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domingo, 26 maio, 2024

“Há um contexto histórico que explica o encurralamento da Rússia”

Annie Lacroix-Riz [*]

Uma análise da situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração.   Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz.   Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região.

 

Nos meios de comunicação social, fica-se com a impressão de que a guerra na Ucrânia aconteceu a partir do nada. O que nos pode dizer sobre o contexto histórico desta guerra?

Em primeiro lugar, os elementos históricos estão praticamente ausentes daquilo que nos é frequentemente descrito como uma “análise” da situação. No entanto, há dois aspetos importantes a ter em conta nos acontecimentos atuais. Em primeiro lugar, existe uma situação geral, ou seja, uma agressão da OTAN contra a Rússia. Depois, há uma espécie de obsessão contra a Rússia – e até contra a China. Esta obsessão não é nova e, portanto, permite relativizar o atual frenesim anti-Putin. A essência da alegada “análise ocidental” assenta na ideia de que Putin é um lunático paranoico e/ou um novo Hitler. Mas o ódio contra a Rússia, assim como o facto de não se suportar que está possa ter um papel mundial, são tão velhos quanto o imperialismo americano.

 

Como é que explica está obsessão?

É uma obsessão característica de um imperialismo dominante que foi hegemónico durante, praticamente, todo o século XX. Este imperialismo não quer perder a sua hegemonia, ainda que, na realidade, a esteja a perder. Com efeito, hoje já não estamos na mesma situação em que estávamos na década de 1950, quando os Estados Unidos representavam 50% da produção mundial. A China está a aproximar-se do primeiro lugar, no mundo, e isso não agrada aos Estados Unidos. Nos últimos anos, atingimos um momento particularmente agudo neste confronto, marcado por uma série de ataques surpreendentes.

Neste confronto, a Rússia também é um alvo. Temos a impressão de que haveria uma espécie de rancor contra os bolcheviques, mas é preciso saber que está Russofobia do imperialismo americano remonta à era czarista, e continuou depois, incluindo após a dissolução da União Soviética. Os compromissos assumidos pelos Estados Unidos de não avançar militarmente na zona ex-soviética foram, desde então, todos violados. De 1991 a fevereiro de 2022, a OTAN

estabeleceu-se nas fronteiras da Rússia e a nuclearização da Ucrânia tornou-se numa realidade imediata.

Qual é o lugar da Ucrânia nos conflitos entre potências imperialistas?

A Ucrânia é inseparável da história da Rússia, desde o início da Idade Média. A Rússia, com toda a sua riqueza natural, é uma gruta de Ali Baba e a Ucrânia foi a sua mais bela joia: é uma fonte extraordinária de carvão, de ferro e de tantos outros recursos minerais, e um formidável depósito de trigo e de outros cereais – o que, aliás, atraiu a cobiça de muitos, desde há muito tempo. Para nos mantermos no período imperialista (desde a década de 1880), podemos dizer que foi a Alemanha que, num primeiro momento, se interessou pela Ucrânia. Antes da guerra de 1914, o Reich alemão tinha decidido, a fim de controlar o Império Russo, garantir o controlo dos seus “mercados” mais desenvolvidos: a Ucrânia e os Estados bálticos. Durante o conflito, a Alemanha fez destes Estados e da Ucrânia um verdadeiro reduto militar, a base do seu ataque ao Império Russo. Durante a Primeira Guerra Mundial, se a Alemanha falhou na Frente Ocidental, logo em 1917, o mesmo não se pode dizer da Frente Oriental, a qual foi dominada pela Alemanha até à sua derrota. E, apesar de, desde janeiro de 1918, a recém-soviética Rússia estar a sofrer uma agressão adicional de todas as outras potências imperialistas (14 países invadiram a União Soviética, sem que tenha havido uma declaração de guerra), Berlim conseguiu impor-lhe, em março de 1918, o Tratado de Brest-Litovsk, confiscando-lhe a Ucrânia. A derrota da Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial não fez com que a Ucrânia fosse devolvida à União Soviética, dada a guerra travada no seu solo pelos “Aliados”, apoiada por todos os elementos anti-bolcheviques, russos e ucranianos.

