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terça-feira, 13 outubro 2026

Panamá: Após o terremoto, a tragédia continua

Cidade do Panamá (Prensa Latina) O medo ainda persiste nas praças, rachaduras atravessam as ruas e a água potável tornou-se uma das principais preocupações dos habitantes das comunidades mais afetadas pelo terremoto que atingiu o Panamá em 9 de outubro.

Por Mario Hubert Garrido

Correspondente-chefe no Panamá

Em Tonosí, Macaracas, Torio e Búcaro, na península de Azuero, a terra parou de tremer com a mesma intensidade, mas o cotidiano continua marcado pela incerteza.

Vários dias após o terremoto, muitas famílias preferem ficar ao ar livre, em tendas improvisadas ou em casas de parentes, em vez de retornar para casas cuja segurança desconhecem.

Cada novo tremor desperta o medo de que as paredes rachem novamente ou que as estruturas danificadas não resistam a outro movimento.

O terremoto, estimado em magnitude 7,5 pelo Instituto de Geociências da Universidade do Panamá e 7,7 pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos, teve seu epicentro próximo a Tonosí, no sul do país.

O impacto se estendeu a casas, estradas, escolas e serviços básicos, enquanto as autoridades continuam avaliando a extensão dos danos e as necessidades da população.

Mas, para além dos números, o rosto da emergência aparece nas famílias que abandonaram as suas casas, nos vizinhos que percorrem as ruas em busca de água e naqueles que tentam manter os seus pequenos negócios abertos, apesar das dificuldades.

Outra tragédia que se segue ao terremoto é a de recuperar a segurança, restabelecer os serviços essenciais e reconstruir uma normalidade que desapareceu em questão de segundos.

TONOSÍ, ENTRE O MEDO E A ESPERANÇA

Em Tonosí, epicentro da emergência, as noites estão longe da tranquilidade que as casas ofereciam antes do desastre. Na praça central, dezenas de pessoas buscam refúgio ao ar livre, convencidas de que ficar sob o céu aberto pode ser menos perigoso do que dormir entre paredes danificadas pelo terremoto.

Os moradores lembram-se da sexta-feira, 9 de outubro, como um dia que mudou suas vidas. Muitos dizem que nunca tinham vivenciado um terremoto de tamanha intensidade e são gratos por terem sobrevivido, embora o alívio inicial agora conviva com o medo de tremores secundários.

Desde aquela sexta-feira, mais de 400 réplicas foram registradas, segundo relatos. Embora sua frequência e magnitude tenham tendido a diminuir, os tremores continuaram durante o dia e a noite, perturbando o sono dos moradores, principalmente crianças e idosos.

Com o passar das horas, os movimentos começaram a se estabilizar em uma nova rotina. No entanto, cada tremor trazia as famílias de volta ao momento do terremoto e as lembrava de que a emergência ainda não havia terminado.

Os moradores também acreditam que o fato de o terremoto ter ocorrido durante o dia evitou consequências potencialmente mais graves. A possibilidade de o tremor tê-los atingido enquanto dormiam alimenta a preocupação sobre o que teria acontecido se a terra tivesse tremido à noite.

O impacto material é visível em várias partes da cidade. Rafael Moreno, ex-embaixador panamenho em Cuba e residente de Macaracas, descreveu os danos causados ​​por uma grande rachadura que se estende daquela área em direção ao centro da cidade, por pouco mais de 10 quilômetros, segundo seu depoimento.

A paisagem afetada inclui edifícios que faziam parte da vida comunitária, entre eles uma igreja, uma hospedaria perto de sua residência e uma escola primária que leva o nome de seu pai.

As imagens desses espaços danificados refletem uma perda que vai muito além de paredes e telhados. A escola representa anos de ensino e as esperanças de novas gerações; a igreja, um ponto de encontro; as casas, o refúgio onde as famílias construíram suas memórias.

Quando esses lugares deixam de oferecer segurança, a relação das pessoas com o seu ambiente também se altera.

No dia 11 de outubro, porém, os habitantes tentaram reviver algumas de suas tradições. Os poucos paroquianos que permaneceram em Tonosí participaram de uma missa ao ar livre, uma cena que contrastava fortemente com as estradas em ruínas e a ansiedade que ainda dominava a cidade.

