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sábado, 24 fevereiro, 2024

 Espectro do BC argentino ronda o BC independente brasileiro

Foto: Rafael Ribeiro/BCB

César Fonseca

Por que a população argentina apoiou entusiasticamente a proposta de Javier Milei de acabar com o Banco Central?

Simples, porque o BC argentino conduziu política monetária que levou o país ao colapso, destruindo moeda(peso), soberania nacional e escravizando Argentina ao dólar.

Essa realidade pode se repetir, também, no Brasil, se o Banco Central Independente(BCI) continuar com desnecessária política excessivamente ortodoxa que está comprometendo o sistema econômico nacional e desarticulando internamente o governo como ficou comprovado na Conferência Eleitoral do PT?

A economia está crescendo com inflação sob controle, mas as incertezas da política monetarista viraram ameaça de morte à estabilidade política.

O BCI não responde aos interesses do povo, mas das políticas centrais dos bancos centrais, comandados pelo BC americano, a partir das coordenadas dadas em Basileia.

Não é útil ao país; se não útil, não é verdade, conforme critérios do pragmatismo do utilitarismo, suprassumo da ideologia capitalista.

Não adianta cuidar somente do mercado financeiro, garantindo-lhe todas as honras, se, no final, as consequências de privilégio excessivo para ele acabam por quebrar o sistema econômico como um todo.

A infraestrutura econômica em seu conjunto, comércio, indústria, serviços etc., na escalada da financeirização, deixa de vender higidez para dar suporte à própria finança que não vive isoladamente desse conjunto como mera aparência necessária.

A crise de 2008 mostrou isso.

Quando tudo iria aos ares, os bancos centrais, comandados pelo Banco Central dos Estados Unidos, o pai do dólar, refinanciaram as dívidas, alargando prazos e custos de sua manutenção, para evitar a catástrofe.

A ação saneadora diminui juros e custos de financiamento da dívida pública, dando sobrevida ao sistema.

BRASIL X ARGENTINA

O perigo que a Argentina corre agora é esse.

Tudo pode ir aos ares se a infraestrutura produtiva, fruto da unidade entre Estado e setor privado, romper-se.

Um é sustentáculo e garantia de sobrevivência do outro; se um morre, o outro, igualmente, sucumbe-se.

A lição dos bancos centrais no capitalismo cêntrico, infelizmente, não foi apreendida no capitalismo periférico, graças à ganância excessiva da elite rentista, cega pelo dinheirismo, descolado da realidade.

No Brasil, a situação está sob controle, porque os governos petistas acumularam reservas em dólar para sustentar a moeda, que perde substância diante da deterioração constante do valor de troca entre centro e periferia, agravada pela sobreacumulação de capital que leva produção e consumo à semiparalisia com quedas da taxa de lucro das empresas, a pedirem subsídios e subvenções ao governo.

Não fossem as reservas de dólar que alcançam quase 350 bilhões de dólares, fortalecidas pelo caráter da primarização da economia exportadora, especialmente, de grãos e minérios, certamente, o destino da economia brasileira seria trágico, à moda argentina, que foi para o buraco.

Desse modo, a lição que precisa ser colocada em prática pelo Banco Central Independente no Brasil é, sobretudo, não deixar o sistema econômico ir para o brejo com os juros extorsivos O desafio é acelerar redução da Selic, com mais ousadia, cortando-lhe, necessariamente, em 1 ponto ou 2 pontos percentuais, para evitar desorganização do sistema econômico de forma generalizada na escalada suicida da financeirização sem freios.

PRÁTICA DELETÉRIA

A prática do BC Independente de enxugar reservas financeiras bancárias (sobras diárias de caixa), garantindo-lhes juros na lua, de modo a deixar a praça seca de dinheiro, levando à falência comércio, indústria e serviços, na medida em que inviabiliza a produção e o consumo, leva ao desastre, desestabilizando a ordem capitalista interna na periferia.

O racha visível no partido do governo que dá sustentação à aliança lulista vencedora das eleições em 2022 é o sintoma da desestruturação em marcha que o BC Independente impõe em forma de ajuste fiscal anti-produtivo que coloca em risco o próprio sistema financeiro.

O sinal de rompimento já foi dado com a quebra geral do poder de compra da população que levou Lula a lançar o programa de renegociação de dívidas.

Essa providência é que evitou a bancarrota do comércio e da indústria, na medida em que permitiu retorno do consumidor ao consumo, a fim de girar a economia.

Certamente, não foi suficiente, porque a economia padece da falta de liquidez que a política monetária do BC Independente provoca ao privilegiar excessivamente o sistema financeiro, recolhendo sobras diárias de caixa dos bancos, pagando por elas o juro mais alto do mundo, raiz da escassez de liquidez no capitalismo nacional.

Com ela, o crédito não flui e as expectativas positivas não se realizam para viabilizar investimentos em infraestrutura sem os quais eterniza-se o subdesenvolvimento estrutural.

O BC Independente evita que a liquidez bancária escorra para a produção e o consumo, se, na especulação, os bancos ganharem muito mais sem fazer força, enquanto a economia, como um todo, caminha para destruição.

Nesse sentido, é urgente a mudança da política monetária excessivamente ortodoxa porque sua lógica rompe o tecido econômico e social, gerando instabilidade geral que acaba atingindo o próprio sistema financeiro, na especulação excessiva construída pela esquizofrenia em forma de financeirização.

BC VIRA ATOR POLÍTICO NA FINANCEIRIZAÇÃO

No processo de financeirização, o BC Independente se transformou na maior ameaça à estabilidade porque virou ator político decisivo no regime parlamentarista de fachada, manipulando Congresso de maioria de direita que rompe com o sistema republicano e federativo.

Lula é o contrapolo político do BC Independente ultraneoliberal que com sua excessiva ortodoxia monetária virou ameaça à democracia ao enforcar o Executivo em favor do Legislativo que deixa de representar o povo para ser mero agente da especulação financeira.

A instabilidade política que gera a política monetária ortodoxa, como principal fator de desequilíbrio econômico, bombeia a direita radical que levou a Argentina ao beco sem saída em que se encontra.

Portanto, nessa quarta-feira, a decisão do BC Independente, se quiser sintonizar-se com os interesses nacionais, precisa ser mais ousada para reduzir em pelo menos 1 ponto percentual a Selic.

Será a alternativa econômica e política capaz de conduzir a economia em 2024 sem maiores sobressaltos, que estão levando ao racha o principal partido da aliança governista.

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