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sexta-feira, 23 fevereiro, 2024

Copa do Mundo de 1950 – Brasil: O Maracanazzo Uruguai

HISTORIANDO AS COPAS – IV
Zédejesusbarreto

     Em final não existe favorito

     Camisa e nome não ganham jogo

    Futebol se ganha em campo, nunca de véspera

    No mais, o jogo só acaba quando termina

                          (chavões, dicas de boleiros, sempre válidos)
   Quando Ghiggia, Obdúlio Varela e Schiaffino, com a beca da Celeste Olímpica, calaram o Maracanã – na tarde daquele domingo, 16 de julho de 1950 – e provocaram a primeira trágica comoção nacional futebolística eu não tinha ainda compreensão da vida, nem sabia o que era futebol. Só muito depois fui entender e assimilar os sentimentos e ensinamentos daquele Uruguai 2 x 1 Brasil, de virada, na final da Copa de 50, a primeira realizada no Brasil.
Tivemos de engolir nossa arrogância, em lágrimas, num pranto só, do Oiapoque ao Chuí. O gol de Ghiggia, que definiu o jogo, saiu aos 34 minutos do segundo tempo, o único chute do ponteiro direito ao gol de Barbosa em toda a partida.

   Assim é o futebol, um brinquedo de encantados e encantamentos.

  – Construído especialmente para a Copa/50, o Estádio Mário Filho, o Maracanã, ‘o maior do mundo’, abrigou naquela final 220 mil pessoas. Recém inaugurado às pressas, uma semana antes da abertura da competição, ainda cheirava a cimento e exibia restos de andaimes, tijolos, entulhos de obras do lado de fora. Em torno do estádio, dizem, mais umas 30 mil almas arregaladas, em flamas
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 Contextualizando …
–  Em 1950, o Brasil tinha quase 52 milhões de habitantes. Já começara o crescimento urbano, o primeiro ciclo industrial, tínhamos petróleo, mas 64% de nossa população ainda vivia no campo, nos interiores, na roça. Saber ler e escrever era um privilégio, metade da população de analfabetos.  A inflação anual ultrapassava os 13%, o salário mínimo era de 380 cruzeiros e o dólar cotado a 18 cruzeiros e 50 centavos. Curtíamos a Era do Rádio, Emilinha Borba no auge, a TV de Chateaubriand só estava chegando… no Sul.

Eurico Gaspar Dutra na Abertura da Copa do Mundo de 1950

– O general Eurico Gaspar Dutra era o presidente do país, mas, duas semanas antes de começar a Copa, o ex-ditador Getúlio Vargas – que tinha sido deposto em 1945, finda a Segunda Grande Guerra – saiu candidato, filiado ao PTB/Partido Trabalhista Brasileiro, com forte apoio popular, às eleições presidenciais marcadas para outubro/50. Eleições, diga-se, das quais saiu vencedor com 3,8 milhões de votos, que representavam o desejo de 49% de um eleitorado empolgado com a campanha do ‘queremismo’, o ‘queremos Getúlio de volta’. O líder populista gaúcho tinha 68 anos e muito carisma.
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– Em maio de 1949, num trágico acidente aéreo, morriam todos os atletas do Torino, time pentacampeão italiano, base da seleção do país, então bicampeão mundial. Mesmo ainda traumatizados com o fato, os italianos fizeram-se presentes, um ano depois (junho 1950). Chegaram de navio, 14 dias de viagem de Nápoles a Santos/SP.
– De navio também, numa viagem de 31 dias de Londres ao Rio de Janeiro com escalas em Paris, Lisboa, Dakar e Recife, chegou e equipe da Inglaterra. Era a primeira vez que os chamados ‘criadores’ do futebol profissional, os ingleses, nariz empinado, participavam de uma Copa do Mundo e atuavam na América.
– Treze seleções participaram do Mundial/50 no Brasil: Uruguai, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia, México, Estados Unidos, Suécia, Espanha, Suíça, Italia, Inglaterra, Iuguslávia.
Os argentinos, em atritos com a CBD-Confederação Brasileira de Desportos, não se dignaram a atravessar a fronteira. A França também fez bico, não aceitou jogar em Recife e Porto Alegre.
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– O Brasil foi confirmado como sede da Copa num congresso da FIFA realizado dois anos antes, em Londres. Foram construídos, para a competição, o Mario Filho/Maracanã, no Rio, e o Independência, em Belo Horizonte. Abrigaram jogos, ainda, o Pacaembu (São Paulo), o Durival de Brito (no Paraná), a Ilha do Retiro (Recife) e o Eucalipto, em Porto Alegre.
– A Fonte Nova, em Salvador/Ba, mesmo com a garantia do então governador Octávio Mangabeira, não ficou pronta a tempo; só foi inaugurada (com o nome oficial de Estádio Octávio Mangabeira, ora pois) em 1951.
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O “Sobrenatural de Almeida”

