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Postado em 17/09/2016 11:03

O que a Índia (dos BRICS) está realmente fazendo?

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© Ivan Sekretarev / Reuters

 

Pepe Escobar, RT
https://www.rt.com/op-edge/359428-brics-member-Índia-escobar/#.V9uliH2FAao.facebook
Tradução: Vila Vudu
“A divulgação do vídeo com um Serra tatibitate, sem saber os países que compõem os BRICS, incluindo a Argentina e não sabendo sequer o país representado por cada letra da sigla, acende um sinal amarelo. É possível que a Junta Governativa do país tenha colocado como chanceler uma pessoa com sinais avançados de decrepitude.”
17/9/2016, 8h58, Luis Nassif, GGN,
“É possível que Serra esteja neurologicamente decrépito” (e vídeo)**
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Você talvez jamais tenha ouvido falar de LEMoA. Em termos do Sul Global, o Acordo do Memorando de Trocas em Logística [ing. Logistics Exchange Memorandum Agreement, LEMoA) é documento realmente importante, assinado no final de agosto pelo Ministro da Defesa da Índia Mohan Parrikar e Yo El Supremo do Pentágono Ash Carter.
Como Carter divulgou já quatro meses antes de o acordo ser assinado, o Acordo LEMoA declara que forças dos EUA “podem” [ing. “may”] podem ser alocadas na Índia dadas algumas circunstâncias especiais. Essencialmente, Nova Delhi permitirá que Washington reabasteça e mantenha contingentes e equipamento em bases indianas – mas só em caso de guerra.
Em teoria, a Índia não está oferecendo qualquer base militar para uso permanente pelos EUA. Mas, considerando o currículo do Pentágono, tudo aí pode mudar num segundo.
Não surpreende que os nacionalistas indianos se sintam ultrajados – insistindo que não há ganho estratégico possível para a Índia, nesse ‘negócio’, especialmente no caso de nação que muito se orgulha de ser fundadora do Movimento dos Não Alinhados, MNA [ing. Non-Aligned Movement, NAM].
Essa intimidade promíscua com o Pentágono acontece justamente poucos meses depois de o primeiro ministro Narendra Modi – a quem os EUA negaram visto de entrada no país por quase uma década – discursou numa sessão conjunta do Congresso sob uma aura de glória, declarando que Índia e os EUA são “aliados naturais” e clamando por parceria ainda mais próxima.
Modi mergulhou de cabeça. A ponto de se referir à influência de Gandhi sobre a estratégia de desobediência civil não violenta do Rev. Martin Luther King – o que lhe valeu uma ovação, com os presentes em pé, no Capitol Hill.
A parceria “mais íntima” envolve, sim, questões militares e nucleares. Como Modi fez lembrar ao Congresso – que não precisa que alguém o faça lembrar essas coisas –, o complexo industrial-militar vendeu armas à Índia “de quase zero a $10 bilhões, em menos de uma década.”
É há também o negócio de cooperação nuclear EUA-Índia, que abre uma janela para empresas norte-americanas construírem e abastecerem reatores nucleares indianos. Eventualmente, Washington talvez até venha a partilhar “alguma” – e o conceito operativo aí é “alguma” – tecnologia militar com Delhi.
Geopoliticamente, tudo isso converge para o que aconteceu recentemente no Mar das Filipinas, com EUA, Japão e Índia reunidos em manobras de guerra submarina e defesa aérea; prova concreta do “pivô para a Ásia”, que volta a cutucar a “ordem” da segurança naval para contra-atacar – e quem mais poderia ser? – a China.
Modi e seu yoga geopolítico
Mas nada é assim tão preto no branco – do ponto de vista da Índia. Não é segredo que setores chaves da diáspora indiana nos EUA estão bem integrados com no consenso e nos mecanismos corriqueiros de suspeita hegemonia como o Conselho de Relações Exteriores [ing. Council on Foreign Relations] e a Rand Corporation. Mas o jogo de Modi é muitíssimo mais sofisticado.
A prioridade de Modi é consolidar a Índia como principal potência do Sul da Ásia. Só assim terá cacife para antagonizar Washington. É o contrário do que parece: Modi está trazendo os EUA para bordo de sua extraordinariamente ambiciosa estratégia de Make in India (“uma ampla iniciativa nacional concebida para facilitar o investimento; promover a inovação; estimular o desenvolvimento de competências e habilidades; proteger a propriedade intelectual; e construir infraestrutura manufatureira de primeiríssima qualidade.”)
Naturalmente, as empresas dos EUA – apoiadoras peso-pesado da Parceria Trans-Pacífico, PTP – babam já, antecipando gordos lucros. O movimento é semelhante ao que fez a China há décadas, mas agora com ênfase em “proteger a propriedade intelectual”, para atrair os obcecados com a PTP.
Outro objetivo geopolítico de Modi é impor aos EUA a Índia – não o Paquistão – como parceiro ideal confiável/racional no Sul da Ásia. É arriscado, porque para o Pentágono as incontáveis declinações de “guerra ao terô” (como dizia Bush) no AfPak estão sendo configuradas de facto como uma Operação Liberdade Duradoura Para Sempre.
