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quarta-feira, 24 julho, 2024

Dólar em alta: Brasil e outras economias emergentes poderiam depender menos da moeda americana?

Sputnik – Apesar da queda da influência dos Estados Unidos, parte da economia mundial, sobretudo no Ocidente, ainda se guia, em grande medida, pela cotação do dólar. No Brasil não é diferente. Por que o país ainda é tão dependente das variações da moeda norte-americana e que problemas isso traz para a sua economia?

Nos últimos dias, a alta do dólar, atribuída a atitudes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamou a atenção sobre a importância da moeda estrangeira para a economia brasileira, sobretudo em um momento em que o país conta com outros indicadores positivos no setor.
Um levantamento da Austin Rating, considerando o Ptax (média diária do dólar, calculada pelo Banco Central), comparando 118 moedas do mundo mostra que não é só o real que está perdendo valor em relação ao dólar. Outras 84 moedas/nações também estão se desvalorizando ante a moeda americana, por diferentes fatores — como inflação nos EUA e em vários países e juros altos.
No Brasil, no entanto, o aumento foi visto por muitos como um grande problema resultante principalmente de medidas e de declarações de Lula, cujas críticas ao presidente pró-mercado do Banco Central, Roberto Campos Neto, e defesas de mais investimentos sociais têm sido tratadas como indícios de irresponsabilidade fiscal.
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Reduzir a dependência do dólar é uma preocupação que já foi manifestada por diferentes membros do atual governo brasileiro. E, atualmente, é uma das principais pautas debatidas pelo grupo BRICS, do qual o Brasil é um dos principais membros. Embora complicado e longo, esse processo é considerado cada vez mais plausível por diferentes atores do cenário internacional.

Alta do dólar e impactos no Brasil

Elton Gomes, doutor em ciência política e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), abordou a questão da hegemonia do dólar e seu impacto na economia mundial e, especificamente, na brasileira. De acordo com ele, a posição dominante de uma moeda na economia global não é permanente, mas fruto de um processo histórico.

“Tem vários exemplos históricos, mas o que eu sempre digo é isso: hoje, o Brasil é um país que tem a sua economia grandemente carreada para a venda para o exterior, ou seja, para exportação. Nós temos uma diplomacia de comércio, o que faz com que o Brasil não possa ter nem aliados incondicionais e nem inimigos declarados, ou seja, o Brasil precisa manter sempre uma grande capacidade de exportação para manter as suas capacidades econômicas”, exemplifica.

Nessa dinâmica, na qual a manutenção de uma forte capacidade de exportação é vital para a saúde econômica da nação brasileira, o dólar desempenha um papel crucial, sendo o principal referencial para a precificação internacional dos bens exportados e importados pelo Brasil.
A elevação do valor do dólar, e consequentemente a desvalorização do real, tem um efeito cascata sobre todos os bens e serviços consumidos no país, alerta o analista. Isso inclui desde serviços básicos, como transporte, até operações complexas envolvendo multinacionais e grandes players econômicos.
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À reportagem, o economista e mestre em desenvolvimento regional e urbano, Bruno Mota vai ao encontro do que diz Gomes.

“A alta do dólar afeta a vida dos brasileiros mais pobres, principalmente por meio do aumento dos preços dos produtos importados e daqueles que têm componentes importados. Além disso, produtos essenciais, como alimentos e medicamentos, podem se tornar mais caros, pois muitos são importados ou dependem de insumos estrangeiros. Isso reduz o poder de compra das famílias, aumentando o custo de vida e dificultando o acesso a bens e serviços básicos”, detalha Mota à agência.

O economista continua: “É plausível que o cenário internacional tenha um impacto significativo na desvalorização do real. Fatores como a política monetária dos EUA, tensões geopolíticas, e flutuações no preço das commodities podem afetar a moeda brasileira“.
Ele pontua, ainda, que o Banco Central, que é independente do governo, pode e deve intervir, vendendo reservas de dólares para aumentar a oferta e tentar reduzir o valor da moeda americana, diminuindo o impacto sobre nossa economia e sobre a população mais pobre.
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Para o economista especializado em planejamento e gestão pública pela Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Pernambuco (UPE) Brenno Almeida, a alta real do dólar é muito mais resultado de um movimento especulativo de mercado, “que interfere naturalmente na oferta dessa moeda no mercado, e do próprio comportamento do Banco Central, que, de certa forma, apresenta uma relativa permissividade a esse comportamento especulativo”.