A Ucrânia conheceu, então, uma curta independência…

De 1918 a 1920, houve, de fato, um curto período de “independência” folclórica, tendo como pano de fundo a agressão dos exércitos brancos (pogromistas) de Denikin, e do pogromista Petlyura, oficialmente “independentista” e aliado da Polónia (que pretendia, para si, toda a Ucrânia ocidental). A Ucrânia continuou, então, a ser alvo do Reich, o qual sucedeu ao império austríaco, depois “austro-húngaro” dos Habsburgos (possidentes da Galicia oriental, a oeste da Ucrânia, depois de dividida a Polónia[1]). Esta tutela germânica constituiu, assim, desde o tempo dos Habsburgos, uma base preciosa para o enfraquecimento da Rússia e do Eslavismo Ortodoxo, tendo-se baseado, sobretudo, no Uniatismo[2], liderado pelo Vaticano.

Que papel tinha o Vaticano?

O Uniatismo Católico constituiu o apoio ideológico da conquista germânica, tendo seduzido parte das populações do oeste da Ucrânia, graças à sua aparência formal, muito próxima da Ortodoxia. Este instrumento da conquista austríaca foi tomado em mãos pela Alemanha, na era imperialista: o Vaticano, compreendendo que já não podia contar com o moribundo império católico, submeteu-se, definitivamente, ao poderoso Reich protestante, no início do século XX, incluindo na Ucrânia. No período entre-guerras, a Ucrânia desempenhou, assim, um papel decisivo na aliança entre a Alemanha e o Vaticano, a quem Berlim confiou a espionagem militar, realizada através dos clérigos uniatas. Podemos observar, deste modo, como foi organizada a tentativa de conquistar a Ucrânia, consagrada, aliás, na Concordata do Reich de julho de 1933, assinada entre Berlim e o Vaticano. Um dos seus dois artigos secretos estipulava que a Alemanha e o Vaticano seriam aliados na tomada de posse da Ucrânia, que era um dos principais objetivos da guerra da Alemanha, tanto durante a Primeira Guerra Mundial, como durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a militarização, a ocupação e a exploração econômica estariam sob a alçada da Alemanha, a “recristianização” católica seria entregue ao Vaticano.

Os Estados Unidos também estavam interessados…

A Ucrânia é, não apenas um elemento importante no quadro mundial, como a porta de entrada para o Cáucaso, rico em petróleo. Os Estados Unidos juntaram-se ao imperialismo alemão para penetrar na Rússia e, em especial, na Ucrânia, após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1930, todos os imperialismos sonhavam em devorar a rica Ucrânia. No meu livro  Aux origines du carcan européen [Sobre as Origens do Colete-de-Forças Europeu], mostrei como Roman Dmovski, um político polaco de extrema-direita, tinha analisado na perfeição, em 1930, “a questão ucraniana”. Roman Dmovski escreveu que todos os grandes imperialismos queriam devorar a Ucrânia, sendo que, no topo, dois se atarefavam febrilmente para o conseguir: o alemão e o americano. Este autor disse, também, que, se a Ucrânia fosse arrancada da Rússia, tornar-se-ia num país puramente “consumidor”, obrigado a comprar os seus produtos industriais fora. Ela nunca poderia suportar tal perda, acrescentou.

Isso não funcionou, pois a Ucrânia continuou no seio da União Soviética. Ainda assim, havia, ou não, um nacionalismo ucraniano?

O nacionalismo ucraniano foi, primeiro, alemão e, depois, americano (ou melhor, ambos), porque não tinha capacidade real de independência: o Reich financiou-o antes de 1914, e nunca mais cessou de o fazer. Na verdade, estas pessoas que diziam querer uma Ucrânia “independente” (como Bandera e os seus seguidores) pertenciam ao inatismo que, no período entre-guerras, e durante toda a Segunda Guerra Mundial, se confunde com o nazismo.

É difícil não fazer a ligação com estes movimentos que hoje encontramos: o batalhão Azov, Pravy Sektor, etc., são os herdeiros diretos que se reivindicam do movimento autonomista ucraniano do período entre-guerras, que viu a criação, em 1929, do movimento banderista. Denominado “Organização dos Ucranianos Nacionalistas” (OUN), foi inteiramente financiado pelo Reich de Weimar e, depois, por Hitler (depois de o “autonomismo” ter sido subsidiado pelo Reich wilhelminiano).

Como é que este movimento se desenvolveu?

