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sábado, 2 março, 2024

EUA: Eleições no planeta do “totalitarismo invertido”

Da natureza fraudulenta e destrutiva do neoliberalismo

Talvez o resultado mais importante até agora da insurgência de Bernie Sanders seja o quão claramente expôs a real natureza totalitária do Estado, nos EUA, no século 21.

Claro, não é o totalitarismo clássico de tipo orwelliano: é o “totalitarismo invertido” que o falecido cientista político Sheldon Wolin descreve tão brilhantemente em seu livro “Democracy, Incorporated” [Democracía S.A (esp.)].

Num sistema de totalitarismo invertido, não há real distinção entre o poder do estado e o poder das grandes empresas. Nesse sistema, uma “democracia gerenciada” atentamente, nas palavras de Wolin, é supervisionada por uma elite tecnocrática a serviço de interesses gerais das grandes empresas.


No “totalitarismo invertido”, continuam a existir as formas supostas da democracia – o suficiente para manter uma massa deliberadamente desinformada e subinformada, na ilusão de que ainda viveriam numa democracia –, mas todas as alavancas do governo são firmemente controladas por Wall Street e as indústrias a ela associadas – do banking, de armas, de energia e de ‘mídia’ & ‘comunicações’ em geral.

O que torna “invertido” o sistema totalitário é que, em vez de ser comandado com mão de ferro por um “líder forte”, como se encontra no fascismo clássico ao estilo dos anos 1930 – versão anterior e mais primitiva da fusão entre o poder das empresas e do poder do estado –, o sistema é governado por um consenso de interesses empresariais, sob um presidente-fantoche na Casa Branca, obediente à “falange de altos executivos”, que Bob Woodward descreveu como um anel de ferro que cerca todos os presidentes dos EUA.

Bill Clinton, com o ostensivo controle tecnocrático que conseguiu impor à política; o abraço frenético pelo qual se agarrou aos acordos chamados “de livre comércio” – presidente impiedosa e desavergonhadamente comprometido com o imperialismo norte-americano, autor das tais “reformas Clinton”, as quais, todas, só serviram para aumentar a parcela da riqueza global nas mãos do 1% – se autoposicionou como “gerente” muito efetivo da democracia, nos EUA.

E Bill Clinton foi generosamente recompensado pelos serviços que prestou à elite, com os milhões que lhe foram pagos na carreira de ‘palestrante’ pós-presidência, e nos milhões de doações para uma fundação que leva seu nome e serve como ‘reserva familiar e pessoal para subornos‘, acolhido como excepcionalmente bem-vindo no seio do 1% – sem que ninguém se incomode com o rastro de lixo que ele deixa por onde passe ou com seus maus hábitos[O que se diz de Bill Clinton pode-se dizer, sem tirar nem pôr, também de Fernando Henrique Cardoso, na geração dos facinorosos “anos 80s”, e, também sem tirar nem pôr, de Aécim e de Serra, da ainda mais facinorosa geração “anos 90/00s” (NTs)].

Há pois um desenvolvimento natural para as elites globais que supervisionam o sistema econômico global, e que agora contrataram a “parceira no poder” de Bill, de muitos anos, com a mesma incondicional confiança na habilidade dela para garantir ‘certeza’ e ‘estabilidade’ de que o capitalismo e os mercados financeiros dependem, e com perfeita garantia de que ela fará o diabo, para proteger e manter o status quo.

Pôr Hillary na presidência garante a vantagem extra, para as elites que realmente governam, de dar a impressão de que os EUA estar-se-iam movendo na direção de governo politicamente mais à esquerda. Assim se encobrem melhor as garras do capital transnacional que comandam o governo dos EUA – para nem falar de outros países pelo mundo! – e mantêm-se perfeitamente confusos os pensadores e políticos liberais e de esquerda.

Simultaneamente, uma presidência de Hillary garante também que os cidadãos norte-americanos permanecerão divididos, com um Congresso Republicano – resultado provável de uma baixa no entusiasmo em novembro – a mineirar os arquivos da Fundação Clinton ou, quem sabe, de Benghazi, à cata de crimes imperdoáveis, que serão divulgados freneticamente por todos que sempre odiaram Hillary com fúria fundamentalista, desde quando ela era Primeira Dama. E esquerda e direita se posicionarão em campos opostos como inimigos, não como compatriotas em luta contra um inimigo comum – o governo dos EUA que já não funciona comodemocracia; nem, em qualquer acepção que faça sentido, como república. E assim, um sistema corrupto e injusto vendido pela mídia-empresa como se fosse sistema democrático, estará eficazmente blindado contra uma população unida.

Até agora, em minha avaliação, o que mais chocou e continua a chocar o establishment é a capacidade que Bernie tem mostrado para unir os norte-americanos.

