Flávio e Eduardo Bolsonaro — Foto: Reprodução/Instagram
Por: Sara Vivacqua
A principal suspeita no escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o filme “Dark Horse” não está apenas no fato de um banqueiro investigado por fraude bilionária ter negociado milhões de dólares para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A questão mais grave reside no caminho do dinheiro: segundo documentos e mensagens revelados pelo Intercept esta semana, parte desses recursos passou por uma estrutura societária no Texas ligada diretamente ao entorno de Eduardo Bolsonaro — uma arquitetura que pode ter servido deliberadamente para ocultar origem, destino e beneficiários de valores de procedência suspeita.
As mentiras que revelam o esquema
As versões apresentadas por Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias e Paulo Figueiredo mudaram em menos de 48 horas, expondo não apenas contradições, mas possivelmente o funcionamento do esquema.
Flávio Bolsonaro, ao ser questionado pela manhã sobre a relação com Vorcaro, riu e disse: “É mentira”. Horas depois, pressionado pela publicação de áudios em que afirmava a Vorcaro “estou contigo e sempre estarei”, admitiu ter buscado “patrocínio privado” para o filme. Depois corrigiu novamente sua versão: Vorcaro “não teria honrado as parcelas”. Aqui está a admissão explícita da existência de um contrato com Vorcaro. Mas qual era a contrapartida dos Bolsonaro em face de tanto dinheiro? Qual o benefício de Vorcaro? Ocultar patrimônio, talvez?
Na GloboNews, Flávio foi além: confirmou a existência de um “fundo nos Estados Unidos fiscalizado pela SEC”, afirmou que o advogado de Eduardo Bolsonaro era um dos gestores e que esse profissional teria sido remunerado pelo trabalho.
A falsa blindagem da SEC
Flávio Bolsonaro tentou usar a estrutura texana como escudo de legitimidade. Afirmou que o fundo era “fiscalizado pela SEC” e que havia gestor remunerado. Mas essa narrativa é enganosa.
“SEC” em inglês é a sigla para Securities and Exchange Commission, que é a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Ela funciona como a CVM no Brasil e fiscaliza mercado financeiro, bolsa de valores, empresas listadas, investidores e fraudes financeiras.
De acordo com a lei do Texas, um fundo que opera por captação privada pode vender valores mobiliários sem registrar a oferta publicamente na SEC. O que se registra na SEC é apenas um aviso de oferta isenta — não uma aprovação substantiva do fundo nem uma auditoria do destino do dinheiro.
O formulário pode mostrar emissor, endereço, pessoas relacionadas, valor ofertado e número de investidores, mas não entrega a lista completa de beneficiários finais, a origem última dos recursos ou a contabilidade detalhada do projeto.
A expressão “fiscalizado pela SEC”, portanto, funciona retoricamente como verniz de legalidade — parece dizer “há controle público”, quando na prática oferece exatamente o tipo de arquitetura útil para dar aparência empresarial a uma movimentação que, no Brasil, ficaria muito mais exposta.
Mário Frias, produtor-executivo do filme, inicialmente negou categoricamente qualquer relação financeira com Vorcaro. “Não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em ‘Dark Horse’”, escreveu em comunicado público nas redes sociais. Posteriormente, em entrevista à CNN, recuou e admitiu que houve “tentativa de captação” com o banqueiro, mas que o dinheiro “não entrou”.
A produtora GoUp Entertainment seguiu a mesma linha: afirmou em nota oficial não ter recebido “um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro”. Eduardo, por sua vez, negou publicamente conhecer Vorcaro e ter qualquer relação com o financiamento do filme. Contudo, segundo o Intercept, um contrato assinado digitalmente por Eduardo em janeiro de 2024 o colocava, ao lado de Mário Frias, como produtor-executivo do projeto junto à GoUp Entertainment. O documento atribuía a Eduardo responsabilidades diretas sobre “financiamento, preparação de documentação para investidores, identificação de fontes de financiamento, créditos, incentivos fiscais, product placement e patrocínio”.
