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terça-feira, 23 junho 2026

Como o Banco Master capturou o Estado brasileiro para socializar um rombo bilionário

Foto: Divulgação

Por: Wagner França 

Não se engane com o ar blasé dos engravatados de São Paulo ou com a falsa aura de modernidade dos aplicativos de investimento. O que aconteceu com o Banco Master, cujo desmonte foi orquestrado em tempo recorde pelo Banco Central e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), não é um mero “caso de polícia”. É a radiografia nua e crua de um Estado brasileiro totalmente colonizado pelos interesses do capital financeiro. A história do Master não é sobre um banco que quebrou; é sobre como o poder político e o judiciário operam como uma correia de transmissão para sugar recursos de trabalhadores e socializar prejuízos de meia dúzia de aventureiros.

Enquanto você paga sua conta de luz, seu imposto de renda e sua previdência, nos salões de Brasília costurava-se a salvação de um castelo de cartas que, se caísse de forma desordenada, levaria junto o patrimônio de milhões de cotistas de fundos de pensão e a credibilidade de um sistema que serve apenas aos ricos.

O malabarismo de um gênio das trevas

Para entender a captura do Estado, é preciso olhar para o personagem central dessa farsa: Daniel Vorcaro, o jovem banqueiro que transformou um banco nanico (o antigo Banco Máxima) em um gigante de R$ 50 bilhões em ativos. Como? Com a velha receita do capitalismo em sua fase gangster: oferecendo o que ninguém oferecia. Ele inundou o mercado com CDBs (Certificados de Depósito Bancário) pagando juros muito acima da média, prometendo rentabilidade de 18%, 20% ao ano, algo impensável num país de taxa Selic cadente.

Esse dinheiro fácil, que atraiu mais de 300 mil investidores, não ia para a economia real gerar empregos ou produção. Ia para o lixo tóxico: créditos podres, precatórios velhos, ações ilíquidas de empresas falidas (como a Americanas) e dívidas da recuperação judicial da 123milhas. Era um esquema Ponzi clássico, onde a rentabilidade dos que entravam primeiro era paga com o dinheiro dos novos trouxas. Mas, para um esquema Ponzi funcionar até o infinito, ele precisa de um fiador de última instância. E é aí que o Estado brasileiro entra em cena.

A “venda” ao BRB: a socialização do fracasso

Na semana passada, o Banco de Brasília (BRB), um banco estatal controlado pelo Governo do Distrito Federal, anunciou a compra de 58% do capital do Banco Master por R$ 2 bilhões. O anúncio, festejado pelo mercado, é um escândalo de proporções colossais mascarado de operação de salvamento.

O BRB não comprou um banco; comprou o ônus. Mas, como num passe de mágica típico do capitalismo de compadrio, o BRB não vai herdar a dívida do Master? A operação foi cirurgicamente estruturada para que a parte podre – os tais ativos ilíquidos e o passivo trabalhista bilionário – ficasse numa holding separada, controlada pelo próprio Daniel Vorcaro, mas cuja sobrevivência depende de um empréstimo-ponte do novo banco. Na prática, o Estado entrou com o capital e a credibilidade, enquanto o banqueiro ficou com o controle do “miolo” de créditos podres, apostando que, com o tempo e a inflação, aquilo se pague sozinho. Socializou-se o risco, privatizou-se o eventual lucro futuro.

O balcão de negócios: de Lira aos fundos de pensão

Mas como o Master conseguiu chegar a esse ponto sem que ninguém o parasse? A resposta está na teia de relações com os poderes da República.

1. O Legislativo como sócio oculto: O Banco Master operou, por anos, uma agressiva estratégia de captação via fundos de pensão de estatais e entes públicos. Para destravar esses recursos, não bastava ter um bom powerpoint. Precisava-se de trânsito político. O banco se tornou um dos maiores financiadores indiretos do Centrão. Reportagens da imprensa progressista revelaram que o Master contratou como consultores figuras-chave ligadas ao ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e outros caciques. O banco também emprestou dinheiro farto para prefeituras e estados com garantias questionáveis, numa clara operação de “porta giratória”: eu te financio a campanha ou o município, e você garante que o fundo de pensão do seu estado invista nos meus papéis.

2. Fundos de pensão: o saque ao trabalhador: O segredo sujo do crescimento do Master são os fundos de pensão. A Funcef (Caixa), a Petros (Petrobras) e a Previ (Banco do Brasil) despejaram bilhões em cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) geridos pelo Master. A pergunta que não quer calar: por que gestores de fundos de pensão, teoricamente conservadores, colocariam a aposentadoria de milhões de trabalhadores num banco que pagava taxas insustentáveis? Porque há uma porta giratória entre as diretorias indicadas politicamente para esses fundos e os interesses do banco. A Polícia Federal já investiga se houve propina ou favorecimento na compra desses títulos podres. Na prática, o rombo do Master foi perfurado diretamente no bolso do futuro aposentado brasileiro, com a anuência de diretores que deveriam zelar pelo patrimônio da classe trabalhadora.

3. O Judiciário e o “fator precatório”: Outra perna do esquema envolvia a compra de precatórios (dívidas do governo já reconhecidas pela Justiça) com deságios altíssimos. Essa operação exige uma relação simbiótica com o Judiciário, seja para agilizar filas de pagamento, seja para obter informações privilegiadas sobre os repasses. O Master montou uma estrutura para atuar nesse segmento que o colocava como um atravessador entre o poder público e credores desesperados. Em muitos estados, juízes são assediados ou se tornam sócios ocultos de escritórios que enriquecem nessa intermediação.

O partido único do capital

A operação de “salvamento” do Master escancara a tese da esquerda revolucionária: não há independência entre os poderes quando o sistema está em risco. O Banco Central acelerou a aprovação da venda. O CADE aprovou em tempo recorde, sem impor restrições competitivas sérias – alegando urgência para evitar um “risco sistêmico”. O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), abraçou a causa de usar dinheiro público (via BRB) para comprar o banco, sob o argumento cínico de “diversificar negócios”.

O que se viu foi um conluio perfeito: o Executivo e as agências reguladoras agindo como bombeiros do capital, o Ministério Público e a Justiça fazendo vista grossa à evaporação de bilhões dos fundos de pensão, e os parlamentares blindando qualquer CPI que pudesse investigar a fundo. É a prova material de que o Estado brasileiro é apenas o comitê executivo da burguesia financeira. Se o banco fosse uma cooperativa de trabalhadores ou um programa social, o “risco fiscal” seria insustentável e a intervenção viria em dias. Por ser um banco de especuladores ligados ao Centrão, o remédio amargo é servido na veia do contribuinte com aplausos da mídia corporativa.

O futuro: a conta chegou

A fusão BRB-Master é uma bomba-relógio. Ao estatizar o prejuízo, o governo do DF e, indiretamente, a União, assumem um risco bilionário em ativos podres. Quando a maquiagem contábil cair, o rombo será coberto com mais impostos regressivos e cortes de salários.

O “Método Vorcaro” de fazer negócios foi validado pelo Estado. Ele não está preso; está rico, controlando uma holding que ainda pode sugar recursos públicos. Essa é a verdadeira face da luta de classes no Brasil. De um lado, a classe trabalhadora que banca a Previdência e paga impostos; do outro, uma elite financeira que aprendeu que o crime, quando bem estruturado e conectado aos palácios de Brasília, compensa – e muito. A história do Master não é um desvio; é a essência do capitalismo brasileiro.

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