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Postado em 23/03/2020 6:26

Covid-19 é para pobres e ricos

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Por James Correia*
Na sociedade existem várias classes sociais, posto que há hierarquia entre ricos e pobres. Existem aqueles privilegiados por uma educação de qualidade e cara e outros que executam tarefas primárias nas ruas, comércios e fábricas. Existe a corporação de funcionários públicos e outras de policiais e militares mal pagos. Temos os que pegam o elevador social ou aqueles que vão pelo de serviço.
Mas agora existe um dilema nunca dantes colocado: como as classes sociais de maior hierarquia podem criar barreiras para o Codiv-19?
O fato é que elas podem acessar o caviar ou o Vega-Sicília, ter acesso ao melhor plano de saúde disponível, mas tudo isso é inócuo.
A solução agora é a mesma para todos: isolamento social.
Não haverá mais desfile de carrões nem de bolsas chiques.
Não é só porque o Covid-19 surgiu na China que podemos tachá-lo de socialista. O título dessa crônica retrata muito mais a forma como ele se propaga sem distinguir o sapato de mil dólares ou a sandália havaiana do cidadão que mora no subúrbio.
A porta de entrada do vírus pode ser qualquer coisa ou qualquer pessoa. Tanto aquela que entra pela porta social ou a que ingressa pela porta de serviço. Ou de quem mora em residências humildes, favelas ou nas ruas: o Covid-19 não se pauta pelas aparências, como nas relações entre classes sociais.
O que difere o Brasil dos demais países usados como parâmetro de comparação para estatísticas do coronavírus é justamente o desnível social entre as classes sociais de cada país. Na China, Itália, Espanha, EUA, Alemanha e demais países europeus não se reproduzem as mazelas que marcam o cotidiano do Brasil, dos países sul-americanos ou da África.
O ciclo do Covid-19 prevê uma contaminação comunitária exponencial (1-4-16-72…) até alcançar taxas superiores a 50% ou mais indivíduos contaminados naquele espaço até alcançar um pico de uma possível imunização.
O isolamento social busca simplesmente reduzir a velocidade dessa contaminação e possibilitar que as autoridades administrem os limitados recursos de testes, profissionais de saúde e internações disponíveis. Uma atitude pautada em princípios socialistas naturais e não políticos.
Acontece que no Brasil de hoje, com menos 6.000 médicos que foram dispensados do Programa Mais Médicos, a tendência é que tenhamos um fluxo – muito maior do que poderíamos ter – nos hospitais públicos de infectados provenientes dos bairros mais pobres.
E cabe aqui destacar que a capacidade de atendimento da rede pública de saúde (SUS) destinada aos pobres é muito maior do que a disponível nos hospitais privados. No Brasil a população pobre estará mais bem servida de atendimento ao Covid-19 do que os ricos com seus inúteis planos de saúde nesse momento. Para os ricos e a classe média restarão serem atendidos também pelo maltratado SUS, por uma questão de sobrevivência.
Na corrida exponencial do Covid-19 ele deve atingir primeiro as comunidades mais aglomeradas – sem água e condições adequadas de saneamento – que sofrerão mais nesse início e que brevemente ocuparão os leitos do SUS.  E, certamente infectados pela rápida contaminação comunitária,  alcançarão imunidade antes da classe média e alta, que estarão disputando atendimento nos hospitais do SUS.
Não se trata de provocar pânico ou histeria, mas quase todos já perceberam que não se trata de uma “gripinha”.
Trata-se da mais clara e sombria nova realidade que temos que enfrentar. O ministro da saúde e os governadores da Bahia (PT) e de São Paulo (PSDB) têm sido os condutores reais do processo de combate à eessa grave mazela. O presidente Bolsonaro se mostrou inepto e o demente de sempre. Agora, pirou de vez.
Esse ano não teremos ambiente para discutir mais nada além do Covid-19: nem futebol nem política, que são as grandes paixões nacionais. Não existe clima para eleições esse ano e elas devem ser adiadas. Precisamos sim dos recursos do Fundo Partidário e dos que foram recuperados pela Lava Jato para enfrentar esse ardiloso vírus e salvar o máximo de vidas possíveis.
O momento é mais do que oportuno para discutirmos a arrecadação sobre a riqueza e a herança no Brasil. Espera-se mais bom senso do que apenas o voto remoto e virtual do Legislativo brasileiro, em todas as suas entrâncias.

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*James Correia, professor e engenheiro elétrico, é ex-secretário da Indústria da Bahia

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