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sábado, 15 junho, 2024

González ou Noboa? Equador na encruzilhada

Por Adriana Robreno*

Quito (Prensa Latina) A candidata presidencial da Revolução Cidadã (RC), do Equador, Luisa González, venceu o primeiro turno das eleições e disputará o cargo em segundo turno no dia 15 de outubro contra Daniel Noboa, um adversário inesperado.

Com mais de 100 por cento dos editais examinados, González, herdeiro do ex-presidente Rafael Correa (2007-2017) e favorito nas pesquisas anteriores, liderou a disputa entre oito candidatos com 33,62 por cento dos votos.

Entretanto, com 23,41 por cento, foi seguido pelo jovem empresário Noboa, patrocinado pela aliança Acción Democrática Nacional (ADN), a grande surpresa, porque, apesar do impulso alcançado nos dias anteriores às eleições, ninguém o imaginou num segundo turno. .

82 por cento dos equatorianos foram às urnas em 20 de agosto para votar pela substituição do atual presidente, Guillermo Lasso, e renovar a Assembleia Nacional (Parlamento).

A Prensa Latina constatou que, apesar do medo de possíveis atos violentos, a maioria participou nas eleições com motivação e esperança de resolver a escalada da violência e dos problemas económicos, depois de uma campanha ofuscada pelo assassinato de um dos candidatos, Fernando Villavicencio.

Em declarações quando foram conhecidos os resultados, González afirmou que agora começa uma história diferente, com fé, esperança e otimismo, uma Pátria de dias melhores, de dignidade para todo um povo.

“Este Equador valente, este Equador com sentido de pátria, mobilizou-se, quebrou o medo e votou numa mulher. É a primeira vez que uma mulher obtém uma percentagem tão elevada na primeira volta”, expressou o representante do RC.

Noboa, por seu lado, apresenta uma estratégia que se destaca das críticas ao correísmo, negando mesmo que vá formar uma coligação contra aquela força política.

“Não sou contra nada, sou pró-emprego, continuidade, pró-Equador. Não tivemos necessidade de atacar ninguém”, disse ele aos microfones.

LUISA GONZÁLEZ, SEGURANÇA, TRABALHO E BEM ESTAR

O assassinato de Villavicencio, forte crítico de Correa, abalou o cenário eleitoral e afetou a campanha do RC poucos dias antes da nomeação às urnas.

Em diversas entrevistas, o ex-presidente Rafael Correa insistiu que o ataque resultou de uma conspiração para impedir que seu correligionário vencesse em um único turno, e eles conseguiram.

Fizeram-nos desistir de muitos pontos, impossíveis de reverter poucos dias depois de uma eleição, reconheceu o líder do RC, que está na Bélgica como refugiado político da perseguição judicial, mas tem muitos seguidores no Equador.

Com foco na retomada da segurança, do trabalho e da assistência social, os três temas que fazem parte do slogan de sua campanha, Luisa González tem um desafio pela frente no segundo turno.

Tal como em 2021, de um lado, o correísmo e do outro, a elite económica e empresarial.

Há dois anos, a batalha foi vencida pelo banqueiro Guillermo Lasso contra o agora companheiro de chapa de González, Andrés Arauz, mas tanto o país como o correísmo viviam momentos muito diferentes dos de hoje.

Agora o RC está fortalecido, ressurgiu da perseguição e embora muitos dos seus líderes estejam fora do país, como o próprio Correa, o apoio a esse partido reflectiu-se na vitória nas eleições regionais e municipais de Fevereiro passado.

No entanto, nem essa força regional nem o apelo às conquistas do passado serão suficientes para vencer desta vez, alertam os analistas.

A presidente do RC, Marcela Aguiñaga, admitiu que mudarão a estratégia para o segundo turno, porque “é um Equador diferente”.

Temos que digitalizar a campanha e existem mecanismos nas redes sociais que são ferramentas muito importantes para a criação de conteúdos, sublinhou em entrevista ao canal nacional Ecuavisa.

Segundo Aguiñaga, Daniel Noboa, adversário de González no segundo turno, entendeu que falar mal de Correa não adianta mais.

Enfatizou que hoje a discussão é sobre o modelo de país que queremos, “o país para o povo, ou o país para poucos? Respeito aos direitos trabalhistas ou voltamos à terceirização?”

O RC propõe no seu plano de governo recuperar as conquistas alcançadas durante a chamada Década Vencida, quando Correa estava no poder.

Quanto à segurança, principal preocupação dos cidadãos, a candidata que pode se tornar a primeira mulher eleita presidente do Equador promete mão forte contra o crime, fortalecendo a força pública, as forças armadas e os sistemas de inteligência.

DANIEL NOBOA, UM LAÇO 2.0?

Aos 35 anos, Daniel Noboa busca realizar o sonho do pai, Álvaro Noboa, um dos homens mais ricos do país e candidato malsucedido à presidência em cinco ocasiões.

O jovem ex-legislador participa nesta disputa eleitoral com o apoio de grupos como o Povo, Igualdade e Democracia (PID) e o chamado Mover, em ambos atrás de familiares do ex-presidente Lenín Moreno (2017-2021).

Com esse histórico e seu plano de governo, o candidato presidencial é visto como a continuidade do atual governo, ou seja, “um Laço 2.0”, como mencionou González.

Apresenta-se como um jovem candidato, novo no sistema político, embora já fosse deputado.

Algumas de suas propostas geram críticas em um setor da população que as considera demagógicas ou absurdas, como a criação de prisões-barcaças para isolar criminosos, mas mesmo assim busca captar desde o voto anticorreísta até o que alguns chamam de “soft correísmo”.

Para este último, ele toma cuidado para não atacar diretamente o rival e prefere criticar o atual presidente.

Por seus vídeos nas redes sociais e entrevistas, percebe-se que sua estratégia se baseia na proposta de geração de emprego, com impulso ao setor privado.

A companheira de chapa de Noboa, Verónica Abad, não tem medo de expressar a sua posição a favor de Donald Trump, Jair Bolsonaro e do partido político espanhol VOX através de publicações nas suas redes sociais.

As forças de direita equatorianas, como o Partido Social Cristão, expressaram o seu apoio à dupla, e é muito provável que atraiam os votos de Christian Zurita, o substituto de Villavicencio, que ficou em terceiro lugar e representou uma oposição feroz ao correísmo.

Diante destas circunstâncias, o advogado e analista político Mauro Andino afirmou que embora neste momento Noboa pareça ter alguma superioridade, há espaço para o retorno de González. “Vai ser acirrado e muito disputado até o final”, estimou.

Além disso, considerou que uma democracia em busca do bem comum não deve ser capturada pelos atores mais poderosos do sistema empresarial ou financeiro.

“Entregar a liderança do Estado a um agente económico que deve ser controlado e regulado por esse mesmo Estado só aumentará a desigualdade e a pobreza”, opinou Andino.

A decisão está nas mãos dos equatorianos que voltarão às urnas para definir o seu futuro entre dois modelos que quase sempre se enfrentam neste tipo de processo: um empresarial e oligárquico e outro que promove o progressismo e a economia social.

*Correspondente-chefe da Prensa Latina no Equador

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