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domingo, 23 junho, 2024

Carta de Quixote a Zanin: entre Moros e Cristianos

José Bessa Freire

Se dobrares a vara da Justiça, que não seja consequência do peso do suborno e do compadrismo, mas sim do da misericórdia(Cervantes, D. Quixote. Cap. XLII. Conselho a Sancho Pança). 

La Mancha, 3 de agosto de 1605

Prezado Cristiano Zanin

Sou o fidalgo castelhano Dom Quixote, filho de Miguel de Cervantes e te escrevo daqui do Salão dos Mortos, em Valhalla, para te  parabenizar por tua posse no próximo dia 3 de agosto como ministro do STF – Supremo Tribunal Federal. Talvez possam te servir no exercício do poder os conselhos quixotescos que dei há mais de 400 anos a meu fiel escudeiro Sancho Pança, quando foi ele nomeado governador da Ilha Barataria.

Advirto, porém, que o adjetivo “quixotesco” no Brasil é depreciativo, sinônimo de trapalhão e lunático e, no melhor dos casos, de sonhador delirante. É que o espelho pragmático da política não reflete o sonho legítimo, que nos convida a lutar por uma sociedade menos desigual. Os apedeutas, então, manobram para que nós, os quixotes, renunciemos à luta pela justiça e para isso debocham e ridicularizam a utopia, como fizeram na sabatina do Senado. Centrão dixit.

Moro e Cristiano

Esta sabatina lembrou a guerra entre Moros y Cristianos celebrada ainda hoje na Espanha com uma festa tradicional para comemorar a expulsão dos árabes que, no séc. VIII, invadiram a Península Ibérica, retomada pelos reis cristãos séculos depois. Os participantes se dividem em duas facções – os moros e os cristianos – vestidos a caráter, numa ambientação histórica que teatraliza a Reconquista.

Os árabes muito contribuíram nas áreas das ciências, da matemática e até do Direito. A tradição islâmica de mais de 1.400 anos, generosa com os povos que fogem de perseguições, influenciou o moderno direito internacional do asilo, como reconhece livro recente editado pelo ACNUR – Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Não foi o caso da versão brasileira dos Moros, aqui a malta magna nada aportou de civilizatório, ao contrário representou o negacionismo da ciência e do humanismo. No senado, buscou confundir os desinformados. Um deles, o Moro no singular, é aquele ex-juiz da Lava-Jato, que desmoralizou a luta tão necessária contra a corrupção, quando a usou para obter vantagens pessoais e políticas. Nomeado ministro da Justiça, cobiçava este teu lugar, o que seria um pesadelo para o país. Mas ele é Moro, não é Cristiano.

Agora, esse Moro de igarapé vomitou no Senado a mentira deslavada de que foste o padrinho de casamento do Lula e, devido a tal intimidade, não poderias ser indicado para o STF. “Se não for verdade, peço desculpas” – disse cinicamente, plantando dúvida na mente dos ouvintes incautos. Ignorou que há três anos, ele sim foi padrinho de casamento da deputada Carla Zambelli, a quem “pouco conheço“ e com quem “nunca tive qualquer relacionamento pessoal” – assegurou contraditoriamente, depois que com ela brigou.

Moro, o Sérgio, está sendo processado no STF, acusado pelo advogado Tacla Durán de cobrar “taxa de proteção” para “aliviar” os alvos da operação Lava Jato. Com o fiofó na mão, ele queria saber se provas obtidas de forma ilícita podem ser usadas para condenar alguém, como fez um certo juiz com voz de marreco quando foi contaminado pela “Síndrome de Hybris”.

doença do Poder

Essa doença foi assim denominada pelo neurologista inglês David Owen, em referência a Hybris, personagem da mitologia grega, que ébrio de poder, passou a se comportar como um deus e a mostrar que era um filho da mãe Dyssebia (Impiedade). A primeira reação de Sancho ao ser nomeado governador mostra seu deslumbramento:

– Não existe nada mais delicioso do que mandar e ser obedecido. Imagino que é muito bom dar ordens, mesmo que seja para um rebanho de ovelhas dóceis – me disse Sancho. Ou, abrasileirando a frase, “é simples assim, um manda, o outro obedece” – como falou um general cloroquinado, obedecendo a um capitão.

Sancho, felizmente, foi logo vacinado, quando o duque responsável pela nomeação sugeriu que ele vestisse o traje pomposo de governador, pois a dignidade do cargo não permitia o uso da farda de um soldado, a batina de um sacerdote ou os trapos mequetrefes de um camponês.

Cristiano, vais usar a toga profanada pelo golpista Willian Lima, que invadiu o STF no 8 de janeiro e vestiu-a simulando ser Batman. Vê, pois, a resposta de Sancho:

– Podem me vestir como quiserem, com qualquer fantasia, porque de qualquer forma que esteja vestido serei sempre Sancho Pança.

Prezado Cristiano, usa a veste talar, mas não deixa o Poder te adoecer. Mantém fidelidade ao menino modesto e inteligente, que nasceu em Piracicaba  em 15 de novembro de 1975 e, republicano, cultivou um senso de justiça agudo.

Sei que tinhas fama de católico conservador de direita, quando estudante na PUC-SP. Dizem as temerosas línguas, que talvez esteja nascendo no STF um novo Dias Toffoli, aquele ministro que confessou ter condenado o ex-presidente do PT José Genoíno, “mesmo sabendo que era inocente”.

A toga de Batman

De qualquer forma, com o objetivo de contribuir modestamente para que isto não ocorra, adapto aqui pra ti os conselhos que dei a Sancho, quando ele assumiu o cargo de governador da Ilha e ficou deslumbrado com o poder.

Em primeiro lugar, prezado Cristiano, não atribuas apenas a teus méritos a indicação para ministro do Supremo, mas dá graças ao céu que dispõe sobre esses assuntos. Dessa forma, poderás avaliar a grandeza do ofício e da carreira no STF e hás de temer a Deus, porque nisso reside a sabedoria e sendo sábio não errarás em nada.

Em segundo lugar, para fazer justiça procura saber quem és tu, tenta te conhecer, que é o conhecimento mais difícil de se obter. Se conseguires, não terás o mesmo destino do sapo da fábula de Esopo, que inchou para ficar igual ao boi e acabou explodindo.

Em terceiro lugar, não desprezes os pobres, os indígenas, os negros, os discriminados. Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, mas não mais justiça do que as versões do rico. Procura descobrir a verdade escondida detrás das promessas e das propinas dos ricos, da mesma forma que detrás dos soluços e lamúrias do pobre. Mas se por acaso dobrares a vara da justiça, que pelo menos não seja em consequência do peso do suborno e do compadrismo, mas sim do da misericórdia.

Falo assim pensando no teu voto na questão do Marco Temporal. Por último, não confies nos puxa-sacos do Centrão ou nos rapapés  do Flávio Rachadinha. E aceita os cumprimentos de quem te admira.

P.S – Dizem os entendidos que a tendência deste verão para os homens são os cabelos penteados com brilhantina com efeito wet look retrô dos anos 50. A neta do Taquiprati, de 12 anos, que me psicografa, viu a sabatina na TV e disse: – Vovô, o penteado dele arrasou. Melhor que a cabeleira xexelenta do Moro.

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