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Papo do Dia

Postado em 27/11/2015 6:38

EM CENA, A COVARDIA

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Moro. Coveiros também vestem preto

Os poderes da República assistem impávidos à demolição progressiva do Estado de Direito

por Mino Carta — Editorial Carta Capital

Faz duas semanas, em carta publicada na seção competente, um leitor elogiou CartaCapital ao defini-la como revista de esquerda. Que significa ser de esquerda? Bom ou mau? As opiniões, como se sabe, divergem, e em um país maniqueísta como o Brasil divergem absolutamente, embora o significado exato da palavra tenha perdido a clareza de antanho.

Há mesmo quem diga que o tempo das ideologias acabou de vez como se fosse possível admitir a inexistência de ideias capazes de mover as ações humanas. De todo modo, em terra nativa, basta pouco para ser classificado de esquerda, ou mesmo comunista. Vários requisitos exigem-se para chegar a tanto, mas dois são determinantes.

Primeiro, denunciar com todas as letras a insuportável desigualdade reinante no País, recordista em má distribuição de renda. Segundo requisito. Não se acovardar diante da prepotência oligárquica, tão desbragadamente exercida por meio da mídia nativa, paladina de uma liberdade de imprensa que não passa de liberdade de propalar impunemente o que interessa aos patrões, moradores cativos da casa-grande e, portanto, de inventar, omitir e mentir. Esta é também uma forma de corrupção.

No enredo político em pleno desenvolvimento no cenário nacional, o papel da covardia é capital, é a partícula primeva que explode no big-bang. Espero ser entendido ao acentuar que a encenação é digna de um colossal hollywoodiano, e talvez fosse oportuno entregar a direção a Cecil B. DeMille. Cinéfilos vetustos como o acima assinado sabem o que estou a dizer. Vamos, porém, ao ponto, sem exagerar em esperanças quanto a essa compreensão.

A par da credulidade de muitos leitores, ouvintes e telespectadores e da benfazeja indiferença da senzala, preocupada com temas práticos e cotidianos, sobra, com extraordinário vigor, a covardia de quem haveria de resistir. A começar pelo Supremo Tribunal Federal. Lembrei-me do meu professor de Direito Penal na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em uma das cúspides do chamado Triângulo de uma São Paulo adoravelmente provinciana. Noé Azevedo, cavalheiro de cabelos brancos, supunha-o parecido com Caronte, o barqueiro do Styx na versão dantesca, “branco por antigo pelo”. Ensinava a supremacia do Direito Natural: os fatos merecedores de julgamento, hão de sê-lo no mesmo local em que se dão.

Aí está o pecado original, imperdoável, da Lava Jato. Escudado pela polícia curitibana, Sergio Moro manda às favas o Direito Natural. Os ministros do STF não foram alunos do professor Noé, está claro, e talvez nem saibam dele. Poderiam, contudo, ter consciência das suas responsabilidades. No entanto, diante do desmando e de muito outros cometidos na república jurídico-policial de Curitiba, se acovardam.

Divididos nos sentimentos e nos humores, os senhores ministros de uma justiça desvendada, curvam-se aos pés da arrogância midiática. Apavoram-se com a reação, impressa, radiofônica e televisada, a qualquer tentativa de recolocar a situação nos trilhos da lei, sem deixar de apreciar referências gaudiosas às suas pessoas, uma foto aqui, uma nota favorável , ou mesmo uma entrevista, acolá. A citação empolga e compensa o medo.

O mesmo gênero de temor atinge o próprio governo, acuado e até hoje incapaz de inaugurar o segundo mandato de Dilma Rousseff, tão bem representado na sua inércia aturdida por um ministro da Justiça inexoravelmente inepto. Aceita-se a afirmação da prioridade do combate à corrupção, enquanto demole-se o Estado de Direito.

E as bancadas petistas do Congresso e os parlamentares da dita base aliada? Acovardados, alguns à sombra da espada de Dâmocles, outros por que simplesmente tementes à mídia em lugar de Deus, possivelmente alheado como de hábito das misérias humanas. Se algum dia o Brasil foi um Estado de Direito a despeito da presença inesgotável da casa-grande e da senzala, deixa de sê-lo agora debaixo dos golpes das manchetes.

