Fiquei imaginando outra praia, também vista do mar, mas 526 anos antes. Algumas embarcações se aproximavam lentamente da costa, carregando homens que não falavam a língua dos habitantes daquele lugar, não conheciam seus costumes, não tinham autorização para desembarcar, não possuíam visto de permanência e tampouco haviam sido convidados. Imaginei, então, um agente da Polícia Federal dos Povos Originários caminhando até a areia para abordar os recém-chegados.
Porque fronteiras nunca foram apenas linhas desenhadas em mapas. Elas também são linhas desenhadas pelo poder. Algumas foram construídas para proteger povos e territórios; outras foram erguidas depois que esses mesmos territórios já haviam sido ocupados por quem chegou de fora. Durante séculos, navios cruzaram oceanos levando soldados, comerciantes, missionários e colonizadores. Atravessaram mares, derrubaram fronteiras existentes, criaram novas fronteiras e reorganizaram continentes inteiros. Quase sempre, porém, a palavra usada não era invasão. Era expansão.
Lembrei também de Cristovam Buarque, professor, ex-governador do Distrito Federal, ex-ministro da Educação e ex-senador brasileiro. No ano 2000, durante um debate em uma universidade nos Estados Unidos, ele foi questionado sobre o que pensava da ideia de internacionalização da Amazônia. O estudante disse que esperava uma resposta de um humanista, não apenas de um brasileiro. A provocação parecia simples: se a Amazônia pertence à humanidade, por que deveria estar limitada às fronteiras de um país?
Talvez por isso a questão migratória de hoje precise ser olhada com mais humanidade. Não porque as fronteiras não tenham importância, mas porque nenhum muro consegue apagar uma pergunta antiga: quem teve o direito de viajar pelo mundo e quem foi obrigado a permanecer onde nasceu? Quem escreveu a história dos descobrimentos? Quem escreveu a história dos deslocados?