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segunda-feira, 26 fevereiro, 2024

Darcy Ribeiro desceu do céu na Argentina

José Bessa Freire

Darcy Ribeiro baixou em Buenos Aires dias antes da eleição presidencial. Veio com todas suas peles: americanista, antropólogo, educador, romancista, político, senador, reitor, ministro da educação e mulherólogo. Foi na Biblioteca Nacional Mariano Moreno no evento Darcy, vida, obra e atualidade de seu pensamento organizado em parceria com a Universidade de General Sarmiento e a Embaixada do Brasil na Argentina. De onde veio Darcy e como foi visto?

O teólogo Leonardo Boff tem o endereço e o e-mail de Darcy no céu para onde subiu, em 1997, sem passar pelo purgatório. De lá seu espírito desceu invocado por pesquisadores argentinos e brasileiros. Mas descerá outra vez de corpo presente para ver a Argentina de Milei, quando Euclides de Souza, diretor do Teatro de Bonecos Dadá, encenar a peça “Darcy baixa do céu”, na qual comentará os conselhos telepáticos dados ao novo presidente pelo cachorro Conan já falecido.

Os bonecos do Teatro Dadá são de luva, manipulados de baixo para cima, com duas exceções. O personagem Darcy, movido de cima para baixo por um fio, aterrissará no meio do palco, dando assim mais realismo à cena. Já os movimentos de Javier Milei serão controlados por um cordel manejado por outro boneco com a cara e o biquinho de Trump. Quem conheceu Darcy muito bem sabe como organizar sua volta à terra.

O casal Euclides Souza e Adair Chevonika compartilhou o exílio em Lima, nos anos 1970, com Darcy e Berta e com eles atuou na Reforma Educativa Peruana. Criou o Teatro-Escola de Títeres vinculado a SINAMOS – Sistema Nacional de Apoio à Mobilização Social. Adair já nos deu adeus. Euclides, hoje com 88 anos, vive em Curitiba e com eles estamos escrevendo a quatro mãos a peça que inicia com a morte de Darcy.

Darcy canonizado

Dias antes de morrer, Darcy chamou seu amigo Boff com quem dialogou no leito de morte. Pediu ao teólogo que lesse em voz alta o último parágrafo do seu livro “Confissões” no qual diz que, embora cansado de viver, queria “mais vida, mais amor, mais conhecimento, mais travessuras”:

– O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos.

Os dois – o ateu e o teólogo – conversaram sobre a existência de Deus e a vida depois da morte. Boff imaginou a recepção de Darcy no paraíso, acolhido por Deus na forma de uma mãe afetuosa, já que em vida reverenciou tanto as mulheres. Ela lhe diria:

– Tua vida foi um só ato de amor, atendeste aos famintos, às crianças abandonadas, aos negros e aos índios marginalizados e às mulheres oprimidas. Quem fez o que fizeste terá o reino, a eternidade e a Deus.

– Eu não tenho fé, mas como eu gostaria que fosse verdade! – disse Darcy. Neste momento – conta Boff – ele derramou uma lágrima, ficou em silêncio e teve uma baixa de pressão muito intensa.

Na peça do Teatro Dadá, Boff entra no hospital com um pajé guarani e um babalaorixá, que confirmam a recepção no céu por três mulheres: Yepá, a avó do mundo, criadora da vida na mitologia do Alto Rio Negro, Yemanjá, mãe de todos os orixás, mãe do mundo das religiões afro-brasileiras e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Darcy canonizado? Ele se divertiria com esta ideia.

Los litcheros

Comentei a peça de teatro na mesa compartilhada com a historiadora Elizabeth Brea, chefe da Divisão de Pesquisa do Arquivo Nacional, que publicou a correspondência entre Darcy e seu mestre Herbert Baldus. Dois outros brasileiros da Fundação Darcy Ribeiro, José Ronaldo e Lúcia Velloso, falaram no evento, que contou com a participação de 12 pesquisadores argentinos.

Nós, os brasileiros presentes, nos surpreendemos do sucesso que Darcy faz na Argentina, onde é muito conhecido e admirado pela academia. Todos os seus livros foram traduzidos, comentados e resenhados. Graças às falas desses especialistas, me senti liberado para fugir do enfoque acadêmico e contar histórias vividas por Darcy no exílio.

Ele dizia que o Brasil viveu sempre de costas para a América hispânica e que, ironicamente, o golpe militar de 1964 ajudou milhares de exilados brasileiros a descobrirem a América: sua história, literatura, música, arte, produção científica e línguas. Viveu no Uruguai, na Venezuela, no Chile e no Peru. Lia em inglês e francês, mas falava apenas dois idiomas: o português, sua língua materna, e o portunhol.

