Banco Master
César Fonseca
O Banco Master, que a Polícia Federal estourou, nesta terça, é o retrato atual do sistema financeiro brasileiro, que vive de maracutaias, a partir dos juros especulativos sustentados pelo Banco Central, com a Selic na estratosfera dos 15% ao ano – maior taxa do mundo, inferior, apenas, à da Turquia; trata-se de câncer que está corroendo inapelavelmente a economia nacional, o obstáculo principal ao crescimento econômico sustentável que bloqueia a industrialização brasileira, como destacou o vice-presidente Geraldo Alckmin.
Quem vai investir em negócios – dependentes da produção, do consumo e do poder de compra da renda variável(salários) dos trabalhadores, se é infinitamente melhor deixar o dinheiro se multiplicando no rentismo, no cenário da financeirização que domina o capitalismo tupiniquim sob modelo neoliberal, desde a debacle de 2008?
Os espertos, como o dono do Master, Daniel Vorcaro, descobriram o mapa da mina: arregimenta investidores para comprar ativos podres, recuperam-nos com a ajuda de políticos corruptos com os quais dividem o butim e apostam em alavancagens bem acima do capital inicial, convictos de que multiplicarão o mesmo no embalo dos juros de agiotagem, passando ao largo da economia real, que não dá lucro, exceto se forem salvos mediante subsídios, doações, perdões de dívidas, sonegação, elisão, sendo obrigados, por sua vez, a corromper burocracias aliadas do mercado financeiro etc.
A alavancagem financeira somente é interrompida com os estouros e corridas bancárias, enquanto o mico fica na mão dos milhares que ingenuamente acreditam em milagres; trata-se de história centenária, desde que existe capitalismo, como lembram os economistas André Lara Resende e Luiz Gonzaga Belluzo, experimentados servidores públicos na gestão da economia brasileira nos governos Sarney e Fernando Henrique Cardoso.
O Banco Master repete os mesmos procedimentos praticados pelo sistema financeiro, desde 1694, quando o Rei Guilherme III, criou o Banco da Inglaterra, para garantir concessão da gestão do sistema financeiro ao setor privado, garantindo-lhe a emissão títulos financeiros, títulos de dívida, notas, debêntures, valores fiduciários em geral, comercializados no mercado como moedas, para adquirir ativos, multiplicando riquezas financeiras etc.
Certamente, as regulamentações existem, mas elas somente fazem efeito atrasado, quando as portas estão arrombadas, como acontece agora como banqueiro de calça curta, Daniel Vorcaro, que quis alcançar o status dos gigantes da Faria Lima; ele chegou a descobrir a pólvora, ao fundar o seu tamborete, ou melhor, seu banco Master, arregimentando ao seu capital fundos e empresas menores de toda a natureza, para fazer volume, capaz de seduzir clientes; com ele, chegou a atrair o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, para comprar parte do seu passivo de R$ 2,5 bilhões com dinheiro de funcionários públicos do DF, depositados no BRB; assim o titular do Buriti assumiria a massa falida de Vorcaro; também foi vítima do banqueiro aposentados do INSS atraídos pelos empréstimos consignados com promessas de rendimentos que jamais se realizam no cenário da agiotagem rentista.
RIQUEZA PRIMITIVA
É na base da roubalheira que os bancos acumulam renda primitiva, para logo alavancarem roubalheiras mais substanciosas em ritmo incontrolável; Marx, no capítulo 24 de “O Capital”, intitulado “A assim chamada acumulação primitiva”, traça, didaticamente, o roteiro, o processo que origina, historicamente, a dívida pública, por meio da qual o Estado cria moeda sem precisar de poupança prévia, para girar o nascente sistema capitalista; o monarca – o Estado, hoje, no sistema republicano – concede aos banqueiros o direito de criar moeda, por meio da qual acumula passivo, de um lado, e, de outro, ativo, nas mãos do setor privado; antigamente, o lastro dessa moeda era os metais(prata, ouro, tallers etc); séculos depois, a partir dos anos de 1930 em diante, com fim do padrão ouro, a moeda passou a ser expressa em papel – moeda fiduciária – garantida pelo poder estatal.
A dívida pública servia ao Rei e aos imperadores do capital, atualmente, para fazer guerras e conquistar territórios e, para os banqueiros, ampliar o poder financeiro, na base da usura, com a qual se ergueu, a partir do século 16/17, a industrialização; a usura é o reflexo da acumulação da riqueza estatal transferida ao setor privado pelo poder político sob o sistema capitalista; o Master, como um microcosmo do sistema financeiro, é o mecanismo que movimenta o mercado na base da especulação sob a economia política dominada pela especulação sem limite, agudizada pela crise de 2008.
O banco de Vorcaro que a PF estoura girou, no seu auge, R$ 12 bilhões, proporcionados pela concessão estatal, como ocorre como todos os demais bancos, privados e públicos, sujeitos, no capitalismo, a regulações frouxas; estas são, por sua vez, comandadas por burocracias e políticos corruptos que atuam nos parlamentos a serviço da burguesia financeira, aliada aos bancos centrais, no comando das taxas de juros, que determinam o lucro dos concessionários pelo Estado, no cenário da financeirização; no Brasil, o sistema financeiro é coordenada pelo jurismo militante do BC + Faria Lima, na administração da Selic de 15%, que, segundo Alckmin, não deixa a industrialização brasileira acontecer
MERCADO BICHADO
O desdobramento do caso Master assusta e apavora graúdos da política e do mercado financeiro, porque segundo relato da PF, Vorcaro estava fabricando títulos que foram distribuídos na praça a outros bancos que negociam a papelada falsa, multiplicando compras de ativos; ou seja, o estouro do banco/tamborete espalha falcatruas em grande volume no mercado; quem estiver com o mico – papéis bichados – nas mãos terá que se desfazer de ativos, o que implicará em perdas de patrimônio; Vorcaro terá seus bens colocados em disponibilidade por ser o controlador, mas, ao lado dele, estarão, também, enrascados todos que, no mercado financeiro, negociaram os papéis por ele emitidos, na cadeia da felicidade que se despenca; o BC decretou regime de administração especial temporário, deixando todo o mercado em suspense; afinal, o modus operandi do Master lança dúvidas sobre todos os congêneres atuantes no mercado, suspeitos de maracutaias mil; a ação da Polícia Federal vai a diferentes direções, até identificando ações conjuntas entre bancos e narcotraficantes, como se comprovou com a Operação Carbono Oculto; os bancos da Faria Lima foram pegos lavando dinheiro do tráfico em circulação nas operações fraudulentas das redes de combustíveis.
PF ENLOUQUE MERCADO FINANCEIRO
Não é à toa que emergiu por parte dos governadores de direita resistência à ação da Polícia Federal, em São Paulo, estourando ações de organizações criminosas pelos traficantes em alianças com bancos na Faria Lima com lavagem de dinheiro; o projeto de lei do deputado Derrite, secretário de segurança de São Paulo, afastado do cargo para relatar projeto de lei do anti-terrorismo, por meio do qual seria transferido poder da Polícia Federal para polícias militares estaduais, tem por objetivo confrontar o poder constitucional da PF; no exercício desse poder, garantido pela Constituição de 1988, a PF está descobrindo conexões do crime organizado, montado nas entidades financeiras, em aliança com o narcotráfico, cujas consequências envolvem gente graúda que se liga aos negócios da banca antes intocável; quem garante que os papeis fabricados pelo Banco Masters, colocados por Vocardo em circulação no mercado não tenha chega às organizações criminosas, agora estourados pela Polícia Federal? O Brasil vive o estouro da financeirização especulativa.