O movimento de Stepan Bandera, o agora “herói nacional” oficial do Estado ucraniano, e ao qual o batalhão Azov e outros grupos pró-nazistas constantemente prestam homenagem, desenvolveu-se a partir de 1929, na Ucrânia polaca e na Ucrânia eslovaca. Não estava, contudo, presente na Ucrânia soviética e ortodoxa. Os “banderistas”, como as outras correntes do “nacionalismo ucraniano”, eram anti-judeus, anti-russos e, também, violentamente anti-polacos. Atacavam de forma igualmente radical ucranianos não-autonomistas e ucranianos que tinham permanecido próximos da Rússia.

Estas bandas de auxiliares da polícia alemã, já em 1939, na Polónia ocupada, e, depois, a partir de 22 de junho de 1941, na URSS ocupada, formaram um autodenominado “exército de insurreição”, a UPA. Estes 150.000 a 200.000 criminosos de guerra massacraram, indiscriminadamente, centenas de milhares dos seus “inimigos”:   judeus, ucranianos leais ao regime soviético, russos e polacos, os quais odiavam indistintamente. Tomando, apenas, o exemplo dos polacos, é importante referir que entre 70.000 e 100.000 civis foram mortos pelas milícias banderistas, durante a guerra. O argumento de propaganda popular de que o Estado polaco acolheu calorosamente os “vizinhos” ucranianos, sentimentalmente tão perto, é, à luz desta longa história criminosa (iniciada antes da guerra), grotesco.

Em 1944, quando a União Soviética recuperou o controlo de toda a Ucrânia, incluindo Lvov (em julho), 120.000 destes criminosos de guerra fugiram para a Alemanha. Os Estados Unidos usaram-nos, ao chegar, na primavera de 1945.

Um livro sobre o assunto, disponível online em inglês,  Hitlers Shadow, foi publicado por dois historiadores americanos. É ainda mais interessante é o fato de os seus dois autores serem historiadores acreditados pelo Departamento de Estado, com quem trabalham oficialmente sobre a história do extermínio dos judeus: Richard Breitman e Norman J.W. Goda. Estes autores mostram como os Estados Unidos, assim que chegaram à Alemanha, na primavera de 1945, recuperaram todos os criminosos de guerra, alemães ou não. Alguns dos banderistas permaneceram na Alemanha, nas zonas ocidentais, principalmente na zona americana, sobretudo em Munique. Outros banderistas foram recebidos de braços abertos nos Estados Unidos, através da CIA, em detrimento das leis de imigração, enquanto outros permaneceram na Ucrânia Ocidental.

Este último grupo, com dezenas de milhares de homens, travou uma guerra inexpiável contra a União Soviética:   entre o verão de 1944 e o início da década de 1950, assassinou 35.000 funcionários civis e militares, com o apoio financeiro alemão e americano, o qual foi particularmente elevado em 1947-1948. Um excelente historiador germano-polaco, Grzegorz Rossolinski-Liebe, demonstrou que o banderismo continua a ser, hoje, um terreno de reprodução pró-nazi inextinguível:   os inúmeros herdeiros de Bandera têm igual ódio por polacos, russos, judeus e ucranianos que não são fascistas. Escusado será dizer que este investigador tem tido grandes problemas de censura, desde a Revolução Laranja de 2004, e, sobretudo, na era Maidan, especialmente desde que estudou como, desde 1943, os banderistas fabricaram a lenda de “resistência aos nazistas”, tal como a vermelhos e judeus. Uma lenda muito útil para que aqueles grupos possam ser incluídos na lista de grupos “democráticos”, apoiados por Washington.

Quais foram as consequências desta colusão?

Entre os criminosos de guerra calorosamente acolhidos pelos Estados Unidos, os intelectuais tiveram um acolhimento particular. Desde 1948, foram recrutados em grande número por universidades americanas, sobretudo as da Ivy League, incluindo Harvard e Columbia. Nos “Centros de Investigação sobre a Rússia”, que proliferam desde 1946-1947, aqueles intelectuais participaram, juntamente com os seus prestigiados colegas americanos, numa frenética guerra ideológica contra a Rússia. É neste contexto que é difundida a lenda do “Holodomor”, cujas aventuras pontuaram, desde então, as etapas decisivas da conquista da Ucrânia. Está “investigação” e este “ensino”, implantados há mais de 70 anos, e espalhados massivamente, com a ajuda dos principais meios de comunicação social, ao longo de décadas na Europa americana, literalmente “apodreceram” os conhecimentos “ocidentais” sobre a história da Ucrânia (e, mais amplamente, sobre a da URSS).

