Santo Domingo (Prensa Latina) É impossível narrar a história da América Latina sem mencionar a mistura de culturas que moldaram sua identidade, incluindo a cultura africana, cuja diversidade deixou marcas em muitas nações, incluindo a República Dominicana.
Este foi um dos primeiros territórios para onde escravos foram trazidos da distante África. Eles carregavam consigo como algo sagrado, talvez para aliviar a dor da ignomínia, as diversas manifestações de sua cultura, enriquecendo assim, sem querer, a herança imaterial deste estado caribenho.
Desde a chegada dos primeiros africanos, no início do século XVI, à ilha batizada de Hispaniola pelos colonialistas europeus (que divide a República Dominicana e o Haiti) para trabalhar como trabalhadores forçados nas minas e plantações de cana-de-açúcar, e posteriormente seus descendentes, eles têm sido parte fundamental da construção social, cultural e econômica deste país e da região do Caribe.
Os escravos negros não apenas dedicaram seu suor e suas vidas ao desenvolvimento dessas terras caribenhas, mas também estavam presentes na esfera social, com sua resiliência e rebelião em busca da liberdade.

Foi o que disse à Prensa Latina a jornalista dominicana, ativista afro-colombiana e defensora dos direitos humanos Maribel Núñez. Para ela, a resistência dos escravos negros ao sistema colonial, a necessidade de lutar, a rebelião contra seus senhores fiscais e a recusa em aceitar a escravidão constituem uma de suas maiores contribuições históricas.
A história registra que a primeira revolta de escravos negros em Santo Domingo ocorreu em 1522, em um engenho de açúcar (central). “A rebelião do povo dominicano”, afirma Núñez, “vem do espírito do negro fugitivo”.
Resposta cultural dominicana à escravidão
Diante da escravidão, nasceu uma resposta cultural
Para Núñez, de ascendência haitiana, surgiu uma resposta cultural à escravidão que ainda prevalece, na qual a religiosidade está muito presente.
Nesse sentido, ele mencionou entre os costumes e tradições herdados ritmos como o palo, o salve, o balsié e o gagá, todos originários da África e fundamentais para as celebrações religiosas e sociais deste país.
Outros especialistas concordam com Núñez. Na obra: “Vozes do Purgatório, um estudo da Salve Dominicana”, a antropóloga Martha Ellen Davis explica que “a Salve é assim chamada porque originalmente consistia em versões musicais do texto da oração Salve Regina de origem eclesiástica, embora hoje nesta nação pouco ou nenhum uso seja feito das letras sagradas”.

Ele diz que “com o tempo, e como resultado do sincretismo cultural, tornou-se uma expressão ritual que é realizada atualmente em homenagem a vários santos, não necessariamente à Virgem, e que também inclui temas seculares”.
No caso da Salve Dominicana ou Crioula, são cantos a cappella ou acompanhados por instrumentos de percussão, que geralmente são executados nos velórios dos santos.
Mas também, diz Núñez, durante a época de plantio, o Salve é cantado em alguns campos, principalmente em Baní, Villa Mella e San Cristóbal.
No entanto, ele chamou a atenção para o fato de que, embora os negros antes realizassem celebrações clandestinas para se despedir de seus mortos, nos últimos anos tem havido alguma resistência ao cântico popular, ao toque do tambor e à gagá, devido à xenofobia e ao racismo.
Gagá, tradição cultural e religiosa
A influência africana é percebida no sincretismo religioso, especialmente em práticas ligadas ao vodu dominicano.
Foi nos bateyes (pequenas cidades próximas às usinas de açúcar) que cresceu o gagá, uma tradição cultural e religiosa que mistura catolicismo e vodu, e que os negros das plantações de cana-de-açúcar compartilhavam com os trabalhadores diaristas dominicanos.
Hoje, em alguns bateyes, embora com medo, ainda se aproveita a Semana Santa.
O pesquisador dominicano Geo Ripley disse certa vez à Prensa Latina que no gagá, percussão, dança e crenças se combinam como resultado, primeiro, das diferentes nacionalidades existentes nas terras colonizadas e, depois, do contato com trabalhadores haitianos que trabalhavam nas usinas de açúcar.

“É uma celebração muito especial que acontece durante a Semana Santa, associada ao processo de vida-paixão-morte-ressurreição”, explicou Ripley.
São festivais, afirmou ele, que coincidem com os cultos de fertilidade realizados no início da primavera na África, e o deus cristão e os espíritos vodu, os loases, que são identificados com os santos cristãos, se destacam neles.
Para o professor, esse ritmo folclórico — no qual acrobacias com facão e dança são elementos básicos — tem raízes e é enriquecido na República Dominicana.
O gagá dominicano, com suas cornetas, apitos, tabaco, cerveja e rum, é adaptado à cerimônia haitiana do Rará, termo de origem africana que começa na noite de Quinta-feira Santa e se estende até o Domingo de Páscoa, e está entrelaçado com o ritual vodu.
Segundo o artista visual, com o tempo esse som contagiante e alegre deu lugar às celebrações urbanas, onde se observa uma evolução dos trajes tradicionais para formas mais modernas, além do uso de outros instrumentos, como o trompete.
Bachata e merengue
A influência africana na República Dominicana também é evidente em gêneros populares como merengue e bachata.
Com letras atraentes e românticas, as primeiras bachatas do país — onde a cultura é uma fusão de raízes que permitiu a criação de ritmos únicos — foram gravadas no início da década de 1960.
Antes, embora fossem tocadas e dançadas, a censura imposta pelo ditador Rafael Leónidas Trujillo impedia que fossem tocadas no rádio. Anos em que era considerada música para pobres, para bordéis e bares.
Como grande parte da música de dança caribenha, suas raízes estão nos ritmos africanos, no bolero e no son cubano.

