Aniversários redondos. Lembro de ter comemorados os 50, os 60, os 70 não, e agora, celebrar os 80. Houve um 75 pelo meio, Carla e Tayra deram um jeito, e me saudaram com um lindo documentário, feito na clandestinidade, só apresentado no dia 5 de fevereiro de 2021, em plena pandemia.
O de 2024, lindo, 78 anos, foi organizado por Carla, eterna lembrança. Talvez ela quisesse fazer a última comemoração comigo. Foi o ano da partida definitiva dela, naquele triste primeiro de agosto.
Guardo aqui o álbum de fotos, lindo, com a doce, carinhosa, terna, amorosa presença dela, eterna presença. E chego a este 2026, cercado de carinho familiar e da multidão, um milhão de amigos.
Momento especial porque, de um lado, 80 anos é muito e, ao mesmo tempo, nada, um grão de areia na imensidão da história. Esse muito, para nós uma longa caminhada, merece ser celebrado. Ao menos para que nos reconheçamos ao olhar para cada amiga, cada amigo, como espelho, a verdadeira amizade.
Para podermos fazer algum balanço, avaliar nossos passos, se conseguimos lutar o suficiente para tornar o mundo melhor.
Se fomos capazes de nos indignar sempre diante de injustiças.
Se demos combate à desigualdade a afrontar grande parte da humanidade. Desigualdade absolutamente inaceitável, gerada sob esse modo de produção capaz de gerar montanhas de dinheiro e de reter as montanhas nas mãos de tão pouca gente.
Não tenhamos nos indignado diante de tudo isso, e a vida não terá valido a pena.
Tenhamos nos conformado diante da injustiça, e teremos sido desprezíveis.
Tenhamos aceitado o capitalismo e o consumismo nele embutido, tenhamos nos adaptado ao mundo da mercadoria, como se tudo fosse coisa, e nossa vida terá sido de miséria.
Não a miséria da fome, mas a da alma.
Lembro do notável Mia Couto, e ao lembrar compartilho:
“A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado,
mas de um cotidiano feito de rotina e vazio.
O que mais cansa não é trabalhar muito.
O que mais cansa é viver pouco.
O que realmente cansa é viver sem sonhos.”
Se os sonhos não nos animaram ao longa da vida, tivemos uma existência insossa, sem brilho, sem ânimo, não compartilhada com nossos irmãos, com a humanidade, pela qual devíamos, devemos, nos sentir responsáveis.
Não, não sei mesmo se lutei o suficiente para mudar esse mundo. Lutei, mas não sei se o bastante.
Sei: estive ao lado das minhas companheiras, dos meus companheiros, nunca lutei sozinho.
A luta solitária é inútil. Tentei sempre não soltar as mãos dos meus irmãos de luta.
Olho para trás, para minha família, inegavelmente uma base ancestral a me dar régua e compasso.
Picida, minha querida irmã, me escreve uma linda carta – como é bom receber cartas, essa coisa antiga, não?.
Picida a refletir, a se perguntar porque nosso pai esperou ela fazer sete anos para irmos juntos para o primeiro ano primário, em 1954, eu então tendo completado oito anos.
Primeira reação dela: aquilo era um absurdo. Hoje, tanto tempo passado, vê de outra maneira: o velho Emiliano quis fortalecer o vínculo entre os dois irmãos. Se foi essa ideia, o pai acertou.
Os dois seguimos até o terceiro ano primário juntos. No primeiro ano, na cidade de Monte Alto, em São Paulo, em classes distintas porque vigorava a distinção entre turma feminina e masculina. No segundo e terceiro, os dois na mesma turma, no grupo escolar Manoel Esteves, em Teófilo Otoni, 1955 e 1956.
Picida, cuja memória é extraordinária, recorda a professora do segundo ano, Áurea, muito rígida. E lembra da doçura de Maria Alice Pimenta, afetuosa, cuidadosa, na terceira série.
As rememorações dela nos levam ao Sítio Caxambu, em 1958, ela com 11, eu com 12 anos, depois ao Sítio Ivoturuna, 1959, eu já retornando aos estudos, quarto ano primário aos 13 anos.
“Depois de lá, fomos para Guarulhos. Você, engraxate na barbearia. Após isso, o emprego formal no banco… até se envolver na luta política”.
Esse vínculo entre nós inegavelmente só fez aumentar.
Eterno.
A sobrinha, Tayra, filha de Picida, me entrega outra cartinha. Vieram de São Paulo para o meu aniversário. Bom, essa família conserva antigas manias. Diz coisas bonitas, a aquecer o coração.
Lembra dos tempos da ditadura, aqueles anos 1960, 1970, quando nós, o pai dela, Denilson, Theodomiro, Zanetti, Paulo Pontes, Nemésio Garcia, tantos, encaramos o monstro, enfrentamos a ditadura em busca de um mundo mais junto e mais democrático.
“Vocês serviram e seguem servindo de exemplo para que a gente não esmoreça, não desanime e nem desacredite de que um mundo melhor é possível.”
É animador, no outono, aos 80 anos de idade, ouvir testemunhos assim da juventude.
O bastão, diria Mujica, deve ser passado aos jovens.
Os sonhos de uma humanidade fraterna e solidária, livre dessa brutal desigualdade, estão principalmente nas mãos deles.
Estou rodeado pela família. Picida e Edvard, irmãos, além da Tayra, Denise, querida amiga, mulher de meu irmão. Edvard e Denise, vieram com a filha Raíssa, também sobrinha, e a companheira dela, Jana, com a filha, e com Lan, outro filho. Insisto: a presença da família aquece o coração, marcado, sofrido pela ausência da partida precoce de Carla.
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