O extraordinário escritor Nelson Rodrigues – irmão de Mário Filho, também jornalista -, um amante e cronista das emoções do futebol em campo, atribuía as surpresas e a magia do jogo de bola a um certo “Sobrenatural de Almeida”, personagem que, segundo ele, ignorava qualquer lógica que pudesse abrigar o jogo e, às vezes, decidia partidas de modo surpreendente e inexplicável.
 Pois o tal ‘Sobrenatural de Almeida’ marcou presença na Copa de 50, caboclo brasileiro que era desde nascido na imaginação do genial dramaturgo pernambucano. No campo de jogo aconteceram duas surpresas absurdas.
 – A primeira, maior zebra da história até então, foi o triunfo do time semiamador dos Estados Unidos sobre os ‘inventores’, os que se achavam ‘donos’ do futebol, a poderosa Inglaterra, no Independência, em Minas Gerais, por 1 x 0. Na equipe inglesa, pra se ter uma ideia, estavam o famoso zagueiro Alf Ramsey, futuro técnico do time campeão do mundo em 1966, em Londres; e o lendário atacante, ponta direita, Stanley Mathews, até hoje tido como um dos maiores astros da Inglaterra de todos os tempos. Nada funcionou.
Naquela partida, segundo os registros da imprensa esportiva da época, só um time jogou em campo, teve a bola e atacou o tempo inteiro: a Inglaterra. Mas… segundo o depoimento desolado do capitão da equipe Billy Wright, após a derrota: “A sensação é que poderíamos ficar jogando o dia inteiro que o gol não sairia”.
Capricho dos deuses, da deusa bola, castigo pela arrogância dos ‘gringos’ ou… coisas do personagem rodrigueano?
 – A segunda grande surpresa seria o “Maracanazzo”, a virada do Uruguai (2 x 1) em cima dos brasileiros, donos da casa, mais que confiantes, cumprindo uma campanha até então assombrosa na competição e fazendo uma partida reconhecidamente superior – com mais ofensividade, domínio da bola e do jogo – aos uruguaios naquela trágica final. A Celeste Olímpica chegara à final aos trancos, sem empolgar.
  O caboclo ‘Sobrenatural de Almeida’, personagem de Nelson Rodrigues, estaria punindo também nossa soberba?  Apois.
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 Éramos os melhores  

 O fato é que começamos a perder o título dois dias antes, fora de campo, depois de um triunfo estonteante, de 6 x 1, diante da Espanha, com show de bola de uma equipe que sobrava em qualidade de jogo e talentos individuais: Barbosa, Augusto, Juvenal Amarijo, Bauer, Danilo, Friaça, Zizinho (o craque maior), Jair da Rosa Pinto, Ademir Menezes (artilheiro da competição com 9 gols), Chico… e ainda Eli, Maneca, Nilton Santos, Baltazar. O técnico, Flávio Costa.
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 Estávamos invictos, jogávamos melhor a cada partida, sobrando, goleando e dando espetáculo. Encantávamos. Torcedor de ouvido colado no rádio, empolgado, o país inteiro respirando a Copa e acreditando, sem dúvidas, sem zebras, era nosso o título…  Um otimismo que contaminava tudo: o noticiário, os cartolas, a política, os botecos.
Nessa euforia do ‘já ganhou’, jornais estampavam na véspera da final pôsteres do ‘time campeão’, a concentração da equipe invadida por políticos e ‘perus’ de todo naipe, jantares, foguetes, prêmios…  Só que esqueceram todos de combinar com os nossos vizinhos do Sul, os Uruguaios, muito bravos, manhosos, só espiando.
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 Como foi a partida

  Depois de um primeiro tempo travado, morrinhento, com o Brasil querendo jogo, assediando, criando boas chances mas sem conseguir fazer o gol, os uruguaios marcando duro, dificultando, travando, catimbando, enervando, sob o comando do grande capitão, o meio-campista Obdúlio Varela … O Brasil fez 1 x 0 logo no comecinho da segunda etapa, com Friaça desviando do goleiro Máspoli, aproveitando um ótimo passe em profundidade do meia Zizinho (o grande ídolo de Pelé).
  O Brasil precisava apenas de um empate para se sagrar campeão, pela sua campanha muito superior a todos, e as arquibancadas já comemoravam o título, mas o Uruguai não estava morto e tinha suas artimanhas, a astuta estratégia da defesa maciça mas usando o contragolpe bem encaixado na direita, com o veloz ponteiro Ghiggia caindo nas costas do duro mas pesado lateral Bigode. O empate saiu assim, de um lançamento de Obdúlio Varela, e Ghiggia venceu Bigode na carreira, foi à linha de fundo, levantou a cabeça e achou o artilheiro Schiaffino livre, de frente, para bater de primeira, na altura da marca do pênalti, chute certeiro. O empate aconteceu aos 21 minutos.

