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domingo, 3 março, 2024

NÃO SOMOS HEROIS. SOMOS FILHOS DE UM POVO HEROICO

Quando o avião pousou em Havana e parou os motores, sabíamos que o povo estava nos esperando. O povo não é uma palavra abstrata, é nossa família, são nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, são suas pessoas singelas e trabalhadoras. Nós estávamos nervosos, contentes, expetantes. Os rapazes ajustaram-se as batas brancas, símbolos da solidariedade, e apertaram com certa torpeza o nó da gravata, tal como namorados para o encontro definitivo. A porta abriu. Os restantes passageiros, cubanos que tinham ficado na Itália durante meses, aplaudiram. Somente uma senhora, incapaz de compreender, ousou dizer: «Peçam para lhes aumentarem o salário». Acho que escutou a resposta em nossos olhos.
Minutos mais tarde pisamos na terra sagrada de nossos amores. Não somos extraterrestes, somos filhos desta terra, de sua história, dos seus valores. Não somos heróis – orgulhamo-nos, sim, mas nos assusta essa palavra – porque o heroísmo entranha certa exclusividade; somos os filhos de um povo heroico. Por isso, embora em outras latitudes pareça estranho ou exagerado, nosso presidente nos deu as boas-vindas. E as esposas mães e filhos destes médicos e enfermeiros, em um vídeo previamente elaborado, proferiram uma frase enigmática para o sistema que tudo compra e vende: «Estamos orgulhosos de vocês». Durante o percurso até o lugar onde vamos passar a quarentena, e pensei naquela fotógrafa italiana que desejava acompanhar-nos para flagrar com sua lente, e talvez, quem sabe para entender ela própria, como era possível, onde estava o segredo, a magia daquela recepção em pleno século 21, de uns simples mortais que não acabam de vencer um campeonato de futebol ou acabam de retornar da Lua. Eles apenas tinham arriscado suas vidas para salvar as de outros.
A resposta, espontânea, eu a enxerguei nas ruas. Em alguns trechos não aparecia nenhuma pessoa, inclusive vi passar alguns indiferentes, que não se sentiam motivados a cumprimentar. Mas nos bairros humildes por onde a pequena caravana passou, as pessoas as apressavam a sair, para vitoriar os recém-chegados; das janelas de suas casas ou reunidos às pressas nos pórticos famílias todas, desde o mais novo até o mais idoso, aplaudiam com frenesim. Em zonas muito povoadas, dezenas de vizinhos, esperaram durante horas para ver-nos passar. Como poderia esquecer essas cenas? Como ignorar o compromisso que elas implicavam? Confesso que não sabia se, pegar na câmera e agir como repórter, a partir da posição privilegiada de passageiro alheio aos fatos, ou deixar que as emoções colmassem meus olhos, sem sentidos, cada vez que um idoso o um jovem, depois de aplaudir, tocava repetidamente o peito com a mão, oferecendo o coração.
Eu me pergunto se aquela fotógrafa, excelente profissional, teria sido capaz de tirar suas fotos sem lhe sair uma lágrima. Que grande é meu povo! Quanta fúria sente o império, ao não poder comprar esses aplausos. Queremos uma vida decorosa, próspera, em correspondência com nosso trabalho e nossa entrega, em quaisquer das profissões. Por isso, e porque é lesivo a nossa dignidade, condenamos o bloqueio. Mas esses aplausos dão medo aos egoístas, porque falam de outro mundo possível, real. Os médicos e os enfermeiros cubanos são a vanguarda desse mundo.FILHOS DE UM POVO

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