A cerimônia não apagou os danos nem resolveu as necessidades pendentes, mas proporcionou um espaço de encontro em meio à incerteza.

Em situações como esta, a vida comunitária assume uma importância especial: compartilhar o medo, apoiar os vizinhos e manter algumas rotinas ajuda a lidar com uma emergência cuja duração ainda é difícil de prever.

Enquanto isso, os moradores estão tentando manter seus comércios e residências abertos, aguardando o restabelecimento dos serviços para que possam retornar às suas atividades normais com mais segurança.

Em Búcaro, o cenário era diferente, embora o medo tivesse a mesma origem. As portas das casas permaneciam abertas, tal como quando os habitantes saíram correndo durante o terremoto. Nas ruas, eram principalmente homens que percorriam a comunidade com recipientes em busca de água potável.

As estradas mostravam as consequências do terremoto. O asfalto havia rachado em grandes blocos e alguns trechos haviam cedido nas encostas, deixando apenas uma estreita faixa para a passagem de veículos.

Escolas fechadas e habitação em avaliação.

A situação de emergência também afetou o sistema educacional.

O Ministério da Educação do Panamá confirmou a suspensão das aulas em todos os centros educacionais públicos e privados do país, com o objetivo de facilitar inspeções de segurança e verificar as condições das instalações antes do retorno de alunos, professores e funcionários administrativos.

Segundo relatórios preliminares divulgados pelas autoridades, cerca de 419 centros educacionais, de um universo de mais de três mil em todo o território nacional, apresentaram algum tipo de impacto.

As inspeções tinham como objetivo determinar a extensão dos danos e os reparos necessários para garantir que as escolas pudessem reabrir sem colocar em risco a comunidade educacional.

O encerramento preventivo responde a uma necessidade imediata, mas também introduz novas preocupações para as famílias.

A escola é um espaço fundamental para a educação de crianças e adolescentes, e uma interrupção prolongada pode dificultar o aprendizado, especialmente em lares com menos recursos para manter atividades educativas fora da sala de aula.

A situação das escolas agrava os danos registados em casas e outras infraestruturas, principalmente nas províncias centrais de Herrera, Los Santos e Veraguas, perto do epicentro.

De acordo com avaliações preliminares, inspeções em 426 residências revelaram danos de diferentes graus, desde leves até a destruição total. Aproximadamente 2.130 pessoas viviam nessas propriedades. Cada casa avaliada representa uma família que precisa saber se poderá retornar para casa, se deverá buscar moradia temporária ou se terá que arcar com reparos que podem ultrapassar suas possibilidades financeiras.

Para aqueles que continuam desalojados, a incerteza vai além dos danos visíveis. Há também preocupações com os tremores secundários, a estabilidade das estruturas e quanto tempo terão que esperar para retomar suas vidas cotidianas.

Por isso, a avaliação técnica dos imóveis e a comunicação clara dos seus resultados são fundamentais. A necessidade de regressar a casa não pode ser dissociada da garantia de que existam condições de segurança adequadas.

RECURSOS PARA A RECUPERAÇÃO

Dada a magnitude da emergência, o governo panamenho declarou estado de emergência para facilitar a mobilização de recursos e atender às necessidades mais urgentes da população. A medida foi anunciada pelo Ministro da Presidência, Juan Carlos Orillac, durante uma coletiva de imprensa após uma reunião extraordinária do gabinete.

Por sua vez, o Ministro da Economia e Finanças, Felipe Chapman, assegurou que o país possui recursos para lidar com os danos causados ​​pelo terremoto e indicou que, caso fosse necessário recorrer a financiamento externo, os empréstimos com condições favoráveis ​​seriam priorizados.

Chapman também expressou gratidão pelas ofertas de apoio de organizações multilaterais, incluindo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Centro-Americano de Integração Econômica, além de

dos Estados Unidos.

A resposta financeira é uma parte importante do processo, uma vez que o reparo de casas, escolas, estradas e sistemas de abastecimento exige investimento e coordenação entre diferentes instituições.

