O primeiro que disse Murillo depois de assumir o cargo foi que desataria a ‘caça’ de Juan Ramón Quintana, ex-ministro da Presidência de Evo. Culpa-o de sedição e terrorismo.
Curiosamente, é o mesmo que menciona agora ao referir-se ao grupo solidário procedente da Argentina que veio para documentar os atos de repressão contra as mobilizações populares e as denúncias sobre violações dos direitos humanos reportadas no país depois do golpe.
‘Recomendamos àqueles estrangeiros, que estão chegando como pombinhas da paz para tentar incendiar o país: andem com cuidado, estamos-lhes observando’, advertiu ontem.
Mas foi um pouco mais longe em suas ameaças quando enfatizou que ‘o primeiro passo em falso que derem tentando fazer terrorismo, sedição vão se ver com os policiais (…) Tolerância zero, e depois não digam que é um abuso (…)’.
A comitiva argentina é integrada por advogados, ex-juízes e voluntários, e é encabeçada pelo dirigente social Juan Grabois.
Também a ex-presidenta do Senado Adriana Salvatierra assegurou ontem que seguem as detenções arbitrárias dos que se opõem à afrenta antidemocrática consumada faz quase três semanas.
Nesse sentido, demandou garantias para que Morais possa acompanhar a campanha eleitoral que se aproxima e na qual o Movimento Ao Socialismo (MAS), partido que dirigiu os destinos da nação nos últimos 13 anos, terá que enfrentar um cenário adverso.
Contra Evo, asilado no México, o governo da autoproclamada Jeanine Áñez lançou acusações por ao menos 10 delitos, entre eles terrorismo, e uma notificação azul de Interpol, que pretende abrir a porta legal para recopilar informação sobre o líder indígena no marco da denunciada perseguição judicial.
A senadora do MAS expressou que a esta ausência de garantias se soma a falta de processos penais contra os que provocaram a morte a mais de 30 pessoas no contexto de violência e repressão gerada aqui.
Enquanto, vão-se desocupando as ambições de poder. O presidente do Comitê Cívico pró Santa Cruz, Luis Fernando Camacho -um dos principais promotores do golpe de Estado que derrubou Evo-, apresentou ontem sua carta de renúncia ao cargo para começar sua corrida eleitoral.
‘Presidir esta instituição é um sonho de toda a vida (…); mas tenho-a que abandonar por outro sonho, outro anseio mais forte, ser presidente da República de Bolívia’, confessou em sua carta.
Inclusive, revelou que durante o desemprego cívico que dirigiu contra Evo ‘era necessário’ dizer que não ia ser candidato para somar apoio, ou seja, mentiu.
Fontes unidas a Camacho assinalam que nas seguintes horas se espera a chegada a Santa Cruz do presidente do Comitê Cívico de Potosí, Marco Pumari, que aponta a ser seu colega de fórmula no binômio presidencial.
Desde a saída forçada de Evo a raiz de uma onda de violência opositora, somado ao motín policial e a exortação das Forças Armadas à demissão do chefe de Estado, Bolívia sumiu-se em uma crise institucional e política que dista ainda dessa ‘etapa final da pacificação’, anunciada por Áñez.



