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quarta-feira, 18 fevereiro 2026

Cumple años de Emiliano José – Comunista chega aos 80 (VI)

Emiliano José

Esses dias sou sacudido por uma fala de Marilena Chauí, a quem não me canso de admirar.

Como filósofa, intelectual pública, como militante política, sempre. 

Ela falava da amizade.

Talvez o momento verdadeiramente divino do ser humano.

Quando mais os seres humanos se aproximam dos deuses, das qualidades divinas. 

É na amizade ela diz que cada pessoa é completada e completa o outro, é o momento do divino, da superação da finitude. 

Para tratar da amizade, vai buscar inspiração em Aristóteles.

Só ler “Contra a servidão voluntária”, livro de Chauí, de muita utilidade nos dias atuais, por todas as razões. 

Aristóteles dirá da existência de três coisas a concorrer para a formação de uma amizade verdadeira. 

Primeira delas, a virtude, que faz sua honestidade.

Segunda coisa, o costume de se ver, que faz sua doçura. 

Terceira, a utilidade recíproca, que faz seu vínculo necessário. 

Tão forte a contribuição, a fonte de Marilena Chauí, imortal Aristóteles, tão apropriada que vale a pena citá-lo, a partir do livro dela, se quiserem página 42:

“Não podemos nos contemplar a nós mesmos a partir de nós mesmos […] Assim como quando queremos contemplar nosso rosto, o fazemos olhando num espelho assim também quando nos queremos conhecer a nós mesmos, nós nos conhecemos olhando em um amigo. Pois o amigo, dizemos, é um outro nós mesmos”. 

Ou ainda:

“Aquele que considera um amigo verdadeiro, nele vê como sua própria imagem”.

Os irmãos, e aqui creio não se fala de irmãos de sangue, podem habitar e viajar juntos, administrar os negócios públicos e cultivar a terra em comum, quando entretêm o sentimento da amizade e de benevolência que a natureza neles colocou – isso Marilena Chauí recolhe de Plutarco. Se os seres humanos destruírem o sentimento da amizade, forçariam a natureza. 

“A mãe natureza gera irmãos, e não monstros, gera seres separados que têm sentimentos em comum, e não quimeras”.

Junto Chauí a Caetano:

“Gosto do Pessoa na pessoa da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade.

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E quem há de negar que esta lhe é superior?”

Politizando, Marilena Chauí dirá: 

“A adulação ao tirano é contrafação da amizade” – quanto ensinamento para os dias atuais, quando a estupidez leva à adulação de lideranças sem quaisquer qualidades, e não é necessário citar nomes aqui para falar dessa maré montante da extrema-direita. 

Juntei amizades ao longo da vida.

Breve e longa vida, e amigos, multidão de amigos, multidão de amigas. 

Celebrar a existência é celebrar amizades. 

Elas vão se consolidando ao longo da caminhada. 

Estreitando-se nos tropeços, inevitáveis tropeços das andanças por essa terra. 

Quando sentimos a mão a nos levantar, a voz a dizer siga em frente, eu estou aqui.

Quando sentimos o abraço forte e fraterno.

Quando nas dificuldades, nos sentimos acompanhados.

Quando nos oferece o ombro no momento das lágrimas.

E quando podemos estender nossos braços ao outro, à outra.

Quando somos capazes de irmandade.

De solidariedade.

Sinceramente fraternos.

Assim, a amizade. 

O momento da eternidade no ser humano.

É com esse sentimento, com a certeza de que a vida vale a pena, entre tantas outras coisas, tantos sonhos, pelas amizades.

Pelos irmãos dados pela existência, a quem cabe zelar, sempre.

Certeza de que não construímos nada sozinhos. 

E não cabe apenas pensar na sociedade em abstrato quando afirmamos não sermos seres isolados 

Nela, sociedade, obviamente. 

Mas, pensar nas amizades. 

Valorizá-las. 

Não deixá-las de lado. 

São o verdadeiro sal da vida.

Chego aos 80 anos de idade, nesse 5 de fevereiro com essa consciência.

Celebrando amizades. 

Não todas, porque impossível juntá-las, e ainda bem. 

Mas ao reunir algumas amigas, alguns amigos, sem as quais, sem os quais não teria acumulado razoável experiência, conquistado algumas coisas, chegado a algum conhecimento, ao reuni-los, abraço a tantas outras, tantos outros espalhados pela Bahia, pelo Brasil e até no exterior.

Um privilégio ter acumulado tantas amizades.

Provável não tenha correspondido a tanta generosidade.

Nesse balanço a que sou levado ao chegar aos 80 anos, tenho certeza de que poderia ter feito mais, zelado mais por todas elas. 

Não penso, no entanto, seja tardio o meu abraço caloroso a cada uma dessas amigas, desses amigos.

Não seja tardio expressar o reconhecimento da importância da presença de todas, de todos em minha vida. 

Presença a persistir ao longo da continuidade de minha caminhada. 

Necessito dessa presença. 

#emiliano20268052

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