“O controle de gastos está sendo feito, o governo não está se locupletando, gastando dinheiro para ampliar apoio político, muito pelo contrário, as coisas estão sendo feitas por conta de necessidades de reconstrução do país. É importante a gente considerar que a gente está num contexto em que grande parte da máquina administrativa está sendo redimensionada para as demandas reais do país, investimentos públicos estão sendo feitos de maneira a reconfigurar o perfil da nossa economia. A ampliação do crédito para o setor rural, por exemplo, é um fator significativo e com relação a isso o mercado fica calado”, arremata Almeida.

Saúde fiscal

Gomes destaca que tanto a balança de pagamentos do Brasil como sua saúde fiscal são fatores interligados ao valor do dólar. Para ele, o Brasil já seguiu políticas macroeconômicas bem-sucedidas, iniciadas no governo de Fernando Henrique Cardoso, e mantidas nos governos subsequentes.
No entanto, segundo ele, essas políticas começaram a ser subvertidas no governo Dilma Rousseff, resultando em uma grave recessão. Apesar de tentativas de correção nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em sua avaliação, o professor observa uma mudança de direção com o atual governo de Lula, que tende a aumentar o gasto público sem cortes significativos, influenciado pela necessidade de atender múltiplos interesses dentro do presidencialismo de coalizão brasileiro.
“As metas de superávit, as metas de inflação, metas de juros para poder impedir a inflação e superconsumo, elas foram mantidas no Brasil durante o período de Fernando Henrique, foram mantidas e até tornadas mais ortodoxas nos governos iniciais de Lula”, arguiu. Mas elas [as metas] começaram a ser subvertidas no governo Dilma, gerou a maior recessão no período recente. Depois você teve a correção de rumos, a retomada disso lá no governo Temer. No governo Bolsonaro, se manteve um parâmetro semelhante, mas, aí, veio a pandemia, ainda assim se adotaram os elementos do receituário macroeconômico, que, sim, tem sido bem sucedido no Brasil. Mas, ao retornar ao poder, o presidente Lula abriu mão de manter, ou parece querer abrir mão de manter os instrumentos de política monetária que foram utilizados pelo Brasil com sucesso nos últimos 20 anos”, argumentou.
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O analista também mencionou as recentes políticas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que incluem aumentos de tributos, refletindo uma tentativa de angariar recursos para políticas assistenciais e de intervenção estatal na economia.
“As medidas que foram defendidas pelo ministro da Fazenda atual, o ministro Fernando Haddad, que resultaram em majoração de tributos, então, o dólar elevado tem efeito sistêmico, sobretudo na economia, aumenta o preço de passagem, aumenta o preço da alimentação, aumenta o preço da informação e da tecnologia, produtos indispensáveis no mundo moderno. Então isso tem que ser levado em consideração”, afirmou.

Desdolarização no horizonte do Sul Global

Elton Gomes sublinha a competição entre o dólar, como moeda dominante, e outros desafiantes emergentes, como o yuan chinês e o rublo russo, moedas de países que têm liderado os esforços para reverter o papel desempenhado pela moeda americana no sistema internacional.
Ele enfatiza que a hegemonia do dólar não se sustenta apenas pela força econômica dos Estados Unidos, mas também pela aceitação global da moeda. O grande desafio a essa hegemonia, em sua avaliação, é, justamente, fazer com que outras moedas tenham o mesmo grau de aceitação. Algo que não acontece de um dia para o outro.
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O economista Brenno Almeida ressalta que economias periféricas, em sua maioria, as economias do Sul Global, onde grande parte dos países do BRICS está, “são economias que têm o dólar como seu termo de troca importante, mas são economias hoje que concentram parcela significativa dos consumidores e da produção mundial. Então, a gente vê um horizonte aí [para] que novas mediações possam ser feitas“.
“No âmbito do Mercosul, isso também pode ser feito. Importante a gente lembrar que, na medida em que economias menos desenvolvidas operam com dólar como termo de troca principal, essa economia, ela tem bastante dificuldade de se desenvolver, porque para ela o dólar é mais caro. […] Então a oferta de dólares é muito baixa nessas economias, e isso termina resultando em problemas.”
De acordo com Almeida, diante dos problemas ligados à dependência do dólar “novas configurações estão sendo feitas” de maneira a garantir “a outras economias menos desenvolvidas uma possibilidade de participar das trocas econômicas em âmbito global” de maneira mais efetiva.

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