E há então, mais uma vez, o ângulo militar: a Índia está diversificando seus fornecedores de armas – a maior parte das quais são compradas da Rússia –, e incluindo os EUA, mas não tanto quanto poderia parecer; apenas o suficiente para gerar um cuidados equilíbrio.
Trata se de tentar um difícil equilibramento entre EUA e BRICS. Como Pequim já admitiu em termos claríssimos, “os BRICS enfrentam o risco de entrar em processo de cooperação regressiva, não progressiva, por efeito de circunstâncias complexas”.
Aqui, precisamente, parece encaixar-se a ‘circunstância’ de o governo golpista de Temer no Brasil (ele todo escandalosamente regressista) ter nomeado um ministro de Relações Exteriores “neurologicamente decrépito” (e vídeo) [NTs]
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Pode-se dizer que esse é o mais bem acabado eufemismo diplomático de todos os tempos. E, isso, enquanto Washington parte sem qualquer freio ou limite para conter a China atrás da Primeira Cadeia de Ilhas [ing. First Island Chain] no Mar do Sul da China, ao mesmo tempo em que não há muito que Delhi possa fazer para conter Myanmar dando a Pequim acesso total ao Oceano Índico através do Oleogasodutostão, portos e ferrovia de alta velocidade.
Conheçam o multimodal Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (ing. INSTC)
Na próxima reunião dos BRICS em Goa, mês que vem, algumas dessas intrincadas complexidades geopolíticas serão discretamente discutidas a portas fechadas (com a colaboração de Serra, ministro neurologicamente decrépito do governo golpista…). Os BRICS podem estar em estado de desarranjo, com o Brasil enfrentando ataque de mudança de regime, a Rússia enfrentando sanções e a Índia flertando com os EUA. Mas os BRICS ‘grandes’ ainda permanecem comprometidos com alguns importantes movimentos institucionais, como o Novo Banco de Desenvolvimento, o impulso para negociar em suas respectivas moedas e uma estratégia de vários braços de impulso político/econômico na direção de um mundo multipolar.
É o que se vê com perfeita clareza, se se examina uma das mais crucialmente importantes – e menos noticiada – histórias de integração na Eurásia: a simbiose entre Índia e Irã. Delhi conta com Teerã para subir a sua aposta numa economia movida a gás natural e, também, que se beneficie, no longo prazo, com a ponte – persa –perfeita para os mercados centro-asiáticos.
O nodo chave é, claro, o porto de Chabahan. O ponto alto de uma visita que Modi fez a Teerã há quatro meses foi assinar um contrato entre as empresas India Ports Global Private Limited e a Arya Banader do Irã. Trata-se de “desenvolvimento e operação em dez anos, de dois terminais e cinco atracadouros com equipamento para manobrar cargas “.
Há muito mais: desenvolvimento de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) e conexões rodoviárias e ferroviárias do Irã ao Afeganistão e dali adiante, para a Ásia Central. Com isso, a Índia terá acesso direto ao Afeganistão, contornando o Paquistão. E não faz mal algum que Delhi e Kabul já sejam parceiras estratégicas.
Chabahar fica a apenas 500 km, ao leste do ultraestratégico Estreito de Ormuz.
Em futuro próximo, poderemos ter uma configuração na qual a Marinha da Índia terá direito de usar o porto de Chabahar, enquanto a Marinha Chinesa terá direito de usar Gwadar, no Paquistão, a apenas 150 km por mar a leste de Chabahar. Nada que um diálogo entre BRICS – ou na Organização de Cooperação de Xangai – não consiga manter em mar tranquilo.
Para o Irã, é jogo garantido de “ganha-ganha”. O Irã não só estará conectado ao projeto “Um Cinturão, Uma Estrada” dos chineses; também consolidará ainda outro corredor de comércio/transporte na Eurásia, o Corredor (intermodal) Internacional de Transporte Norte-Sul (ing. International North-South Transportation Corridor (INSTC) entre o Oceano Índico e a Ásia Central. Membros chaves desse INSTC são ninguém menos que Irã, Índia e Rússia. Aí está. Mais uma vez, BRICS e OCX se interpenetram.
O grande quadro que se vê a frente, sob o planejamento de longo prazo de Modi não parece incluir uma Delhi submetida ao papel de flagrante vassalo de Washington. A Índia precisa de estabilidade garantida com todos os seus parceiros chaves – de EUA a China, considerando-se que o plano máster é elevar 1,3 bilhão de indianos até bem perto dos padrões de vida da classe média chinesa.
A China deu a partida. A Índia talvez ainda precise de tempo até 2050 para chegar lá. Entrementes, não interessa à Índia unir-se ativamente à política dos EUA de ‘contenção’ ou cerco contra a China, chamem de “pivô” ou de “reequilibramento”. Vê-se a Índia mais, de maneira gandhiana, praticando a fina arte de neutralidade não violenta inabalável.*****

 

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