O establishment já estava alarmado com a habilidade de Bernie para desencadear um movimento, organizar uma campanha bem-sucedida, contornar com sucesso a narrativa suposta jornalística da mídia-empresa, recolhendo vitória após vitória, e para derrotar a sacrossanta candidata do establishment no próprio jogo de altas apostas que ela propôs; e também no jogo dos jogos – levantar dinheiro. Todos esses talentos e sucessos de Bernie e sua equipe têm sido incansavelmente minimizados pela mais extensa campanha que alguém poderia imaginar, coordenada por uma mídia-empresa comercial incansável e eficazmente coordenada e comandada.

Mas, por causa da autenticidade e senso-comum inscritos na natureza de sua mensagem, o que mais conta é a capacidade de Bernie para se fazer ouvir não só pelos progressistas, mas também pelos independentes e conservadores. Por isso ele está conseguindo congregar os cidadãos em torno da causa comum, de sanear um sistema político decadente e corrupto. E agora, afinal, parece que oestablishment começa a dar-se conta de que a revolução política de Bernie pode realmente ser verdadeira ameaça.

Então, aos olhos do establishment, a campanha de Bernie tem de ser imediatamente extinta. Essa virada na atitude do establishment é, como sempre, mais visível na mídia-empresa.

Até 2014, a mídia-empresa deu rédea solta a Hillary, como Chris Cuomo admitiu abertamente na CNN. “Não poderíamos tê-la ajudado mais do que ajudamos”, disse ele dia 9/6/2014. (…) “A mídia a está deixando solta. Somos os que mais promovem a campanha dela.”

Esse padrão para promoção da candidatura de Hillary esteve visível em toda a campanha, mas intensificou-se logo depois da primária de Wisconsin, onde a vitória de Bernie por diferença de 13 pontos atropelou completamente todas as ‘previsões’ midiáticas’; depois, uma sequência ininterrupta de vitórias de Bernie logo tornou perfeitamente ridículos os comentários sobre a “inevitabilidade” da vitória de Hillary.

Como Thom Harman, progressista, comentarista de rádio, observou, a maior parte da cobertura pós-Wisconsin concentrou-se na disputa entre os Republicanos (com Ted Cruz muito mais abaixo de Donald Trump, que Bernie, de Hillary). Exemplo absurdo desse movimento aconteceu quando o repórter John Nichols, de Nation, assumido campanhista e eleitor de Bernie Sanders, foi convidado para um painel na rede CNN, um dia depois de Wisconsin, e só lhe fizeram perguntas sobre Cruz.

Os veículos das mídia-empresas mantêm o padrão de ignorar Bernie o máximo possível. E as manchetes, depois de cada uma de suas espetaculares vitórias, sempre são: “Deu Bernie, mas a matemática o derrota.”

Os veículos da mídia-empresa comercial hoje praticamente só papagueiam o que a campanha de Clinton disse da recente entrevista de Bernie à redeNY Daily News. Manchete do Washington Post até sugeria que, na opinião de Hillary, Bernie seria “não qualificado” para ser presidente, o que gerou reação de Bernie, que a mídia-empresa também tentou inverter a favor de Hillary.

Há real correspondência entre a metanarrativa dos veículos da mídia-empresa e a retória de Hillary sobre Bernie atacar os grandes bancos: todos aí concordam que Bernie não sabe do que fala.

A campanha de Hillary Clinton e as empresas da mídia dominante já estão virtualmente fundidas. Dois dias depois de Wisconsin, CNN publicou ao vivo, praticamente sem parar, um tour de Hillary pelo metrô de NYC – mulher do povo, beijando criancinhas e usando o próprio cartão de passageira habitual do metrô. Parecia mais um comercial da campanha dos marketeiros de Clinton exibida em horário pago, a favor de candidata que há várias semanas não organizava coletivas com jornalistas, como se fosse ‘jornalismo’.

O que realmente apavorou o establishment é que afinal ‘eles’ se deram conta de que a revolução política que Bernie promoveu abertamente pode ser, de fato, revolução verdadeira; e que Bernie acerta ao dizer que, quando milhões de nós nos levantamos juntos, nada há que alguém (nem a mídia-empresa!) possa fazer.

O establishment sempre sabe que milhões de nós nos levantarmos juntos é o único modo pelo qual é possível derrubar o totalitarismo invertido.

E apesar da surpresa de tantos, e do terror pânico doestablishment, Bernie aí está, um cara que pode, sim, unir milhões.*****



* Michael Hasty é organizador social, escritor, músico e carpinteiro. Anima o Blog Free Radical Maine.

 

Tradução: Vila Vudu

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