Os apoios políticos do Euromaidan, avatar destas inúmeras revoluções coloridas dos últimos vinte anos, formaram a espinha dorsal de 2014, fazendo uma aliança com oligarcas que, desde 1991, monopolizam toda a riqueza da Ucrânia. Note-se que este tipo de saque não é exclusivo da Rússia de Putin, sendo observado em quase todos os países da ex-União Soviética. Na Ucrânia, os oligarcas confiaram nestes elementos herdeiros do banderismo. O Estado ucraniano de Poroshenko e os seus sucessores, desde 2014, confiaram abertamente nestes movimentos nazis que os Estados Unidos alimentaram, incansavelmente, desde 1944-1945.

Os Estados Unidos tinham como programa explícito, codificado em junho de 1948, no âmbito da CIA, a liquidação, pura e simples, não só da zona de influência soviética, mas o próprio Estado soviético. Foi sob a administração democrata que foi posta em prática a política de repulsão ou de “retrocesso”, com o objetivo de esmagar o comunismo onde quer que fosse que este se encontrasse instalado (e impedindo-o de se instalar em zonas de influência americana). Como uma série de trabalhos históricos têm demonstrado, incluindo o trabalho de investigadores americanos com uma forte ligação ao aparelho de Estado, e muito antissoviéticos, este programa foi definitivamente implementado pela CIA, desde o seu nascimento, em julho de 1947.

Podemos compreender a sua extensão graças ao texto de fevereiro de 1952 de Armand Bérard, um diplomata francês, em Bona, a quem cito em Aux origines du Carcan européen. Bérard profetizava que a Rússia, tão enfraquecida pela guerra alemã travada contra ela, entre 1941 e 1945 (27 a 30 milhões de mortos, com a URSS da Europa devastada) capitularia sob os golpes dos Estados Unidos e da Alemanha de Adenauer, oficialmente perdoado pelos seus crimes e rearmado até os dentes. Moscovo acabaria por ceder toda a Europa Central e Oriental, que era a sua “zona de influência” e que tinha sido alvo de “mudanças fundamentais, de natureza democrática, que, desde 1940, ocorreram na Europa de Leste”.  Estas são as palavras deste diplomata “ocidental”. E a data de 1940 refere-se à então sovietização dos Estados bálticos e de uma parte da Roménia e da Polónia, cada um destes países mais fascista do que o outro.

 

Foi, no entanto, necessário, esperar alguns anos.

Depois de 1945, este tipo de projeto exigia tempo, uma vez que o governo soviético era menos antipático aos olhos do seu povo, assim como dos povos vizinhos, do que a história de propaganda “ocidental” nos quer fazer crer. Mas foi conduzido com uma notável continuidade e enormes meios financeiros. Toda a população foi visada, ainda que tenha sido dada uma especial atenção ao Estado e às elites intelectuais do país, as quais constituíam uma questão prioritária, procurando-se separá-las do Estado soviético. O esforço acelerou-se consideravelmente após a vitória dos EUA de 1989, e com uma maior eficiência, num momento em que a Rússia conhecia uma década de decadência total. Recorde-se que, sob Ieltsin, as potências estrangeiras, com os Estados Unidos em primeiro lugar, impuseram a sua lei, a economia russa foi vendida por um nada e entrou em colapso, a população caiu 0,5% por ano (de forma especialmente dramática na Sibéria e no Extremo Oriente), sendo que, em 1994, a esperança de vida da população russa diminui drasticamente (de quase dez anos, para os homens).

Durante estes anos, o trabalho de formiga germano-americano, que Breitman e Goda descreveram para os anos 1945-1990, obviamente intensificou-se. Certamente, a National Endowment for Democracy (NED), querida a Victoria Nuland, a eminência das administrações Bush e, depois, de todos os seus sucessores democratas, Biden incluído, acaba de apagar do seu site os seus ficheiros de financiamento, até agora públicos (pelo menos, em parte), da secessão da Ucrânia e da sua inserção no aparelho de agressão contra a Rússia. Mas o site do Departamento de Estado não censurou as declarações, de 13 de dezembro de 2013, da subsecretária de Estado Nuland, a senhora das boas obras de Maidan, tão presente em Kiev em fevereiro de 2014, perante o Congresso: Nuland orgulhosamente declarou que, desde a queda da URSS (1991), os Estados Unidos tinham investido mais de 5 mil milhões de dólares para ajudar a Ucrânia. Tratava-se, naturalmente, de assegurar o controlo definitivo da agricultura e da indústria ucraniana, o objetivo final desta longa cruzada. Mas também trazer este país para a NATO, da qual são membros quase todos os países da antiga zona de influência soviética e várias das antigas repúblicas soviéticas. Isto foi admitido há muitos anos. Isto foi, aliás, claramente reafirmado pela “Carta de Parceria Estratégica EUA-Ucrânia”, assinada em 10 de novembro de 2021 pelo secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba: o seu conteúdo consta, aliás, da redação da “Resolução de 16 de dezembro de 2021 sobre a situação na fronteira ucraniana e nos territórios da Ucrânia ocupados pela Rússia”, orgulhosamente exibida pelo Parlamento Europeu, em Estrasburgo.

