido e EUA – impedem a efetivação do acordo para criação do Estado de Israel que também previa a criação do Estado Palestino. E os palestinos que, não tendo exército, se armam para proteger seu território, são denominados pela imprensa sob controle financeiro de terroristas.

Porém o mundo já tomou conhecimento desta farsa e cada dia mais um país se declara contra o Estado de Israel que se mantém pelo mais importante e rico lobby que existe junto ao Congresso Estadunidense.

E O MUNDO FORA DO CONTEXTO FINANCEIRO?

Há, no entanto, um outro mundo que não deseja guerras e propugna pela colaboração entre os países. É o mundo da multipolaridade, que tem na Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, na sigla em inglês, BRI) sua principal instituição para promover esta colaboração que hoje já congrega mais de 150 países e 30 organizações internacionais.

Além da ICR, nove países participam como membros plenos da Organização para Cooperação de Xangai (OCX, em inglês SCO) com 12 parceiros e observadores, visando à cooperação para a segurança, e para questões econômicas e culturais.

Ainda neste contexto de aliança, ainda em construção, porém com 10 participantes tem-se o BRICS, surgido das iniciais dos países que apresentavam, antes do domínio neoliberal, aqueles com maior desenvolvimento: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa).

Este mundo que propugna pela multipolaridade, reconhece e respeita as diferenças entre as nações, não busca impor homogeneidade, como a unipolaridade neoliberal, que legisla para o mundo, vem demonstrando sua força a cada vitória tecnológica, econômica, militar e social.

A recente reeleição do Presidente Vladimir Putin, da Rússia, por quase 80% dos votos, em país em guerra contra a agressão da OTAN, mostrou o apoio popular para defesa do Estado e para o padrão de vida já alcançado pela Federação Russa.

Os mandatários da Alemanha, Bélgica, França, Países Baixos, Reino Unido estão certos de que, somente com muito engodo, com farsas e falácias, com corrupção e métodos condenáveis poderão se manter no poder.

As antigas colônias europeias da faixa do Sahel, na África, estão promovendo uma segunda luta pela independência, expulsando a França, tropas estadunidenses, de seus países, contando com o apoio da Rússia e da China. Brevemente veremos o Níger, Mali, Burkina Fasso, Guiné, Etiópia e muitos outros participando das organizações multipolares e oferecendo os serviços que formam a cidadania: saúde, educação, habitação, mobilidade, informação e direito à comunicação e defesa dos direitos sociais, políticos e civis a todos seus habitantes.

O mundo neoliberal, financeiro, unipolar se desfaz, desagrega, perde na guerra e na paz.

O Brasil hesita em optar a seu favor, revendo as privatarias que colocaram o esforço do trabalho de seus habitantes, as riquezas que o tornam país desejado, como lemos na História de John Armitage, para fortuna de estrangeiros e maus brasileiros, vacila em assumir, como o fazia até 1979, e com competência, o controle das fontes de energia e do planejamento nacional.

E avançar na educação em horário integral, com alimentação, higiene, assistência psicológica, ensino de artes e esportes, com Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), da creche ao ensino médio, em todos distritos brasileiros.

O pré-sal sendo brasileiro fornecerá recursos suficientes para este projeto de redenção brasileira.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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