Com suas letras melancólicas, começou a se espalhar pelo gosto popular a partir da década de 1980, quando passou a ser amplamente divulgada em diversos meios de comunicação, principalmente no rádio.
Quando se fala em Quisqueya, muitos a associam às suas praias, algumas das mais bonitas do Caribe, mas também ao merengue, outro ritmo contagiante considerado a dança nacional.
Alguns historiadores sugerem que o nome do gênero vem das palavras muserengue ou tamtan mouringue, uma dança bem conhecida de algumas culturas africanas trazida das costas da Guiné, embora existam outras teorias também.
Gastronomia, uma das mais apreciadas do Caribe
A culinária da República Dominicana é uma das mais queridas do Caribe, talvez pela mistura de sabores e aromas distantes que lembram as origens deste país caribenho e seu povo mestiço.
Os taínos, os primeiros colonizadores da ilha, mais tarde chamada de Hispaniola pelos conquistadores europeus, deixaram sua marca na culinária atual com seus condimentos. Os espanhóis trouxeram seus pratos tradicionais, e os africanos trouxeram os seus próprios, adaptados às plantações cultivadas aqui.
Dessa união intercultural surgiram as receitas crioulas, sem perder sua essência original, e entre os alimentos mais utilizados na culinária nacional estão o arroz, o feijão (vermelho ou carioca), a banana-da-terra e a mandioca.

Uma das iguarias dominicanas mais arraigadas é o mangú, um purê suave de banana-da-terra verde, acompanhado de salame, queijo branco frito e ovo, originário da África Ocidental.
Embora em suas comunidades de origem fosse feito com tubérculos, especialmente mandioca e inhame, aqui foi substituído pela banana-da-terra e sobrevive como o café da manhã por excelência da população local.
O delicioso “fufu” africano, que mais tarde mudou de nome na República Dominicana, costumava ser servido pelos criados em suas cabanas com sobras de peixe, tomates e amendoim moído, coletados das ricas mesas dos europeus.
Com a libertação dos escravos, essas sobras foram substituídas por ingredientes cárneos, como frios ou carne-seca, além de queijos e ovos. Devido à sua simplicidade e alto valor nutricional, o mangú transcendeu barreiras sociais e agora pode ser consumido no restaurante mais humilde ou em um hotel de luxo.
Devido ao seu valor histórico e referencial, desde 2021, o Dia Nacional do Mangú é comemorado todo segundo domingo do Mês da Pátria (26 de janeiro a 9 de março).
Invisibilidade do legado africano
Núñez disse à Prensa Latina que os atuais grupos de poder impõem sua cultura na República Dominicana e, embora mostrem a cultura anglo-saxônica, omitem os afrodescendentes, que estão ausentes no teatro, por exemplo, e também não são ensinados aos alunos.
Nas próprias escolas, diz ele, a cultura afro-dominicana, que é tão rica, é excluída, enquanto um discurso “anti-negro” é imposto.
Tudo o que está associado ao tambor, ele argumenta, vem do lado oeste da ilha, ou seja, do vizinho e empobrecido Haiti, e não deve ser valorizado.
No entanto, ela reconhece o trabalho de Luis Días, com suas canções da terra e dos salmos, e de Xiomara Fortuna, para quem a história da escravidão e a falta de educação sobre a herança afrodescendente afetam a forma como os dominicanos percebem sua identidade racial.
Nesse sentido, o censo nacional mais recente revelou que apenas 33% dos dominicanos se identificam como negros ou pardos, o que, segundo analistas, demonstra uma confusão sobre identidade no país.
Nuñez também elogiou o músico dominicano Mario Rivera, reconhecido como um grande músico de jazz nos Estados Unidos e um mestre da fusão rítmica, observou.

Ele também mencionou a Irmandade do Espírito Santo, conhecida como “Los Congos de Villa Mella” (município de Santo Domingo Norte), um grupo musical que representa, segundo ele, parte fundamental da identidade dominicana.
Os Congos da Irmandade do Espírito Santo foram reconhecidos em 2001 como Patrimônio Cultural Oral e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Cultura, a Ciência e a Educação (UNESCO).
Diante dessa realidade, a pesquisadora defende a importância de valorizar as grandes contribuições da África para a humanidade, conhecer e aceitar sua cultura e banir os preconceitos forjados ao longo da história nacional.