Observa um velho amigo ao me visitar no meio da tarde melancólica: tínhamos um salvador da pátria, chamava-se Joaquim Barbosa, de um tempo para cá tomou-lhe o lugar Sergio Moro. Nada mais simbólico do que a homenagem que lhe fez a Aner, contada nesta edição por Nirlando Beirão na página 30. O herói de camisa preta, adequada a mostrar antes a vaidade do que a identificação ideológica, conforme o editor de CartaCapital. Permito-me observar que o preto também é próprio do coveiro.

Comentários:

2 ideias sobre “EM CENA, A COVARDIA”

  1. Não sei o porquê, mas achei que devia começar por aqui.
    Fatos ocorridos que ocasionou a prisão do Senador Delcídio Amaral são de deixar qualquer um perplexo, vejamos:
    (1º) A procuradoria geral não informou ao STF que havia recebido provas de que um Senador da República havia sido detectado tentando tramar contar os andamentos de uma investigação (Operação Lava Jato) e que vários ministros do STF ligados a 2ª Turma do STF, tinham sido citados na trama.
    (2º) Os procuradores continuaram as investigações sem informar ao STF e ao Procurador Geral da República.
    (3º) O Procurador Geral da República encaminha as provas e os relatos ao Ministro Teori Zavaski, citado na gravação.
    (4º) O ministro Teori Zavaski não informa a Presidência do STF sobre o que está acontecendo e acata o pedido do Procurador Geral da República para a prisão do Senador e do grupo envolvido.
    (5º) O ministro Teori Zavaski sem comunicar o STF, encaminha uma reunião com a 2ª Turma do STF e os Ministros citados referendam por unanimidade o encaminhamento dado pelo mesmo.
    (6º) O Senador e o grupo são presos.
    Como assim? Perguntar-se-ão os cidadãos, tem caroço neste angú, o que os Ministros citados estão fazendo? Mandando prender quem os cita e investigando e julgando eles mesmo quem os acusa?
    Seria correto perguntar se Ministros da 2ª Turma do STF devem ser investigados a respeito das citações do Senador Delcídio? Sim, a partido momento que deram como corretas e verdadeiras as palavras do Senador e grupo participante da trama, eles deveriam ser investigados, só que não, ele preferiram tomar outro rumo, que é o que está posto por eles.
    Eles deveriam se dar por suspeitos, e indicarem outra turma para este processo, para que a continuidade nas investigações deste processo fosse isenta, mas resolveram prender e dar continuidade no processo e nas investigações nas quais são citados e estas citações devem ser investigadas para se souber qual é a extensão deste envolvimento, como se deu e como pode interferir nos julgamentos da Lava Jato que chegarem até esta instância, pois são fatos que interessam a toda sociedade brasileiros e não diz respeito somente a eles.
    Quando o Senador Delcídio tiver de depor em juízo, quem o interpelará? O Ministro que ordenou sua prisão? Quem relatará este caso? Os depoimentos serão filmados e públicos? Quais os riscos que corre o Senador Delcídio, tendo de relatar o que conversou com estes Ministros, que agora o investigam e o julgarão? Como é possível que eles mesmos investiguem, relatem e acusem quem os acusa? Qual o grau de isenção que terão os membros citados, da 2ª turma para sentencia-lo? Será a mesma que tiveram para prender um Senador em exercício de seu mandato? E a pergunta fatal, qual a isenção que terão os ministros citados, para julgarem as questões da Lava Jato, uma vez que podem, em tese, estar envolvidos nos dois lados do processo?
    Em relação ao caso da prisão do Senador Delcídio, as respostas que o Ministro Teori Zavaski e os ministros citados da 2º Turma do STF, deram ao caso, assusta o mundo jurídico brasileiro. Afinal de contas o que está acontecendo no STF? Para quê serve a CF? Porque os juristas se calam perante as afrontas a CF, feitas pelo judiciário?
    O risco de parcialidade nos julgamentos que serão feitos pela 2ª Turma do STF é grande, em que pese à sobriedade do relator, tem muita coisa que está em jogo para que se possam colocar em risco as investigações da Lava Jato, nos julgamentos destes processos não pode pairar dúvida nenhuma sobre, as investigações, as tomadas de depoimentos, as provas, o processo e principalmente sobre os julgadores.
    Estas questões precisam ser resolvidas o mais breve possível, pois a solução dada até o momento não é sequer satisfatória.

  2. Quem autorizou a gravação feita pelo filho do Cerveró? A autenticidade da vozes corresponde aos nomes mencionados? Não faltou o aval dum perito para autenticar a gravação? O senador não poderia ter sido preso porque não pode serconfigurado o flagrante. Judiciário atrapalhado!

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