A partir de então, tornava-se necessário colocar Moscou a, pelo menos, 5 minutos das bombas atómicas armazenadas, desde as origens do Pacto Atlântico (por vezes, desde o início dos anos 50), nos países membros da OTAN. Bastava exacerbar a disputa da miséria infligida pela Ucrânia de Maidan ao povo de Donbass, em flagrante violação dos acordos de Minsk. Sobre estas misérias e sobre a violação dos acordos de que Paris e Berlim foram “garantes”, a propaganda ocidental manteve-se silenciosa de 2014 a fevereiro de 2022.

A conjuntura histórica e os desenvolvimentos desde 1989, seriamente agravados desde 2014, têm encurralado a Rússia. Todos os observadores razoáveis apontam que a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, uma vez entrincheirada contra a sua vontade. Este passo faz lembrar o que a União Soviética deu no final de 1939.

O que quer dizer com isso?

Este é um elemento essencial. No final de 1939, a União Soviética tentou, com sinceridade, negociar com a Finlândia, apresentada pelos arquivos históricos e militares como um aliado puro e simples da Alemanha Nazi. Desde 1935, esta última havia instalado, na Finlândia, uma série de aeródromos militares e de bases para atacar a URSS – que, na realidade, foram cedidas à Alemanha, tendo sido, de facto, usadas, durante a guerra de agressão alemã à URSS. Moscovo falou, em vão, durante semanas, com a Finlândia, anteriormente parte do Império Russo, mas que em 1918-1919 se havia tornado num país-chave do “cordão sanitário” anti-bolchevique. Os soviéticos pediram-lhe que trocasse parte do seu território, para criar uma zona tampão de defesa sólida em torno de Leningrado, por um território maior (soviético). As discussões falharam, sob pressão da Alemanha e de todos os países “democráticos” que, como um diplomata fascista italiano declarou na altura, sonhavam com uma “Aliança Sagrada” geral contra os soviéticos.

A URSS invadiu a Finlândia em 30 de novembro de 1939. Teve, então, de enfrentar uma propaganda do mesmo tipo daquela que, atualmente, é difundida, assim como sanções (incluindo uma exclusão da Liga das Nações, unanimemente acordada em 14 de dezembro). Tratava-se, no discurso em vigor, de combater o monstro soviético e de proteger a pobre Finlândia, e o Vaticano do pró-nazi Pio XII ficou tão incomodado como o atual papa com os “rios de sangue” ucranianos. A “guerra de Inverno”, num país-chave do “cordão sanitário”, no qual a população tinha sido “preparada” incansavelmente contra o comunismo e a URSS, durante mais de vinte anos, foi terrível.

Com dificuldade, o Exército Vermelho conseguiu derrotar a Finlândia. Em 12 de março de 1940, o acordo alcançado deu a Helsínquia exatamente o que Moscovo havia proposto em 1939 – o que, sem dúvida, permitiu proteger Leningrado da invasão. É significativo que a atual campanha de propaganda pregue o longo período de neutralidade que a Finlândia no pós-guerra observou, isto, contudo, depois de a Finlândia pró-nazi, como se esperava, ter feito a guerra ao lado da Alemanha.

Isto relembra, então, a situação atual da Ucrânia?

Sim, se nos cingirmos a factos históricos, e não nos limitarmos a dizer que estamos perante um monstro louco. Leio, hoje, em petições ou em jornais de referência, que Putin está a incendiar e a incitar um derramamento de sangue numa Europa, até agora, calma e tranquila. Mas não ouvimos estes intelectuais, recrutados maciçamente pela imprensa mainstream, e revoltados contra o “novo Hitler”, manifestarem-se contra as centenas de milhares de mortes dos bombardeamentos americanos e europeus no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, na Síria. As mesmas pessoas que amaldiçoam Putin acharam magníficos os 78 dias de bombardeamentos contra Belgrado e contra o “novo Hitler”, Milosevic. A comparação, refira-se, tem sido aplicada a todos os “inimigos” que o Ocidente forjou, desde a nacionalização de Nasser do Canal do Suez.

