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quinta-feira, 30 maio, 2024

Dia D como batalha que salvou mundo do nazismo é mito e manipulação da história, dizem historiadores

© Foto / Public Domain / U.S. Navy

Tema de uma penca de filmes de grande repercussão mundial, o Dia D da Segunda Guerra Mundial ocupa o imaginário coletivo ocidental como a batalha que virou o jogo no conflito e determinou a derrota dos alemães, salvando a Europa e a democracia.

O nome se refere à invasão da Normandia, no norte da França, que ocorreu em 6 de junho de 1944 como parte da Operação Overlord, quando principalmente os britânicos e americanos invadiram o norte da França, ocupada pelos alemães.
Nesta quinta-feira (9), quando se comemora o Dia da Vitória sobre as tropas nazistas em Berlim, há 79 anos, historiadores ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliaram que, embora tenha sido uma batalha importante, o Dia D foi erroneamente alçado à “categoria de mito de salvação do mundo”.

“O mito aqui é um instrumento de interpretação da realidade. A gente tem uma realidade complexa, difícil de compreender, e se desenvolve em mitos para dar significado ao que temos dificuldade de entender no cotidiano, na vida ou na nossa história”, explicou o pesquisador Icles Rodrigues.

Autor do livro “O Dia D: como a história se tornou mito”, Rodrigues afirmou que no imaginário coletivo existe a ideia de que se não houvesse o Dia D, a Alemanha sairia vencedora da guerra. Ele salientou a invasão da Normandia, que acelerou o fim da guerra e salvou muitas vidas, mas não foi um evento decisivo.

“A Alemanha já estava perdendo. Eles já tinham sofrido uma derrota significativa em 1941 em Moscou. E, no verão de 1942, eles empreendem outra ofensiva que é derrotada especialmente na Batalha de Stalingrado, em 1943”, narrou o historiador.

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Rodrigues contou que outro evento crucial para a vitória dos aliados foi quando os britânicos quebraram a criptografia das mensagens entre os alemães e informaram os soviéticos sobre uma nova ofensiva da Alemanha, dando tempo para que a URSS se preparasse.

“Isso culmina na campanha de Kursk, onde os alemães são derrotados de novo. E, nesse meio tempo, enquanto Kursk está acontecendo, os aliados estão invadindo a Itália, e ali nesse momento está muito claro que é questão de tempo para a Alemanha perder a guerra”, esclareceu ele. “Então, dizer que a guerra não seria vencida caso o Dia D não acontecesse é um delírio. É vontade de querer manipular a história.”

A vitória na Europa contra os nazistas se tornou motivo de disputa política nas últimas décadas, destacou o historiador Ricardo Quiroga e pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio. Nessa batalha de ideias, Quiroga destacou o revisionismo perpetrado pelo Ocidente, que tem boicotado visões diferentes da hegemônica, como o Dia da Vitória.

Dia da Vitória

Comemorado no 8 de maio, pelo Ocidente, e 9 de maio pela Rússia, o Dia da Vitória representa o momento em que a humanidade se uniu contra o projeto genocida que se constituiu a partir da ascensão do nazifascismo. “Não há um paralelo na história”, diz Quiroga.
Ele lembrou que a mídia ocidental se antecipou e iniciou as comemorações no dia 8.

“Para o Ocidente, o dia 8 virou o marco, e para a União Soviética e países do leste europeu, até então passou a ser o dia 9”, pontuou. “Por mais que se comemore no dia 8 e houvesse essa assinatura da capitulação definitiva, da rendição definitiva da Alemanha nazista em Praga, na então Tchecoslováquia, os combates seguiram no dia 9. A guerra não tinha ainda acabado porque as tropas nazistas em Praga ainda resistiam”, acrescentou ele.

As duas datas eram celebradas sem rusgas entre Ocidente e Rússia até o aguçamento do que chamou de atual Guerra Fria, com o avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da russofobia e de um revisionismo histórico.
“A ponto de os russos não serem convidados pelo Ocidente, e o Ocidente se recusar a participar do dia 9. Ou seja, ignorando o papel fundamental da União Soviética, que congregava a Rússia e todas as outras repúblicas, as 15 repúblicas, na derrota do nazifascismo”, lamentou o historiador.

A guerra sob o prisma do cinema de Hollywood

Ambos os historiadores frisaram que os Estados Unidos têm sido a maior nação do mundo no que concerne ao uso de soft power para vender ideologias e criar uma autoimagem e que o cinema teve um papel importante na construção do mito do Dia D.
Para Rodrigues, a principal contribuição do cinema para o mito do Dia D foi “O resgate do soldado Ryan”, de Steven Spielberg.

“Apesar de excelente, é um filme que, sim, ajuda a consolidar uma série de mitologias a respeito do soldado cidadão dos Estados Unidos da importância do Dia D”, opinou. “Mas ele não vem sozinho, vem no escopo de eventos e discursos presidenciais e toda a comemoração do Dia D.”

O número de perdas de cidadãos soviéticos oscila entre 20 e 27 milhões, enquanto o número de mortes de britânicos e americanos juntos chegou a cerca de 1 milhão nos 500 mil cada.

“O Ocidente nunca se preocupou em passar filmes que mostrassem o papel soviético na Segunda Guerra Mundial, lembrou. Vemos muitos filmes da Batalha da Inglaterra, os Spitfires, os pilotos norte-americanos, os Red Tails, só que o cara que mais abateu aviões inimigos foi um soviético chamado Ivan Nikitovich Kozhedub, filho de camponeses, que trabalhava como torneiro mecânico”, contou Rodrigues.

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Histórias para brasileiro ver

O fato de o primeiro livro de um brasileiro sobre o papel do Exército Soviético na Segunda Guerra Mundial, do professor João Cláudio Pitillo, ter poucos anos, aponta para o poder da narrativa ocidental sobre a produção acadêmica brasileira a respeito da Segunda Guerra Mundial, ressaltou Quiroga.

“Não havia um livro sobre essa questão. E nos livros de história, embora se reconheça, se fale do papel, nunca tem o destaque que deveria ter. O Dia D é o máximo que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. […] o Dia D, foi o grande momento”, criticou ele.

Por outro lado, o pesquisador comentou que o número de pessoas no Brasil dispostas a combater a atual onda mundial de revisionismo histórico está aumentando.

“Por mais que não tenha a mesma força, o mesmo destaque, é firme, vai avançando, vai dialogando. Permite que as próximas gerações tenham acesso a mais informações. […] vemos nas nossas lives, quando a gente produz os nossos livros, que muitos do nosso público são jovens e estão ávidos, porque a juventude está ávida sempre a saber mais”, concluiu ele.

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