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terça-feira, 14 abril 2026

Cartas habaneras (LVIII)

Emiliano José

Embargo dos EUA contra Cuba completa 60 anos sem perspectiva de suspensão |  G1

Antes de seguir marcha com Víctor Dreke, saúdo com alegria o início do rompimento do cruel, perverso, genocida bloqueio norte-americano contra Cuba, devido aos movimentos dos povos do mundo e às iniciativas de alguns Estados nacionais, inconformados com o despotismo dos EUA. Com isso, mostra-se ser impossível àquele país acreditar ser o dono do mundo, ignorando todas as regras do direito internacional, resistência a se configurar também no caso do Irã. Ainda é pouco, mas são os primeiros passos, a botar freio na ofensiva neonazista de Trump.

Aos 60 anos de seu início: A guerra de Escambray na memória coletiva. | Embaixadas e Consulados de Cuba

Em Escambray, a resistência aos contrarrevolucionários envolveu uma série de medidas, além da luta armada, das quais já falamos em capítulos anteriores. 

Na luta contra os bandidos em Escambray, citamos o exemplo dos oficiais, dos chefes durante aquela luta. 

Dreke conta um episódio, sem muita certeza de que tenha ocorrido exatamente da maneira como recorda.  Ele, como se sabe, era um dos principais comandantes da batalha contra os bandidos. Um dia, estava a descansar, já noite, e chegou um soldado, um combatente, e disse:

– Óyeme, tráeme la comida.

Dreke levantou-se e levou a comida para o soldado. 

_ Porque los oficiales vivíamos con el resto de la tropa y no nos diferenciábamos; no se sabía qué eras tu. Así era la Lucha Contra Bandidos. 

Lembra do exemplo de Fidel, o primeiro a trocar tiros contra os bandidos em Escambray. Aquele momento da Revolução Cubana era muito perigoso. A morte dele seria um desastre para a sequência do processo revolucionário. 

– Tenemos que dar el ejemplo – ele dizia, insistia, e agia dessa maneira. 

– Y además, Fidel es Fidel, siempre en la trincheira de combate. 

Sempre. 

Houvesse um ciclone e ele arrancava para a área onde a tempestade se abatia, e não havia quem o demovesse, diz Dreke. Ele se refere aqui ao ciclone Flora, de outubro de 1963, arrasador, a matar mais de mil pessoas, destruir umas 10 mil habitações e prejudicar severamente a produção agrícola. 

No meio do ciclone, aparece Fidel, e participa diretamente das operações de salvamento, de enfrentamento dos problemas vividos pela população. 

Cubadebate

Foto: Cubadebate

A luta contra os bandidos em Escambray não foi fácil. 

No início, os grupos contrarrevolucionários cometeram muitos assassinatos. No princípio da batalha, faltava força operativa para combater os bandidos, bem armados e articulados. Eles, no começo, queimavam os armazéns, as tendas do povo, assassinavam os brigadistas alfabetizadores, a meter medo aos professores ligados à campanha de alfabetização. 

Nessa fase inicial, com a ofensiva dos bandidos, os combatentes revolucionários se sentiam impotentes, não podiam fazer nada, e morriam de raiva por isso. 

Os contrarrevolucionários desenvolviam uma espécie de guerra de guerrilhas, ao modo deles. Faziam um assalto num lugar, as forças da Revolução corriam na direção deles, prendia um ou dois. Noutro dia, eles apareciam realizando um assalto em outro lugar. O governo revolucionário foi aprendendo. 

Dreke fala de um momento decisivo naquela luta, 4 de janeiro de 1963. Ele e companheiros tomam conhecimento da existência de um grupo de contrarrevolucionários na entrada de Manicaragua, dirigidos por Porfírio Guillén, um dos chefes dos bandidos, dos mais importantes. 

Dreke ainda manifestou dúvidas sobre tal notícia. Constatou ser verdade. Olhou o entorno: preocupante. Não tinha tropa ali, à disposição dele. Contava apenas com a famosa companhia del Caballo de Mayaguara, como era conhecido Gustavo Castellón, o comandante dela, constituída de apenas 45 homens, e que estava de passagem. 

Dreke pensando: os bandidos planejavam um ataque a Manicaragua, onde se localizava o comando das operações da Revolução. Fizessem-no, e seria uma desmoralização. Não podia acontecer. 

Foi aos fuzis. Distribuiu-os aos cozinheiros, aos professores, a quem estivesse por perto. Empunhou o dele e pôs-se em marcha, à frente do exército improvisado para dar combate aos contrarrevolucionários. Improvisado, mas muito determinado. 

Foi tiro pra tudo quanto é lado, quando do encontro com os bandidos. Prenderam quase todo o grupo, inclusive Porfírio Guillén. Os bandidos mataram três combatentes revolucionários. O combate representou um golpe para os contrarrevolucionários. Aquele era um momento de força dos inimigos, de ofensiva deles, e derrotá-los foi um marco. A partir de 1963, acelerou-se a campanha para derrotá-los. 

Os cercos eram realizados de madrugada ou à noite. Não podiam ser realizados durante o dia. De noite ou de madrugada, eles eram surpreendidos. Normalmente, buscavam um bom lugar onde acampar e dormiam tranquilos. Quando ganhavam confiança, ficavam dois ou três dias no mesmo local. Nessas situações, havia a chance de agentes de segurança do governo se infiltrarem e depois fornecer todos os dados a Dreke e demais comandantes. 

Os batalhões da Luta Contra os Bandidos (LCB) se movimentavam não somente em Escambray. 

Chegavam a distintas zonas de operação. Cobriam Sagua, Camagüey, Jatibonico, Sancti Spíritus. Em todas, dar combate aos bandidos. 

Dreke faz questão de esclarecer: as tropas revolucionárias jamais maltrataram um prisioneiro. Princípio da Revolução. E não era fácil manter tal princípio. Dreke faz uma confissão: ele e companheiros tinham ódio dos bandidos presos. Haviam matado camponeses, massacrado mulheres, deixado muitas crianças na orfandade. Como não ter ódio? Uma reação humana. Mas, ainda assim, nunca agiram contra a determinação revolucionária. 

#omilagrecubano

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