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sábado, 31 outubro 2026

Crise do capital e ascensão do nazifascimo

Emiliano José

Ainda o segundo turno das eleições desse ano da graça de 2026. Agora, disposto a resvalar a discussão em torno da relação entre as gigantescas e decisivas manifestações do povo brasileiro e Lula, principal liderança política da história do Brasil, nome hoje inegavelmente de alcance mundial. Se me disserem da complexidade de tal relação, de como isso reclama tempo e muito esforço, eu vou concordar. Não obstante, ouso duas ou três palavras sobre o assunto.

Marx, e preciso dele aqui, defendeu: os homens fazem a história. Alertou, no entanto: a atuação deles está condicionada às circunstâncias nas quais vivem. A atuação desse ou daquele líder não depende tão somente do desejo, da vontade, da disposição, embora tudo isso evidentemente conte.

Há o mundo material, o mundo político, as condições sociais, a sociedade em torno, a correlação de forças a condicionar a atuação humana. E os homens, na atuação deles, jamais atuam solitariamente. A rigor, a história é feita pelo povo de cada nação, certamente .ajudado por lideranças capazes de interpretar os sentimentos dele.

Os que se acreditaram capazes de agir sozinhos, ou tentaram aleatoriamente vestir a capa de heróis sem considerar o entorno, sempre deram com os burros n’água. A pretensão de fazer história sem a compreensão profunda das classes em luta, sem comungar com os desejos, o pensamento da classe trabalhadora, e aqui estou obviamente falando de lideranças à esquerda, caminharam para a derrota.

Da advertência de ser necessário, muitas vezes, dar a luta em condições adversas, ser derrotado, e seguir adiante, e construir a vitória na sequência. Até isso, no entanto, reclama um olhar capaz de combinar tática e estratégia, atento à correlação de forças, e como tal correlação se coloca no decorrer do tempo. Não cabe é se jogar na luta por puro voluntarismo, sem conhecer as próprias forças e o inimigo. Nós, e falo do Brasil e da esquerda, já incorremos não poucas vezes nesse erro.

Chegamos às eleições de 2026, a mais importante de nossas vidas no pós-ditadura. Aconteceram em meio a um evidente quadro de crise mundial do modo de produção capitalista, hoje sob o neoliberalismo.

O sinal vermelho da crise do neoliberalismo acendeu fortemente na crise de 2008, quando se revelaram as fragilidades da desregulamentação excessiva do setor bancário, a superficialidade da financeirização da economia, a cobrar, naquela crise, a ajuda do estado, pronto a socorrer bancos privados. Na bonança, o estado é maldito. Na crise, salvação da pátria, desculpem, da pátria propriamente não, do mercado.

Tal crise escancarou, nem se pode dizer revelou, o obsceno aumento da desigualdade provocado pelo modelo neoliberal, a ocasionar uma concentração inédita de renda, onde uma fatia minúscula de trilhardários passa a acumular a maior parte da riqueza global.

A acumulação capitalista segue tornando os ricos mais ricos, os pobres, mais pobres, agora, com o neoliberalismo, de forma ainda mais acentuada. Os 1% mais ricos do mundo detêm aproximadamente 45% a 48% da riqueza global. Os 12 bilionários mais ricos do planeta possuem riqueza acumulada superior ao montante nas mãos de 4 bilhões de pessoas, metade mais pobre da humanidade.

Curiosamente, essa crise do capital, de um lado, coloca o Estado no centro do debate, face às dificuldades de o mercado resolver as demandas das maiorias, como saúde e educação, por exemplo. E de outro, leva o mundo do capital a preferir dobrar a aposta, e aderir às saídas neofascistas, investindo na extrema-direita, abandonando a perspectiva liberal-democrática, adotando a receita do estado mínimo.

O capitalismo abandona nitidamente a saída democrática, e leva água ao moinho da extrema-direita, acossado pela emergência dos BRICs, com destaque para a ascensão da China. Esse movimento de crescimento da extrema-direita pode ser sintetizado na presença do personagem Donald Trump.

O atual presidente dos EUA chegou disposto a radicalizar a natureza imperialista e, simultaneamente, colocar o império como uma espécie de xerife do mundo, a promover massacres continuados e atitudes inteiramente em desacordo com as normas do direito internacional.

Como o massacre de Gaza, intolerável. Como o sequestro de presidentes, como na Venezuela. A pretensão de assegurar o continente latino-americano como quintal, para uso e desfrute imperial.

Além de atacar o Irã, numa malsucedida e perigosa empreitada e elevar ao paroxismo o bloqueio a Cuba, procurando sufocar de todas as maneiras a Revolução Cubana e o povo da Ilha.

Esse retorno aos anos 1920 e 1930, período de ascensão do nazifascismo, o avanço de uma espécie de neofascismo, todo ele recoberto pelas mesmas palavras de ordem, pela mesma violência, arbítrio, ódio, pelo agigantamento da xenofobia, da homofobia, da misoginia, do racismo, tem se dado em boa parte do Ocidente. Como se fosse uma saída para a crise – melhor, tem sido a saída preconizada pelo capital.

Tal saída se dá numa Europa acovardada, entregue ao império norte-americano, cumprindo ordem de fazer uma guerra por procuração contra a Rússia, quase inteiramente tomada pela ideologia da extrema-direita, pagando um preço nada desprezível, e apesar disso, pela orientação das principais lideranças, insistindo no neofascismo.

Como também na América Latina, quase toda governada por lideranças de matriz neofacista-autoritária, jogadas nos braços do império norte-americano, nações pretensamente protegidas pelo chamado “Escudo das Américas”.

Lula venceu as eleições nessa conjuntura, contra tudo e contra todos, só contando, e que ninguém ouse mais duvidar do povo brasileiro, com a força da juventude, das trabalhadoras, dos trabalhadores, dos milhões de idosos, todo mundo disposto a resistir, a não entregar o País nas mãos de uma potência estrangeira, disposto a assegurar a soberania e a democracia. Seguimos com essa reflexão no próximo capítulo.

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