No entanto, a recuperação também dependerá da tradução desses recursos em soluções concretas para os moradores. Restabelecer o abastecimento de água, garantir a segurança das estradas, inspecionar os edifícios e auxiliar as famílias que perderam suas casas são tarefas que devem ser abordadas de acordo com as necessidades identificadas em cada comunidade.

A CAPITAL PARECIA MENOS

Embora Tonosí e Búcaro tenham enfrentado as consequências mais visíveis do terremoto, na Cidade do Panamá as acelerações registradas foram consideravelmente menores do que as medidas nas proximidades do epicentro.

O vice-reitor de Engenharia Civil da Universidade Tecnológica do Panamá, Ramiro Vargas, explicou que entre 85 e 95 por cento da intensidade da onda sísmica havia diminuído antes de atingir a capital, localizada a cerca de 208 quilômetros do epicentro do terremoto.

Segundo o especialista, as acelerações na zona epicentral atingiram entre 50 e 60 por cento da gravidade, enquanto na capital variaram entre quatro e nove por cento.

A distância do epicentro e a profundidade do terremoto, estimada em cerca de 12 quilômetros por Vargas, ajudaram a explicar as diferenças observadas no comportamento dos edifícios. O terremoto ocorreu no sistema de falhas Azuero-Soná.

Vargas alertou que as consequências teriam sido muito diferentes se o terremoto tivesse se originado muito mais perto da cidade. “Se este terremoto tivesse ocorrido, digamos, na falha de Pedro Miguel, que fica a menos de 20 quilômetros da Cidade do Panamá, a resposta teria sido completamente diferente”, observou ele.

Segundo as avaliações preliminares citadas pelo engenheiro, não foram observados danos estruturais significativos nos edifícios da capital. As estruturas reagiram elasticamente, através de deformações temporárias que lhes permitiram recuperar a sua posição original.

No entanto, o especialista esclareceu que podem ocorrer danos em elementos não estruturais, como paredes, mosaicos e tetos, e salientou que a resposta dos edifícios na capital não deve ser extrapolada para construções localizadas perto do epicentro.

A diferença entre as duas regiões demonstra que a magnitude de um terremoto, por si só, não determina suas consequências. Distância, profundidade, condições do terreno e características das construções também influenciam a intensidade do tremor sentido em cada área.

PREVENÇÃO, UMA TAREFA INACABADA

As explicações técnicas de Vargas também se concentram nas condições de construção e na aplicação das normas de segurança.

O especialista observou que o Panamá possui um Código de Estruturas que incorpora critérios de projeto resistentes a terremotos. O código foi revisado pela primeira vez em 1984 e posteriormente atualizado em 1994, 2004, 2014 e 2021.

No entanto, a existência de regulamentações atualizadas não garante, por si só, a segurança da edificação. Sua eficácia depende do cumprimento dos requisitos técnicos durante o projeto e a construção, bem como de inspeções e manutenções adequadas.

Entre os fatores de risco, Vargas identificou construções informais, obras realizadas sem análise ou projeto estrutural, falta de fiscalização e deterioração dos edifícios devido à falta de manutenção.

Ele também observou que a capacidade de analisar projetos e supervisionar obras não é uniforme em todos os municípios, devido, entre outros motivos, às limitações de pessoal e recursos técnicos.

Nas comunidades mais afetadas, observou a Prensa Latina, a recuperação ainda não é medida pelo número de projetos concluídos ou pela rapidez com que as estradas podem ser reabertas.

É medida em termos de necessidades imediatas: obter água potável, encontrar um lugar seguro para dormir, conhecer as condições de uma casa e ter uma maneira de sair da aldeia sem se expor a novos perigos.

Tratam-se de diferentes frentes da mesma emergência, cujo alcance não pode ser medido apenas pela magnitude do terremoto.

O terremoto também destacou a importância de se ter edifícios seguros, serviços essenciais resilientes, vias de acesso adequadas e mecanismos de resposta que permitam identificar as necessidades das comunidades desde o início.

Porque a tragédia não termina quando os tremores secundários cessam. Ela termina quando as famílias podem retornar para suas casas sem medo, os serviços essenciais voltam a funcionar e as comunidades recuperam as condições necessárias para reconstruir suas vidas.

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