De pura sacanagem, gostava de contar sua primeira conferência do exilio na Universidad de la República Oriental del Uruguai, quando criticou os   que repetiam Marx ao pé da letra e enfatizou que agora, no séc. XX, além de seus grilhões, os operários tinham sim o que perder. Exemplificou com a greve dos “litcheiros”. No final, alguém no auditório pediu que definisse essa nova categoria.

– ¿Cómo? No es una categoría nueva. Los “litcheros” son los que recogen el “litcho” – disse Darcy em portunhol. Foi quando aprendeu que “lixo” é basura e “lixeiro”, basurero.

Ninguendade

Na peça, Darcy desce do céu com dois livros. O primeiro As Américas e a Civilização, escrito no exílio, foi criticado por classificar Argentina e Estados Unidos como “povos transplantados”, que mantém as matrizes raciais e culturais da metrópole. “Mas era uma crítica imersa em fortes simpatias por esse livro que abriu novos caminhos de interpretação da história e da política latino-americanas” – escreveu a socióloga e ex-deputada Alcira Argumedo.

Vitimado por um câncer no pulmão, Darcy fugiu do hospital, em 1995, para sua casa em Maricá (RJ) a fim de concluir o outro livro O povo brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. Lá, ele se pergunta: de onde veio o nosso povo? No processo histórico em que muitas mulheres indígenas foram violentadas pelo colonizador, seus filhos não foram reconhecidos.

 É filho de índia. Não é português – dizia o pai

– É filho de português. Não é índio – discordavam os Tupinambá.

Sem identidade, era um “Zé Ninguém”, chamado de “brasileiro” porque cortava e carregava o “pau brasil” de interesse comercial para a Coroa Portuguesa. Darcy cria um neologismo para dizer que foi dessa “ninguendade” que nasceu um povo maravilhoso com o nome de “brasileiro”.

O crítico Carlos Alberto Doria considera que Darcy escreveu textos melhor fundamentados e que seu discurso utópico tem muito mais arte do que ciência, mas sedução que raciocínio, mais sabedoria do que exatidão, mas reconhece que ele tem uma virtude: um amor incomensurável e invejável pelo seu país.

Donde estés, Darcy

Depois de retirar um pulmão numa cirurgia delicada, Darcy disse numa entrevista televisiva a Jô Soares, que pelo menos não morreria de pneumonia dupla. Jô perguntou como gostaria de morrer:

– Aos 99 anos, com um tiro disparado no meu peito por um marido recém traído – gracejou com um ar travesso.

O d(n)arcisismo será também teatralizado: “Minha mãe não me pariu, me fundou” – dizia Darcy, que prometeu escrever sua autobiografia “porque isso lhe permitiria fazer o que mais gostava: falar de si mesmo”. Narcisismos solenes são insuportáveis, mas o darcisismo era “combinado com um senso de humor transbordante e uma desfaçatez total, que lhe dava um atrativo especial”, segundo Alcira Argumedo.

Os autores da peça “Darcy baixa do céu”, em elaboração, aceitam sugestões para enriquecer o enredo.  Já foi decidido, porém, o final, com um coral guarani cantando para Darcy esses versos do poema “Consternados, rabiosos” de Mário Benedetti, escrito em outubro de 1967 quando da morte do Che Guevara, cidadão da América Latina.

Donde estés
si es que estás
si estás llegando
será una pena que no exista Dios
pero habrá otros
claro que habrá otros
dignos de recibirte
comandante.

Referências:

1. “O Brasil de Darcy Ribeiro”, documentário em cinco episódios, dirigido por Ana Maria Magalhães. O quarto foca o exílio. https://www.youtube.com/playlist…

2. Documentário Para Berta, com amor” dirigido por Bianca França, doutora em História Política e Bens Culturais estará on line a partir de 14 de dezembro.

3. Alcira Argumedo. El Ojo Mocho. Darcy. Revista de Crítica Cultural. Nº 9-10 – S 8. Buenos Aires. Otoño de 1997.

4. Guillermo DavidAcerca de El proceso civilizatorio. Conferencia de Cierre. Universidad Nacional de General Sarmiento. 2023

