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Postado em 15/02/2016 7:29

Frente Amplio do Uruguai: 45 anos depois segue olhando para o futuro

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Montevidéu (Prensa Latina) Com 45 anos de criado, o Frente Amplio do Uruguai tem o desafio de preservar os princípios fundacionais de 5 de fevereiro de 1971 e defender o pensamento de Líber Seregni: “Com o povo tudo, sem o povo nada”.

Este agrupamento. de grupos políticos diversos, “não existe sem unidade, partamos dessa afirmação”, afirmou em entrevista para a Prensa Latina Agustín Canzani, diretor da Fundação que leva o nome do líder e primeiro presidente do grupo.

O que une esses grupos, e esse é o conceito da unidade, antes que nada, é um acordo programático que o Uruguai se propõe para desenvolver um conjunto de coisas a curto, médio e longo prazos.

Também, o conceito de unidade de ação compreende coincidirmos unidos nas instâncias eleitorais de maneira obrigatória, não voluntária, disse.

Portanto, destacou, o conjunto dos eleitores dos grupos políticos do Frente Amplio (FA) estão unidos por esses dois elementos.

Acrescentou que, adicionalmente, há “uma espécie de afeto comum que vai se gerando no FA que tem que ver com reunir esforços para que essa unidade não só se mantenha em termos formais, senão que também em termos substantivos”. O também cientista político apontou que o primeiro supõe certa disposição dos grupos e seus dirigentes de escutar uns aos outros, e adicionalmente a introduzir de alguma maneira, sobretudo por parte dos que podem ser maioritários, os pontos de vista de outros grupos para gerar uma síntese política.

Parece-me que esse é um elemento fundamental, e “então a unidade tem sido e vai continuar sendo um elemento central do Frente Amplio”, afirmou.

Ao ser questionado sobre as adequações que hoje pedem fazer ao Frente Amplio na atual conjuntura nacional e internacional, Canzani afirmou que a organização política de esquerda se ajustou à realidade do Uruguai e por isso subsiste.

Desde meu ponto de vista, disse, o FA tem alguns desafios propostos, como o de adequar seu programa político a um país que é novo, pelas mudanças que foram realizadas nos últimos 10 anos, e, portanto, há novas demandas sociais, as quais são diferentes das que existam há uma década.

 

Por exemplo, apontou, quando o Frente começou a governar em 2005 as grandes prioridades eram o emprego e a pobreza porque vínhamos de uma crise muito forte, “mas temos e devemos seguir incrementando os salários e a renda da população”.

Também, “temos que continuar mantendo o crescimento, atender os níveis de problemas de desigualdade e tratar de fazer esforços para melhorar”.

Canzani disse que o país tem uma maior cobertura de bens e serviços públicos, mas há que melhorar sua qualidade em Educação, Saúde e Transporte.

As pessoas reclama cada vez mais do Estado não somente da cobertura de seus serviços públicos, senão que também da qualidade, o que é um pedido muito razoável, disse.

Um país que tem a produção do Uruguai, refletiu, propõe-se problemas de sustentabilidade ambiental, de crescimento, desigualdades territoriais e desafios de sua inserção no marco internacional, que são totalmente diferentes.

Canzani destacou que “aí tem uma agenda nova e o Frente tem que responder como sempre”.

Se um partido ou uma força política tem que mudar a realidade, uma das principais coisas que tem que fazer é ler essa realidade, fazer sua interpretação política e procurar adequar seu programa de governo e de ação, apontou.

O diretor da Fundação Líber Seregni destacou que o FA é um partido que “claramente pode ser identificado na esquerda latino-americana, com todas essas variações que existem na região, que são muito amplas”.

Parte de suas características, opinou, têm que ver com o país: “o FA não pode ser entendido sem entender a lógica do sistema político uruguaio, inclusive sua lógica eleitoral”.

Esta coalizão sempre teve um programa de reforma, que visto em perspectiva, é claramente um programa transformador na América Latina, estimou.

Ao avaliar os aspectos positivos e negativos atingidos na última década pelo Frente, comentou que a base econômica da sociedade Uruguaia cresceu enormemente “em um marco de razoável estabilidade em termos macroeconômicos e isso é maior riqueza para o país e para se distribuir”.

O Uruguai tem hoje um Produto Interno Bruto que quase dobra o que tinha no momento da crise, e isso é importante, destacou.

Dessa forma, buscou que esse crescimento “não fosse apropriado apenas por alguns setores da sociedade”, senão que fosse redistribuído com ênfase nos mais prejudicados pela crise, “os setores pobres, basicamente trabalhadores, e o fez com políticas diferentes, com políticas sociais”.

No combate à pobreza há claramente uma definição do FA que começou no primeiro governo, quando ainda não estava muito claro que se cresceria, mas já havia uma decisão com estes setores para tratar de protegê-los e promovê-los, acrescentou.

Canzani também destacou uma dimensão importantíssima, “que mesmo que ainda que falte, foi muito relevante”, e é abrir uma agenda de direitos, incluídos os Direitos Humanos e reclamos da população ou grupos importantes que pedem a despenalização do aborto e o casal igualitário, entre outros.

Sobre como enxerga internamente a direção do Frente Amplio, o cientista político manifestou que “é uma tarefa que tem que começar já”.

Eu valorizo muitíssimo a liderança que o Frente tem tido, “é a geração que fez a travessia do deserto e tem tido a capacidade estratégica de ver e pensar”, o que é muito valioso.

Destacou que agora há claramente uma mudança na direção que tem o desafio de se validar política e eleitoralmente, o que não é pouco.

Essa mudança, aludiu, também tem que incorporar a diversidade de pontos de vista que há no FA, “que já é maior porque não só é ideológica, senão também geracional”.

Eu digo que existem pelo menos quatro elementos que começam a ser importantíssimos: o gênero, as gerações, as identidades e os territórios.

Para mim, refletiu, parece que a geração que vai tomar o comando tem que ter diálogos profundos “para não herdar os conflitos dos mais velhos”, mesmo que tenham seus próprios conflitos, disse.

Ao se referir ao centenário do nascimento do general Líber Seregni, que será comemorado em dezembro deste ano, o diretor da Fundação indicou que sua vida, ação e seu pensamento são um legado fundamental para toda a democracia uruguaia, não só para o FA.

No dia em que ele sai da prisão, sua primeira mensagem foi muito particular, disse que somos uma força política construtiva: “operários da construção da pátria do futuro”.

Por isso a ideia de Seregni de “pensar o futuro é o grande desafio do Frente Amplio neste ano, porque há que construir o futuro”, concluiu.

*Correspondente da Prensa Latina no Uruguai.

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