Mais incriminatória ainda é uma mensagem atribuída a Eduardo, publicada pelo Intercept, em que ele teria orientado sobre remessas internacionais: “O ideal seria os recursos já estarem nos EUA, porque dos EUA para os EUA é tranquilo”. Eduardo sugeriu enviar “o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”, demonstrando aparente consciência operacional sobre o caminho do dinheiro.
Paulo Figueiredo, comentarista bolsonarista, tentou defender os Bolsonaros argumentando que a legislação norte-americana protegeria a identidade dos investidores em captações privadas e que acordos de confidencialidade (NDAs) impediriam a divulgação dos nomes.
Mas essa defesa, longe de proteger, expõe a engrenagem: se há NDA, há investidor a ser protegido; se há investidor, há contrato; se há contrato com Vorcaro ou estrutura ligada a ele, cabe à família Bolsonaro explicar qual era a contrapartida oferecida em troca de dezenas de milhões de reais.
E por que Figueiredo está tão empenhado em ocultar a identidade do verdadeiro investidor? No seu perfil no X, chega a mentir, dizendo que a identidade seria “proibida por lei no Texas de ser divulgada”. A legislação norte-americana pode permitir que a identidade dos investidores não seja divulgada publicamente em uma captação privada, mas ela não pode ser anonimizada nem existe proibição de sua publicação. NDA não é escudo contra investigação.
O caminho do dinheiro: da fraude bancária ao Texas
Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época) para o filme. A relação evoluiu de intermediários para contatos diretos, com cobranças por parcelas atrasadas e mensagens de proximidade pessoal. Documentos e mensagens indicam que Vorcaro teria repassado pelo menos R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025, mas os repasses teriam sido interrompidos. Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou recursos de Vorcaro, alegando que o filme estava em “momento muito decisivo” e que havia “muita parcela para trás”.
O dinheiro, porém, não foi diretamente para a produtora — o que explica como a GoUp pode, tecnicamente, negar ter recebido valores de Vorcaro enquanto Flávio afirma que o aporte foi feito. Segundo o Intercept, parte dos valores teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
O elo com Eduardo Bolsonaro, segundo o Intercept, aparece no caminho do dinheiro em pelo menos três pontos: o Havengate teria como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado pessoal de Eduardo; a estrutura do fundo incluiria uma general partner LLC quase homônima, no mesmo endereço em Dallas; e documentos dessa segunda empresa apontariam Paulo Calixto como membro e administrador, com Altieris Santana integrando o quadro societário.
A Polícia Federal suspeita que dinheiro de Vorcaro tenha custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A triangulação é evidente: origem em tratativas de Flávio com Vorcaro; destino em fundo no Texas ligado a aliados de Eduardo; Eduardo, simultaneamente, em contrato como produtor-executivo e em mensagens sobre remessas. Não se trata de proximidade política abstrata, mas de origem, rota, controle e possível benefício direto dos recursos.
A arquitetura texana: ocultação por design
A escolha do Texas e a estrutura de “limited partnership” não são acidentais. Essa arquitetura favorece precisamente aquilo que uma investigação financeira precisa desmontar: a separação entre quem manda o dinheiro, quem aparece como gestor, quem é o beneficiário econômico e quem recebe o benefício político.
Em uma “limited partnership”, investidores econômicos (“limited partners”) podem aparecer com baixa exposição pública, enquanto a administração fica com um general partner, que pode ser uma LLC. Assim, o público vê o fundo, o endereço, o agente legal e a gestora formal, mas não necessariamente enxerga quem colocou o dinheiro, quem controlou a operação e quem foi o beneficiário final.
A incorporação da LLC como “general partner” adiciona outra camada de opacidade. Uma LLC pode ter múltiplos membros, pode ser controlada por outra entidade, e seus documentos internos de operação não precisam ser arquivados publicamente no Texas. Isso significa que a cadeia de controle pode incluir pessoas físicas, outras empresas ou até estruturas offshore sem que essa informação seja imediatamente acessível ao público ou à imprensa. O resultado é uma estrutura em que o dinheiro entra por um lado, passa por camadas corporativas formalmente legais, e sai do outro sem que seja fácil identificar quem se beneficiou.
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