5. Várias crônicas:

a) Niemeyer no sonho erótico de Darcy – (09/12/2012) https://www.taquiprati.com.br/cronica/1010-niemeyer-no-sonho-erotico-de-darcy

b) Dez anos sem Darcy (o4/02;2007) –  https://www.taquiprati.com.br/cronica/152-dez-anos-sem-darcy

c) Lições de carnaval: a última aula de Darcy (06/02/2005) – https://www.taquiprati.com.br/cronica/256-licoes-de-carnavalultima-aula-de-darcy-ribeiro

d) Darcy, Berta e a Amazônia (25/02/1997)  https://www.taquiprati.com.br/cronica/357-darcy-berta-e-a-amazonia

e) O almirante Kadiwéu e o bairro amarelo de Berlim (05/04/2009) – https://www.taquiprati.com.br/cronica/25-o-almirante-kadiweu-e-o-bairro-amarelo-de-berlim

f) Soy latino-americano: o Festcine Amazônia – (13/12/2009)   https://www.taquiprati.com.br/cronica/836-soy-latinoamericano-o-festcine-amazonia

Darcy Ribeiro bajó del cielo en Argentina

José R. Bessa Freire. Traducción: M.A. Consuelo Alfaro

Darcy Ribeiro descendió en Buenos Aires días antes de las elecciones presidenciales. Llegó con todas sus pieles: americanista, antropólogo, educador, novelista, político, senador, rector, ministro de educación y mujereólogo. Fue en la Biblioteca Nacional Mariano Moreno en el evento “Darcy, vida, obra y actualidad de su pensamiento” organizado en colaboración con la Universidad de General Sarmiento y la Embajada de Brasil en Argentina. ¿De dónde vino Darcy y cómo lo vieron?

El teólogo Leonardo Boff tiene la dirección del correo electrónico de Darcy en el cielo a donde subió en 1997, sin pasar por el purgatorio. Desde allí, su espíritu descendió invocado por investigadores argentinos y brasileños. Pero descenderá una vez más con su cuerpo presente para ver la Argentina de Milei, cuando Euclides de Souza, director del Teatro de Títeres Dadá, ponga en escena la obra “Darcy baja del cielo”, en la cual comentará los consejos telepáticos dados al nuevo presidente por el ya fallecido perro Conan.

Los títeres del Teatro Dadá son de guante, manipulados de abajo hacia arriba, con dos excepciones. El personaje Darcy, movido de arriba hacia abajo por un hilo, aterrizará en el centro del escenario, dando así más realismo a la escena. En cuanto a los movimientos de Javier Milei, serán controlados por un hilo manejado por otro títere con la cara y la boquita de Trump. Quienes conocieron muy bien a Darcy saben cómo organizar su regreso a la tierra.

La pareja Euclides Souza y Adair Chevonika compartieron el exilio en Lima en los años 1970 con Darcy y Berta, y actuaron con ellos en la Reforma Educativa Peruana. Crearon el Teatro-Escuela de Títeres vinculado a SINAMOS – Sistema Nacional de Apoyo a la Movilización Social. Adair ya nos dejó. Euclides, hoy con 88 años, vive en Curitiba, y juntos estamos escribiendo a cuatro manos la obra que comienza con la muerte de Darcy.

Darcy canonizado

Días antes de morir, Darcy llamó a su amigo Boff con quien conversó en su lecho de muerte. Le pidió que leyera en voz alta el último párrafo de su libro “Confesiones”, en el que decía que, aunque estaba cansado de vivir, quería “más vida, más amor, más conocimiento, más travesuras”:

– El único clamor de la vida es por más vida bien vivida. Después, seremos materia cósmica, sin memoria de virtudes y gozos. Borrados, minerales. Para siempre muertos.

Los dos, el ateo y el teólogo, hablaron sobre la existencia de Dios y la vida después de la muerte. Boff imaginó la recepción de Darcy en el paraíso, acogido por Dios en forma de una madre afectuosa, ya que en vida reverenció tanto a las mujeres. Ella le diría:

– Tu vida fue un solo acto de amor, atendiste a los hambrientos, a los niños abandonados, a los indígenas marginados, a los negros y a las mujeres oprimidas. Quien hizo lo que hiciste tendrá el reino, la eternidad y a Dios.

– No tengo fe, pero ¡cómo me gustaría que fuera verdad! – dijo Darcy. En ese momento, cuenta Boff, derramó una lágrima, se quedó en silencio y tuvo una baja de presión muy intensa.

En la pieza del Teatro Dadá, Boff entra al hospital con un payé guaraní y un babalaorixá, que confirman la recepción en el cielo por tres mujeres: Yepá, la abuela del mundo, creadora de la vida en la mitología del Alto Río Negro, Yemanjá, madre de todos los orixás, madre del mundo de las religiones afrobrasileñas y Nuestra Señora Aparecida, patrona de Brasil. ¿Darcy canonizado? Como se divertiría con esta idea.

