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quarta-feira, 12 junho, 2024

Estados Unidos: o país mais violento do mundo

Marcelo Colussi*, colaborador de Prensa Latina

Cidade da Guatemala (Prensa Latina) O mês de agosto marca um novo aniversário dos massacres de Hiroshima e Nagasaki. Este é o crime mais horrendo da história. Acontece que, como fez o poder intocável dos Estados Unidos, no momento não pode ser julgado. Ao contrário, na Alemanha derrotada, os vencedores da guerra, liderados pelo país americano, se permitiram julgar os crimes dos nazistas em Nuremberg. Sendo rigorosamente objetivas, tanto a loucura alemã da Segunda Guerra Mundial quanto o uso de bombas atômicas por Washington contra o Japão (desnecessário em termos militares, porque a rendição japonesa já era um fato), são igualmente condenáveis.

A violência é sempre condenável, ainda que seja parte integrante da dinâmica humana. É “a parteira da história”, já foi dito com razão. A questão é como a processamos, como a compreendemos e valorizamos. A verdade é que está na raiz da nossa humanização: a primeira obra humana foi uma pedra afiada, uma arma. No entanto, dependendo de como é apreciada, parece que há violência “boa” e violência “má”. Por que os 25 mísseis nucleares da Coréia do Norte são um “perigo para a humanidade” e os mais de 5.000 americanos protegeriam a “democracia e a liberdade” no mundo?

Os Estados Unidos, como potência dominante no século 20, sentem que têm o direito natural (ou divino?) sem impedimento. Se assim foi durante a Guerra Fria, exibindo bravatas em todos os lugares, mesmo com seu arquirrival presente, a União Soviética, uma vez que desapareceu sentiu que era o dominador absoluto da situação. Nunca antes um império havia sido visto com tanto poder.

Não se pode dizer “com tanta maldade”, porque no exercício do poder não contam essas considerações moralistas: “quem manda, manda. E se errar, manda de novo”, diz um ditado popular, com razão. O mestre exerce seu domínio, sempre e em qualquer circunstância. Os Estados Unidos, tendo alcançado um poder avassalador no século passado – agora em declínio – sentiam-se possuídos por um suposto “destino manifesto” que os obrigava a levar a “luz da civilização capitalista ocidental” a todos os cantos do planeta. Ele o fez, sem dúvida. Esta assenta numa cultura suprema, avassaladora, impetuosa da violência, totalmente normalizada, assumida como natural sem mitigar.

A partir desse relato, o país do norte sente sua história sangrenta de conquistas, invasões e massacres como algo normal. Sobre o sangue derramado de milhares de nativos daquela terra, construiu-se a lenda do “avanço do progresso”, massacrando povos indígenas e roubando descaradamente territórios do México. Isso foi naturalizado com os intermináveis ​​faroestes a que Hollywood nos habituou.

Da mesma forma, considera normal e quase obrigatória sua atuação como gendarme no mundo, implantando cerca de 800 bases militares no planeta, levando a cultura da guerra a um patamar sem precedentes. Os filmes são os responsáveis ​​por transformar isso em algo digerível. E até “necessário”, diante da “barbárie”: ontem comunista, hoje muçulmano ou narcotraficante latino-americano, todas afrontas à “democracia”. Vale lembrar que todo esse posto militar necessita de armas e mais armas, que seu complexo militar-industrial se encarrega de fornecer, com lucros estratosféricos: 35 mil dólares por segundo.

Em nome da “liberdade” – uma quimera centrada em um hiper-individualismo obsceno que faz de cada eu individual o centro do mundo – a cultura que foi gerada na sociedade americana fez dessa fantasia o cerne da vida. De acordo com a Segunda Emenda de sua Constituição, é reconhecido a todo cidadão o direito de possuir e portar armas de fogo, protegendo assim sua “liberdade”. Por enquanto, este país tem mais armas nas mãos de civis (350 milhões delas) do que população (334 milhões). 42% das armas em posse de civis em todo o mundo estão nas mãos dos americanos, apesar do país ter apenas 4,4% da população mundial.

Assim, graças à famosa Emenda, é possível comprar uma arma em cada mercearia da esquina, inclusive fuzis automáticos como o AR-15, versão civil do militar M-16, produzido pela Colt’s Manufacturing Company, a mais usado nos recorrentes massacres que todas as semanas enlutam a população. Dessa contagem, cerca de 100 pessoas são assassinadas todos os dias em solo americano, com as consequências psicológicas que tudo isso acarreta. O aspecto tragicômico da questão é que sua classe dominante tem a desprezível coragem de falar da violação dos “direitos humanos” em outras latitudes.

Vale acrescentar como informação adicional – e extremamente demonstrativa da famigerada violência racial que ainda se faz presente no país apesar do “avanço” de ter tido um presidente negro – que a população afrodescendente tem, em média, treze vezes mais chances do que a não -negros a serem baleados e mortos, constituindo 70% da população carcerária.

A violência reina em todos os cantos dos Estados Unidos. É o único país do mundo onde a população civil, com a aprovação das autoridades, forma milícias armadas até os dentes para impedir a entrada de migrantes irregulares por sua fronteira sul, literalmente: caçá-los. É também o único país que se permitiu usar armas atômicas contra a população civil não combatente, e usar armas químicas proibidas em inúmeras ocasiões.

Toda a sua indústria cultural (cinema, televisão, literatura, música, imprensa escrita, mídia digital) reforça diariamente essa cultura supremacista branca e patriarcal. A ideia de um vaqueiro indestrutível, sempre vencedor, se arraigou no imaginário social da população. Sua classe dominante, representada pelos políticos da Casa Branca, portadores dessa ideologia triunfalista, entroniza a violência em níveis insanos. Em nome do seu bem-estar – que pressupõe sempre o desconforto dos não iguais – permitem-se massacrar quem se coloca à sua frente.

Mas, bem… as coisas não são eternas. Algo está mudando agora no mundo. A supremacia do dólar começa a rachar e suas armas não são mais as únicas poderosas. A história continua, e a violência continua sendo sua parteira.

rmh/mc

*Cientista político, professor universitário e pesquisador social argentino, residente na Guatemala

(Retirado de empresas selecionadas)

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