 Bastava o empate, mas, empurrado pela torcida, sentindo-se superior em campo, o time brasileiro lançou-se ainda mais ao ataque, queria a vitória. Os uruguaios atrás, resistindo, suportando, fechadinhos, até que, a 12 minutos do apito final, num outro contragolpe bem urdido pela direita, Julio Peres e Ghiggia envolveram Bigode, a cobertura do zagueiro Juvenal chegou tarde e o ponteiro uruguaio, penetrando em velocidade pela linha de fundo, ao invés de cruzar – como tinha feito no primeiro gol e Barbosa acreditou que faria de novo – arriscou, bateu firme, mesmo sem ângulo, e a bola passou entre o goleiro e a trave. Ghiggia calava assim o Maracanã e punha o país em lágrimas.
  Repita-se: Foi o único chute na direção do gol brasileiro que Ghiggia deu durante a partida. Acertou.
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 O desolo e a glória

– O médio Danilo Alvim, chamado de ‘o príncipe’, só deixou o gramado quase uma hora depois, arriado, em prantos. O ambiente era fúnebre no vestiário brasileiro.
– O Pelé ainda não existia. Édson Arantes do Nascimento conta que ele, então apenas um guri franzino de nove anos chamado de Dico e já um assombro com a bola nos pés, ao ver seu pai Dondinho (um ex-jogador de futebol) chorando ao pé do rádio com a derrota do escrete, o consolou, dizendo: “Não chore, pai, eu prometo um dia ganhar o titulo de Campeão do Mundo pra você”. O filho de Dondinho e Dona Celeste, o menino Dico ou Gasolina (nascido em Três Corações/MG e criado em Bauru/SP), tornou-se uma entidade chamada Pelé e cumpriu a promessa feita ao pai, três vezes: em 1958, na Suécia, com apenas 17 anos; em 62 no Chile e o Tri no México/70. Virou Rei, o nosso eterno Rei.
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 Os campeões

– Em 16 de julho de 2015, exatos 65 anos depois de ter feito aquele o gol que calou o Maracanã na final da Copa de 1950, Ghiggia morreu, aos 88 anos; eterno ídolo uruguaio, o derradeiro dos sobreviventes daquele ‘maracanazzo’.
  Ele contava que no final do jogo, mesmo feliz com o título conquistado, chegou a chorar também no gramado consolando alguns atletas brasileiros desolados, no depois. Ele e o capitão Obdúlio Varela tornaram grandes amigos de alguns e costumavam, ambos, passar férias no Rio de Janeiro em companhia de Zizinho e outros jogadores daquela final.  Exemplo de atleta, companheirismo.
 – Diria Obdúlio, anos depois: “Jogaríamos dez vezes contra o Brasil e perderíamos nove. Mas aquela partida tínhamos de vencer e vencemos”. Ghiggia, o grande herói, decisivo, repetia orgulhoso, já idoso: “Só três pessoas calaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu”.
  No Uruguai inteiro, esses dois craques de bola têm nomes e lembranças preservadas, são e serão reverenciados, para sempre.
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 Resta-nos, hoje, tantas copas depois, reconhecer que aquela Celeste Olímpica campeã em 1950 era uma equipe respeitável, esperta e guerreira; nos engoliu. Sob o comando técnico de Juan Lopez:
 – Máspoli, um goleiraço, Tejera, Gonzalez, Gambotta, Obdúlio Varela e Rodriguez; Ghiggia, Julio Perez, Miguez, Schiaffino e Morán.  Timaço!
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  O racismo velado e revelado

 – A mesma ‘grande imprensa’, que tinha feito festa e comemorado o triunfo antecipadamente, depois da ‘tragédia’ elegeu como culpados da derrota o goleiro Brabosa, negro, para muitos o melhor que o Brasil já teve; o lateral Bigode, também negro, lateral forte, duro na marcação mas vulnerável na velocidade; e o excelente zagueiro Juvenal Amarijo, mulato que anos depois veio encerrar a carreira no Bahia (foi campeão baiano em 1954); morava em Itapuã, onde morreu, em penúrias, na década passada.
 – No mais, condenaram a nossa camisa branca, como azarada, nunca mais usada. A ‘amarelinha’ virou o uniforme um, oficial.

 – A perda daquela Copa teria gerado, segundo o cronista Nelson Rodrigues a tal síndrome de ‘cachorro vira-latas’, um complexo de inferioridade doentio, síndrome essa que foi superada em 1958 com a geração Pelé, Garrincha, Didi …  vencendo a Copa do Mundo na Suécia, assombrando o planeta com um jeito de jogar bola encantador e eficiente, destroçando para sempre a tese estúpida racista de que ‘os negros tremiam e davam azar com a camisa da seleção’.  Pelé zerou tudo, calou a todos.
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Zedejesusbarreto / setembro 2022

 

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