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terça-feira, 16 abril, 2024

Cuba, Martí, Cuba

Todo dia 24 de fevereiro, Juan Gualberto Gómez, filho e neto de escravos, levantava uma bandeira cubana em Villa Manuela, sua residência no bairro Mantilla, em Havana, após o fim do colonialismo espanhol. A estrela solitária em uma data tão significativa parecia sua maneira de dizer que a soberania de Cuba era um desejo que não havia sido esquecido.

A devoção de Juan Gualberto Gómez a Cuba fez com que José Martí visse nele o homem capaz de preparar a Guerra Necessária na Ilha, que seria reiniciada nos campos insurgentes em 24 de fevereiro de 1895, após a chamada «trégua fértil».

Eles se conheceram em Havana em 1878 e a simpatia mútua foi instantânea. Seria Juan Gualberto, natural de Matanzas, jornalista e patriota fervoroso, o delegado do Apóstolo, para passar a ordem do início dos levantes em todo o arquipélago, o que traria veteranos e novos combatentes de volta aos campos de Cuba.

Essa ordem especificava que a insurreição seria realizada o mais simultaneamente possível, na segunda quinzena de fevereiro e não antes. Com as insurreições simultâneas de 24 de fevereiro de 1895, o tempo da colônia na Ilha maior das Antilhas estava se esgotando.

A historiadora Hortensia Pichardo reconheceu que os eventos daquele dia foram o resultado da sábia orientação tática de Martí: «O que aconteceu foi — embora não na escala planejada e necessária do projeto martiano — uma revolta simultânea, com a qual o delegado do Partido Revolucionário Cubano aspirava a acender a chama bélica em toda a Ilha, para permitir que a Guerra Necessária tivesse — como costumava dizer — a brevidade e a eficácia do raio».

E assim aconteceu. Mas a morte prematura de Martí e a oportuna intervenção norte-americana, em 1898, impediram que o sonho de total independência fosse possível.

Juan Gualberto enfrentou abertamente o anexacionismo e os governos da época que ocorreram durante os primeiros anos de ocupação militar. Condenou como poucos a Emenda Platt, o apêndice acrescentado à Constituição de Cuba, aprovado em 1902, que respondia aos interesses dos Estados Unidos e o autorizava, entre outras coisas, para intervir na Ilha sempre que julgasse conveniente.

«Quem, exceto Juan Gualberto, defendeu com mais coragem, com inspiração martiana mais árdua, os direitos de Cuba contra o tapa que a Emenda Platt significava?«, perguntou o poeta Nicolás Guillén.

A neta disse que em uma ocasião, quando levantou a bandeira cubana no jardim de Villa Manuela, ele disse à jovem que tinha apenas 13 anos de idade: «Você precisa defendê-la com a sua vida».

Lá, em Villa Manuela, Juan Gualberto morreu em 5 de março de 1933, poucos dias após sua última celebração, em 24 de fevereiro. Seus parentes dizem que as últimas palavras que ele proferiu foram dedicadas ao horizonte que marcou toda a sua existência: «Cuba, Martí, Cuba».

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