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quarta-feira, 24 julho, 2024

Descaminhos da Liberdade

José de Jesus Barreto

De que restos de desumanidades fomos paridos?

Herdeiros sem nome de infames degredados

vis escravizados

filhos da silva desalmados …

     Torpe mistura de profundas dores

     que vagam ao tempo rebrotando feridas

Que gente somos… saída do mato

salva das águas

sal da terra

    Gente criada nas senzalas

    batizada nas capelas

    enlameada no mangue

    rasgada nos canaviais

    envilecida nos cais

    amaldiçoada de sangue

De onde e quem restamos, assim, sem eira nem beira?

   –  Das brenhas do escuro

     Filhos da fome e do fausto

Da ganância, ignorância, abundância

da indecência, da inclemência

    Herdeiros do nada, sobras do exílio

    Repasto de coronéis, bando de esfarrapados

    marcados pelo chicote, redimidos pelo batuque

Entre arcabuzes e tacapes, oratórios e berimbau

Letrados e serviçais, a mando e revoltas

Mulatos, caboclos, cafuzos …

caldo, mixórdia do desconhecido

      Sobras! sobras dos quilombos

      De matanças, arruaças, traições, feitiços

      Antropofágicos somos!

      Uns descompreendidos!

Velhos capoeiras, como rezava Pastinha:

– Somos pretos mandingueiros, em ânsia de liberdade.

    Às pernadas, trupicando pelas ladeiras,

    pinga ardente no lombo, olho nas quebradas…

Ah! Aqui se goza e padece!

Esmagada de pobre orgulho

a gente bem que merece

outro, um novo Dois de Julho.

                                             2023/ 200 anos da “Independência”

 (esse texto está na belíssima edição da revista Viva Bahia – em homenagem aos 200 anos de nossa independência, com ilustração de Borega).

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