Emiliano José
Arrependido. Assim encontrava-se o barbeiro António Jorge da Silva, querendo gritar, dizer que se arrependia de ter sido tão cordeiro diante da tragédia do fascismo apesar de saber tão bem do significado dele, mas sempre o ignorando, preferindo a segurança das hipocrisias instaladas…
Fui um filho da puta, ele dizia, e merecia ser punido, fiz do meu país um lugar de gente desconfiada, nenhum povo unido, eu precisava que me deixassem morrer inteiro, um monte de peles e carnes derrubadas, mas inteiro, com a vergonha de ter sido conivente e o orgulho de ter percebido tudo porque eu precisava de morrer consciente…
António, à beira da morte, dizia só acreditar nos homens, e esperava vê-los se arrepender um dia, e mudassem de conduta para que fosse possível acreditarem uns nos outros também.
Angústia, sentia apenas angústia. Viu a enfermeira entrar, aproximar-se, perguntar, o que sente senhor Silva, e ele responde no que poderia ser o momento final: sentia angústia, sinto angústia.
Este, o estado de espírito do barbeiro António Jorge da Silva, protagonista do “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe, pensando no que fora a vida, como fora complacente, cúmplice com o silêncio diante do fascismo.
Pensava nisso nessas horas atormentadas de um País sob cerco do fascismo, novamente, isso depois de termos passado 21 anos de uma ditadura, quatro anos de um governo genocida, nova tentativa de golpe de Estado, prisão dos chefes, e um filho candidato, com os mesmo propósitos.
Quantos António estão entre nós? E milhões certamente sem qualquer sentimento de culpa, sem qualquer arrependimento?
Há os que, como António, se acovardam, mesmo conscientes de todo o mal oriundo do fascismo, e António tinha consciência do que haviam sido as décadas de Salazar. Apesar disso, silenciou.
Mas, há aqueles comprometidos com o mal, acreditando nele como meio de remediar os problemas da sociedade, remediá-los com a violência, embalados pelo ódio.
Há, ainda, no Brasil, os defensores da ditadura, a seguir o pensamento sanguinário de Bolsonaro-pai, a defender o assassino Carlos Alberto Brilhante Ustra.
O perigoso nesses momentos é a prevalência do medo, a suplantar a coragem. Sempre digo: todo ser humano experimenta o medo. O importante, sempre, é a coragem se sobrepor a tal sentimento. O temor ser menor do que a vontade de resistir, de se opor, de não admitir a barbárie.
Nesse segundo turno, a coragem tem vencido o medo, largamente. Como se brotasse das pedras, como se furasse o áspero chão, a coragem irrompeu, embalada pelos sonhos de nossa juventude, arrastando milhões de pessoas Brasil afora, a dizer não à barbárie, inevitável houvesse a vitória do fascismo, evidentemente a ideologia do filho do pai golpista, com os mesmos pensamentos, o mesmo ódio, o mesmo desprezo pelo povo, a ouvir os ecos de Mussolini, ecos dos anos 1920 do século passado.
Aos 80 anos, senti-me transportado aos anos 1960, quando minha geração tomou as ruas do Brasil, especialmente em 1968, levantando-se contra a ditadura, ou aos tempos da clandestinidade, quando nos opusemos de todos os modos ao terror, à prisão, à tortura, ao desaparecimento, aos crimes dos Ustra, dos Fleury, dos Médici, dos Geisel, dos Figueiredo.
Essa juventude, arrastando multidões agora, ocupando Paulista, Copacabana, Farol da Barra, Recife, Aracaju, Belo Horizonte, Curitiba, tantas pequenas e médias cidades, a dizer não à volta do fascismo.
Conquistamos a anistia, chegamos à Campanha das Diretas com milhões nas ruas. Jogamos as sementes da vitória contra a ditadura, em 1985. Derrotamos Collor. Atravessamos vários anos até chegarmos à vitória de Lula, em 2002, iniciando prósperos anos a partir de 2003.
A extrema-direita se articulou com Temer, deu o golpe contra Dilma, prendeu Lula, abriu as portas do inferno, e Bolsonaro foi eleito por gente como António, acovardada, e por muitos entusiasmados com o fascismo, tal e qual ocorreu na Itália por um bom número de anos até o momento em que Mussolini foi fuzilado e pendurado de cabeça para baixo em 1945.
Conquistamos a vitória contra o golpista em 2022. E agora, estamos frente ao desafio de não admitir a volta da barbárie. Com o nosso povo nas ruas, impulsionado pela juventude, com nossa gente consciente de que a vitória do filho do pai golpista significará um retrocesso monumental, estamos construindo a vitória, com a chegada de Lula ao quarto mandato dele.
A vitória do fascismo significará arrocho salarial, como prometido, mais e mais exploração da força de trabalho, desmatamento, um ataque brutal à Amazônia, asfixia de todas as entidades populares, ataque concentrado às Universidades públicas, às políticas voltadas ao povo mais pobre, diminuição dos valores das aposentadorias, do BPC, privatizações tais e quais as feitas por Millei, na Argentina, declaradamente o modelo do filho do pai golpista. Saúde, Educação, tudo será reduzido, como é nitidamente prometido pelo candidato adversário, ao propor o corte de 200 bilhões do orçamento. Um retorno ao chamado estado-mínimo.
E voltaríamos à condição de colônia, desejo manifesto do candidato adversário, proclamado aos quatro ventos, impulso irresistível de rastejar diante do império decadente. Ele não se envergonha disso. Exibe com orgulho a bandeira dos EUA.
Tempo sombrio, este: traidores da Pátria, celebrados, como se heróis fossem, ao menos por uma parte da população. Após a vitória de Lula, espero sinceramente ver muita gente, como António da Silva, arrependida, angustiada por ter embarcado em canoa tão errada. Regressando ao território diverso, ampliado, acolhedor da democracia.
Saúdo, com alegria, as tantas cores das ruas. A força de nossa juventude. A disposição de luta de nossa gente, a perceber os riscos da emergência do fascismo, não admitir a volta da barbárie, cujo sinal trágico recente foi a morte de mais de 700 mil pessoas, decorrente do negacionismo do pai do atual candidato.
É a voz da esperança, da coragem, ecoando nossos melhores sonhos. É a não rendição. A defesa da Pátria. Defesa da soberania. De um País, cujo presidente reeleito, irá seguir defendendo as bandeiras da paz e da luta contra a fome, no Brasil e no mundo. À vitória, sem vacilação. Permanecer nas ruas. Votar 13, garantir Lula, continuar uma nação independente.
#BoraLula