Também não me lembro de nenhuma importante indignação destes novos anti-nazistas por causa das 500.000 crianças que morreram no Iraque, por falta de comida e de cuidados médicos, como consequência imediata do bloqueio anglo-americano; crianças, aliás, cujo sacrifício “valeu a pena”, segundo as declarações recentes da ex-secretária de Estado democrata Madeleine Albright. Porquê está sistemática aplicação de dois pesos, duas medidas, também usada no que concerne as populações martirizadas de Donbass (e que Putin é acusado de ter instrumentalizado durante oito anos contra a tão simpática Ucrânia)?

Esta guerra, por mais lamentável que seja, foi anunciada há muito tempo, e as razoáveis vozes de militares, diplomatas, académicos, a Oeste, que não têm acesso a nenhum órgão importante dito de “informação”, privado ou estatal, são categóricas sobre as responsabilidades exclusivas, e de longa data, dos Estados Unidos, no desencadear de um conflito que eles próprios tornaram inevitável.

Na sua opinião, como é que será o futuro?

Não me pronuncio sobre o futuro, pois os historiadores não têm de desempenhar o papel de meteorologistas, especialmente tendo em conta a informação execrável a que, atualmente, têm acesso. Mas posso afirmar que os Estados Unidos são o poder imperialista cujas guerras de agressão acumularam, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, milhões de mortes. Recomendo, aliás, o livro traduzido de William Blum, um antigo funcionário da CIA (estes são os melhores analistas), que estabeleceu uma estrita cronologia dos crimes cometidos pelos Estados Unidos contra uma série de Estados qualificados de “bandidos”.

A Rússia nem sempre foi considerada como tal pelo “Ocidente”, na época da “Grande Aliança” e do “Tio Joe” (José Stalin). Até às últimas décadas de propaganda unilateral “ocidental” sobre a libertação da Europa – segundo a qual, a libertação teria ocorrido graças, unicamente, ao desembarque americano, em junho de 1944 –, havia sido amplamente reconhecido que só o Exército Vermelho é que tinha conseguido derrotar a Wehrmacht, e a que custo! De acordo com estimativas recentes, os Estados Unidos têm a deplorar, durante a Segunda Guerra Mundial, um total inferior a 300.000 mortes (todas, de militares), nas frentes do Pacífico e da Europa. Nesta entrevista, há pouco, já havia referido o monstruoso número de perdas soviéticas: 10 milhões de baixas militares e 17 a 20 milhões de vítimas civis.

Até agora, a Rússia, soviética ou não, não semeou ruínas em guerras externas. Tem sido objeto de uma ininterrupta agressão das grandes potências imperialistas, desde janeiro de 1918. Não digo isto porque sou uma seguidora de Putin. Todos os documentos de arquivo apontam nesta direção, diplomatas ocidentais e militares são os primeiros a sabê-lo e a admiti-lo, na sua correspondência não destinada a publicação: ou seja, o tipo de documentação que tenho vindo a estudar, há mais de cinquenta anos. Com o meu trabalho, e graças a uma reflexão sobre a conjuntura atual, estou, apenas, a exercer a minha profissão de historiadora.

N
[1] A Galicia foi uma província do Império Austríaco, formada em 1772, a partir dos territórios polacos anexados durante a primeira divisão da Polónia. Permaneceu austríaca até ao final da Primeira Guerra Mundial.
[2] Unitarismo: conjunto de comunidades cristãs, de rito oriental, que reconhecem a autoridade papal ou que se encontram ligadas à Igreja Católica.

[*] Professora Emérita de História Contemporânea da Universidade Paris VII-Denis Diderot, Annie Unitarismo escreveu numerosos livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas.

O original encontra-se em www.investigaction.net/fr/annie-lacroix-riz-il-y-a-un-contexte-historique-qui-explique-que-la-russie-etait-acculee/ e a tradução em pelosocialismo.blogs.sapo.pt/annie-lacroix-riz-ha-um-contexto-199826

Esta entrevista encontra-se em resistir.info

 

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