Explicar tal desaparecimento a jovens do ensino médio presentes no auditório exigiu definição prévia de alguns termos elementares. Cada arquivo, local que guarda documentos, tem seu acervo, que é a totalidade dos documentos organizados em coleções – conjunto de escritos e manuscritos, mapas, fotos, filmes e registros sonoros, com temática comum, mas origens diferentes. O fundo conserva documentos de qualquer natureza reunidos por uma só entidade em razão de suas funções. Finalmente, o códice, o avô do livro impresso, é um manuscrito antigo com páginas encadernadas..jpg)
Se tais problemas ocorrem em grandes arquivos, o que dizer dos pequenos? Um dos filhotes do Projeto Guia de Fontes foi o levantamento imediatamente posterior que fizemos em arquivos cartoriais, paroquiais e municipais do Vale do Paraíba, parando em cada município de Rezende até Campos, assim como no litoral, com uma equipe de oito bolsistas do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ. A pesquisa durou mais de um ano, seu produto final foi o livro paradidático Aldeamentos Indígenas do Rio de Janeiro. Mas foram muitos os problemas encontrados especialmente em arquivos cartoriais e municipais, estando os paroquiais razoavelmente conservados.
Diante do impasse, um dos bolsistas me indagou como selecionar a documentação a ser consultada. – A escolha agora só pode ser aleatória – eu disse. Ele pegou na prateleira a primeira caixa à altura de sua mão que, por sorte, continha um processo de mais de 100 páginas contra Manoel Silvano (1817-1860), “índio Coroado sentenciado a uma pena de 12 anos de prisão com trabalhos forçados pelo júri da Vila de São Fidélis no dia 11 de maio de 1859”. Morreu um ano depois na Cadeia da Armação, em Niterói, vítima de febre tifoide.
Apesar de todos os percalços, a equipe de oito bolsistas da Uerj compartilhou o prazer físico, a alegria e o entusiasmo na descoberta de documentos. “Quem tem o sabor do arquivo procura arrancar um sentido adicional a essa busca. A emoção é um instrumento a mais para polir a pedra, a do passado, a do silêncio” – escreve a historiadora francesa Arlette Farge, do CNRS, que adverte, no entanto, sobre as inúmeras possibilidades que acabam interferindo diretamente na qualidade da escrita da história. A situação começa a mudar com a formação de mestres e doutores indígenas em História.
Arlette Farge. Le Goût de l’archive. Paris, Le Seuil, 1989 “O sabor do arquivo” (São Paulo. Edusp, 2009).