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sexta-feira, 1 março, 2024

Ex-colônias francesas na África pretendem criar moeda única e abandonar o franco; é viável?

© Foto / Divulgação

Tão diversos quanto sua geografia, que abrange desde o deserto do Saara e a savana até o oceano Atlântico e o mar Vermelho, os países que integram a região do Sahel têm em comum um processo de colonização perverso e extremamente cruel por parte de países da Europa, que expropriaram seus recursos naturais, explorando e desumanizando suas populações.

Justamente por isso, nos últimos anos, ex-colônias europeias têm buscado se desvincular econômica e politicamente das antigas metrópoles.
É o caso de várias ex-colônias francesas. Em novembro passado, os ministros das Finanças de Mali, Burkina Faso e Níger se reuniram em Bamaco, capital malinesa, para discutir uma futura união econômica e monetária. Nas redes sociais já circulam imagens das cédulas que poderão ser usadas. Atualmente, oito Estados da África Central e Ocidental usam o franco CFA.
Especialistas no assunto falaram sobre as possíveis consequências da adoção de uma moeda própria em detrimento do franco no Mundiokapodcast da Sputnik Brasil.
O professor de finanças do Instituto de Pós-Graduação em Administração (Coppead), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rodrigo Leite explicou que hoje para esses países a adoção do franco tem como consequências déficits na exportação e na estabilidade, que evita processos inflacionários.

“Como qualquer moeda em que você tem uma estabilidade inflacionária, você diminui a possibilidade de expansão monetária do governo. Então você troca estabilidade por diminuição da soberania monetária”, disse ele.

Para Policarpo Gomes Caomique, mestre em governança e integração regional pela Pan African University (PAU), a decisão no plano político foi acertada por vários motivos:

“Primeiro é que essa decisão explora a insatisfação de toda uma geração de jovens africanos, contrários àquilo que eles classificam como subserviência dos Estados africanos ao Ocidente, principalmente à França”, disse ele. “Segundo, isso é importante porque coloca em xeque a hegemonia francesa na África Ocidental, podendo obrigar a França a reorientar a sua lógica de cooperação e a lógica de relação França-África.”

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Já no plano econômico, o pesquisador considera ainda prematuro dizer se uma moeda única vai emplacar:

“Existem vários fatores que afetam o valor de uma moeda, e esses fatores incluem taxas de juros, inflação, dívida, estabilidade política, empregabilidade, performance econômica, etc. Olhando para os três países em questão, eles possuem um quadro político e econômico aquém do esperado”, opinou.

A África Subsaariana, em especial o Sahel, tem sido uma região propensa a conflitos étnicos, religiosos e políticos nas últimas décadas. Nos últimos anos, Mali, Burkina Faso e Níger sofreram trocas abruptas de governos, sob argumentações de insegurança causada por grupos terroristas. Além disso, são nações com conflitos internos.
Camomique destacou ainda que o terrorismo e o fundamentalismo religioso são realidade nesses três países. “E […] também não têm saída para o mar e fazem fronteira com países da CEDEAO [Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental]. Os três países apresentam taxa alta de desemprego e têm como maiores parceiros comerciais, por exemplo, principalmente a nível de exportação, os países da sub-região, que são também, em sua maioria, parte da CEDEAO, e esse quadro torna complicada a aplicação da ideia de criar uma moeda.”
Diferentemente dos antigos movimentos de independência dos anos 1950 a 1980, a multipolaridade dá a esses movimentos por soberania alternativas políticas no cenário global atual.
Em setembro de 2023, os governos de Burkina Faso, Mali e Níger criaram a Aliança dos Estados do Sahel (AES). O Mali rebaixou a língua francesa de seu status de idioma oficial. Em 28 de janeiro deste ano, os países anunciaram a saída conjunta da CEDEAO.
Entretanto, se esses três países lograrem criar e manter uma moeda estável, certamente atrairão outros e “vão mobilizar essa onda da descolonização monetária e da independência financeira no contexto da África Ocidental”, comentou o especialista.
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Os benefícios de uma moeda própria

Atualmente a França controla as reservas e a política cambial e monetária dos países que utilizam o franco. Uma moeda própria daria autonomia a esses países.
“Vão poder ter maior autonomia em termos de negociar com os parceiros internacionais, por exemplo”, elencou o mestre da PAU.

Leite acrescentou: “Eles vão poder, entre eles, decidir quanto vai ter de emissão, qual é o objetivo de inflação, […] [porque] ela [a moeda própria] potencializa o efeito de desenvolvimento, porque aí o país passa a ter uma possibilidade de ter uma política fiscal própria, dadas as suas especificidades, idiossincrasias e visões”.

Segundo ele, antes de pensar na questão da moeda, é preciso criar um ambiente propício para investimento:

“Criar um ambiente de estabilidade política permitirá que os projetos de desenvolvimento que são implementados tenham o efeito desejado e manterá a segurança jurídica e um fluxo de transações comerciais mais tranquilo”, disse o pesquisador.

Uma possível união de países convergindo para uma moeda única, como é o caso do euro, traria riscos, como o sistêmico, mas se desse certo, haveria muitas vantagens, segundo Leite.
“Como bloco eles teriam muito mais do ponto de [vista da] integração e a possibilidade de uma sinergia maior entre as economias, porque teria uma união monetária e uma união aduaneira também. Conseguem ter muito mais força politicamente e de forma internacional.” Entretanto a criação de uma coalizão deve ter visão de longo prazo, alertou.
“A questão é manter esses 14 países como um todo, com uma balança comercial que permita que a moeda não tenha essa desvalorização inicial”, comentou.

Consequências sobre a França

Os analistas destacam que uma moeda própria nessas nações seria bastante prejudicial para a ex-colônia.
“A depender de como esses países quiserem desenvolver suas economias, isso pode afetar, porque esses países têm uma relação ainda bastante grande com a França, [de] importação e exportação, especialmente importação para a França”, ponderou Leite.
Caomique destacou que a França precisa dos recursos naturais do Níger, de Burkina Faso e do Mali para manter as transações econômicas, bem como as posições geoestratégicas e geopolíticas no contexto africano.

“No caso do Níger, […] uma reserva considerável em termos de recursos naturais e produtos […] que a França necessita para o seu programa nuclear”, disse ele.

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