Los litcheros

Comenté la intención de escribir esa pieza de títeres en la mesa compartida con la historiadora Elizabeth Brea, jefa de la División de Investigación del Archivo Nacional, que publicó la correspondencia entre Darcy y su maestro Herbert Baldus. Otros dos brasileños de la Fundación Darcy Ribeiro, José Ronaldo y Lúcia Velloso, hablaron en el evento, que contó con la participación de 12 investigadores argentinos.

Nosotros, los brasileños presentes, nos sorprendimos por el éxito que Darcy tiene en Argentina, donde es muy conocido y admirado por la academia. Todos sus libros fueron traducidos, comentados y reseñados. Gracias a las palabras de estos expertos, me sentí liberado para alejarme del enfoque académico y contar historias vividas por Darcy en el exilio.

Él decía que Brasil siempre vivió de espaldas a América hispana y que, irónicamente, el golpe militar de 1964 ayudó a miles de exiliados brasileños a descubrir América: su historia, literatura, música, arte, producción científica e idiomas. Vivió en Uruguay, Venezuela, Chile y Perú. Leía en inglés y francés, pero hablaba solo dos idiomas: el portugués, su lengua materna, y el portuñol.

Por pura picardía, le gustaba contar su primera conferencia en el exilio en la Universidad de la República Oriental del Uruguay, cuando criticó a aquellos que repetían Marx al pie de la letra y enfatizó que ahora, en el siglo XX, además de sus cadenas, los trabajadores sí tenían algo que perder. Ejemplificó con la huelga de los “litcheros”. Al final, alguien en el auditorio pidió que definiera esa nueva categoría.

-¿Cómo? No es una categoría nueva. Los “litcheros” son los que recogen el “litcho” – dijo Darcy en portuñol. Fue cuando aprendió que “lixo” es basura y “lixeiro”, basurero.

“Ninguendad”

En la obra, Darcy desciende del cielo con dos libros. El primero, “Las Américas y la Civilización”, escrito en el exilio, fue criticado por clasificar a Argentina y Estados Unidos como “pueblos trasplantados”, que mantienen las matrices raciales y culturales de la metrópoli. “Pero era una crítica inmersa en fuertes simpatías por ese libro que abrió nuevos caminos de interpretación de la historia y la política latinoamericanas”, escribió la socióloga y ex diputada Alcira Argumedo.

Víctima de un cáncer, se escapó del hospital, en 1995, para concluir en su casa en Maricá (RJ) “El pueblo brasileño – La formación y el sentido de Brasil. ¿De dónde viene nuestro pueblo? Esa es la pregunta. En el proceso histórico en el que muchas mujeres indígenas fueron violentadas por el colonizador, sus hijos no fueron reconocidos.

– Es hijo de india. No es portugués – decía el padre.

– Es hijo de portugués. No es indio -decían los Tupinambá.

Sin identidad, era un “Zé Ninguém“, un “Juan Nadie” llamado “brasileño” porque cortaba y transportaba el “pau brasil” de interés comercial para la Corona Portuguesa. Darcy crea un neologismo para decir que de esta “ninguenidad” nació un pueblo maravilloso con el nombre de “brasileño”.

El crítico Carlos Alberto Doria considera que Darcy escribió textos mejor fundamentados y que su discurso utópico tiene mucho más arte que ciencia, más seducción que razonamiento, más sabiduría que exactitud, pero reconoce que tiene una virtud: un amor inmenso y envidiable por su país.

Donde estés, Darcy

Después de retirar un pulmón en una cirugía delicada, Darcy dijo en una entrevista televisiva a Jô Soares que al menos no moriría de neumonía doble. Jô le preguntó cómo le gustaría morir:

– A los 99 años, con un tiro disparado en el pecho por un marido recién traicionado – bromeó Darcy con una risa traviesa.

El d(n)arcisismo será también teatralizado: “Mi mamá no me parió, me fundó” – decía Darcy, que iba a escribir su autobiografía “porque eso le permitiría hacer lo que más le gustaba, que era hablar de si mismo”. Narcisismos solemnes son insorportables. Pero el darcisismo era combinado “con un desbordante sentido del humor y una total desfachatez, que le daba un atractivo especial” – según Alcira Argumedo.

Los autores de la obra “Darcy baja del cielo”, que está en elaboración, aceptan sugerencias para enriquecer la trama. Sin embargo, ya se ha decidido el final, con un coro guaraní cantándole a Darcy estos versos del poema “Consternados, rabiosos” de Mario Benedetti, escrito en octubre de 1967 con motivo de la muerte del Che Guevara, ciudadano de América Latina:

Donde estés,

si es que estás,

si estás llegando,

 será una pena que no exista Dios,

pero habrá otros,

claro que habrá otros,

dignos de recibirte, comandante.

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