Plebiscito
A esperança de pôr um ponto final em uma guerra de 52 anos foi enterrada por 0,4% dos votos (Guillermo Legaria/AFP)
A vitória do “Não” põe a pique um acordo dado como certo e transforma Álvaro Uribe em árbitro da situação
por Antonio Luiz M. C. Costa — Carta Capital
A maioria das pesquisas indicou uma vantagem de 54% a 66% para o “Sim” no plebiscito sobre o acordo de paz na Colômbia. A vitória do “Não”, ainda que por meros 50,21% a 49,78%, diferença de menos de 54 mil votos em 13 milhões, foi um choque para a maioria dos analistas internacionais, tanto quanto a vitória do Brexit no Reino Unido ou a escolha de Donald Trump como candidato dos republicanos nos EUA. Como explicar esse resultado?
Uma questão decisiva foi o fato de grande parte da população não sentir o problema na pele. Como mostram os mapas ao lado, o “Sim” ganhou nos departamentos onde a guerrilha está presente, na maioria deles com mais de 60% e com quase 80% em Vaupés (na Amazônia, fronteira do Brasil) e Chocó (outra região de selva, na fronteira do Panamá).
Mas nos departamentos distantes dos combates (salvo a capital Bogotá, onde o “Sim” teve 56%), os votos contra o acordo chegaram a mais de 60%. Além disso, 63% dos eleitores se abstiveram. Isso não é inédito na tradição eleitoral da Colômbia, onde apenas 28% foram ao primeiro turno da eleição presidencial de 2014, mas é desanimador para uma decisão dessa importância.
Para muitas dessas populações é como se a guerra acontecesse em outro país. Não é muito diferente da atitude do estadunidense inconformado com a retirada no Vietnã ou o acordo com o Irã. Quando só se veem os combates pela tevê, é fácil ignorar o desespero alheio, rejeitar concessões e insistir em continuar a luta até a vitória, principalmente quando há uma campanha organizada para convencê-lo de que a paz significaria se render ao “comunismo”, ou coisa parecida.
A campanha do “Não”, liderada pelo ex-presidente e pelo ex-procurador Alejandro Ordoñez, cujo mote foi #SiALaPazPeroEstaNo, “sim à paz, mas não esta”, disse aos eleitores que o acordo, pelo qual as Farc entregariam as armas e se transformariam em partido político com direito a mídia e fundo partidário, seria abrir caminho para eleger o líder guerrilheiro Timochenko presidente, coisa inconcebível no conservador cenário político do país e até para promover a tal da “ideologia de gênero”, um novo bicho-papão das direitas latino-americanas.
O padre progressista Eduardo de la Serna, colunista do Página/12 (e primo distante do Che), conta de Bogotá que os setores integristas liderados por Ordoñez foram apoiados por alguns bispos colombianos, “para muitos dos quais um casal homossexual é mais grave do que sequestros, minas antipessoais, guerra ou violência”.
Uma senhora por eles influenciada insistiu em votar contra os acordos porque eles “defendem o matrimônio igualitário”, e de nada adiantou mostrar que sequer a palavra “casamento” consta das 297 páginas do acordo. “Escolheu acreditar na mentira”, conclui Serna.
Na revista Foreign Policy, acusou-se o governo colombiano de ter feito uma campanha abstrata pela paz conduzida por “gente da cidade”, em vez de ir aos grotões explicar às populações das regiões afetadas como elas seriam beneficiadas, mas, como foi dito acima, estas majoritariamente apoiaram o acordo. O problema não foi esse.
Segundo o analista colombiano Pedro Santana, ouvido pelo jornal O Globo, muitos cidadãos teriam se recusado a prestigiar um acordo que parecia fortalecer um governo impopular por sua política econômica e uma guerrilha idem por seu histórico violento, disposição reforçada pelo destaque dado pela campanha do “Sim” ao apoio de políticos tradicionais desprestigiados, mais do que ao de movimentos sociais e de vítimas da guerra.




