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sábado, 22 junho, 2024

Bicentenário do 2 de Julho: conheça a história da Independência do Brasil na Bahia

A festa do Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia tomou as ruas de Salvador na manhã deste 2 de Julho – Fernando Vivas/GOVBA

De como um exército popular expulsou os portugueses do Brasil e consolidou a independência do país

Gabriela Amorim

Salvador |

Quem mora no Recôncavo e capital sabe: desde o dia de São João até inícios de agosto, chove quase diariamente na região. Mas, no 2 de Julho de 1823, o dia amanheceu ensolarado. Feito tão importante que mereceu figurar na primeira estrofe do Hino da Bahia. Sob o sol brilhante do 2 de Julho chegou a Salvador, vindo de diversas cidades do Recôncavo, o Exército Pacificador, um exército popular formado por negros libertos e escravizados, indígenas e mestiços pobres na batalha que selaria o fim do domínio português em terras brasileiras.

Ao contrário do que aprendemos nos livros de história, a Independência do Brasil não se deu exatamente no Grito do Ipiranga, as batalhas pela consolidação dessa independência se seguiram ainda por quase um ano até o 2 de Julho de 1823. E é por isso que a Bahia comemora hoje o Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia.

“Esse ato, digamos assim, simbólico [do 7 de Setembro] não foi seguido por todas as províncias do Brasil naquele momento. É o caso da Bahia, que vivia uma tensão significativa”, explica o professor Paulo de Jesus, professor de História da Bahia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Ele conta que, então, havia um grupo de grandes comerciantes que desejavam a continuidade de Império português colonizando o Brasil; do outro lado, senhores de engenhos, proprietários de terra, pequenos comerciantes e alguns médicos e advogados defendiam a separação definitiva. Estes setores, no entanto, provavelmente não lutaram no Exército Pacificador.


Os caboclos e das caboclas no desfile do 2 de Julho representam a importante participação popular nas batalhas / Manu Dias/GOVBA

Apagamento do povo

O professor Paulo de Jesus explica que só há bem pouco tempo a formação popular do exército passou a ganhar mais visibilidade na história oficial. “É muito pautado pelas lutas sociais, sobretudo o movimento social negro, que estes outros sujeitos passaram a ser reconhecidos e divulgados publicamente”, afirma.

Régia Mabel da Silva Freitas, pós-doutora em Educação pela USP, doutora em Difusão do Conhecimento pela UFBA e pesquisadora de Relações Raciais, aponta o racismo como base para essa tentativa de apagamento. “Existe um total apagamento na historiografia brasileira do heroísmo do povo no 2 de Julho, porque a branquitude não tem interesse em reconhecer os legítimos Pretagonistas Ancestrais: povos indígenas, escravizados, escravizadas, libertos e libertas”, acrescenta.

Neste sentido, as figuras da cabocla e do caboclo nos desfiles do 2 de Julho não são mera alegoria, mas sim a representação dessa presença popular nas batalhas que levaram à Independência do Brasil. “Nós tivemos homens e mulheres negros, mestiços e indígenas que participaram de maneira decisiva das lutas. Nós tivemos destacamentos formados especificamente por indígenas; batalhões constituídos por mestiços e por negros”, ressalta Paulo de Jesus.

Ele explica que pessoas negras escravizadas fugiam de seus senhores e se alistavam no chamado Exército Pacificador para tentar com isso alcançar a Liberdade. Pós 2 de Julho, muitas dessas pessoas buscaram o governo para que reconhecesse sua liberdade. Mabel Freitas destaca que foi graças à engenhosidade do Quartel Popular da Inteligência Baiana que vencemos as batalhas em Salvador, Cachoeira, Inhambupe, Itaparica, Feira de Santana, Maragogipe, Santo Amaro, São Félix, Santo Antônio de Jesus, Valença e em tantos outros municípios.


Os sertanejos no desfile lembram que não foi só em Salvador que as batalhas pela Independência se desenrolaram na Bahia / Manu Dias/GOVBA

“É inacreditável que em pleno 2023 as pessoas ainda desconfiem da veracidade do brilhantismo de Maria Felipa, uma marisqueira negra itaparicana que liderou mais de 40 vedetas, dentre elas Brígida do Vale, Joana Soaleira e Marcolina, que surraram com cansanção os marotos e atearam fogo nos navios portugueses”, diz.

Menos conhecida do que a atuação de Maria Felipa e Maria Quitéria, heroínas do 2 de Julho, foram as chamadas “Caretas do Mingau”, de Saubara. “É inaceitável que a astúcia delas não seja sequer mencionada nos livros didáticos; contribuindo, assim, para a perpetuação de uma educação hegemônica, eurocentrada, pautada, como sempre, nas falácias colonialescas”, ressalta a pesquisadora Mabel Freitas.

As Caretas do Mingau foram um grupo de mulheres que se vestiam com lençol branco e chapéu de palha e carregavam panelas para assombrar as tropas portuguesas com gritos e chocalhos, enquanto levavam comida, armamento e informações para os filhos, irmãos e maridos que compunham o Exército Pacificador. “É preciso reconhecer que o povo foi protagonista neste nosso 2 de Julho”, defende a pesquisadora.

Apagamento das lutas

Mas por que não aprendemos toda a história da independência nas escolas? O professor Paulo de Jesus destaca que há um interesse em fazer crer que esse processo se deu sem conflitos, “com Dom Pedro I montado num cavalo branco, num alto de uma colina de espada em riste, dizendo Independência ou Morte”. A omissão de tantas batalhas e mortes, de acordo com ele, serviu à criação da imagem de uma nação pacífica.


Mabel de Freitas destaca o papel de mulheres da capital e do interior nas lutas pela independência e também seu apagamento dos relatos oficiais / Arquivo pessoal

“Interessa a uma elite dirigente, a determinados grupos políticos que prezam por uma conciliação eterna, desde que mantidos os seus privilégios”, complementa. E, assim, se omitiu de uma história oficial os sacrifícios impostos à cidade de Salvador, por exemplo, cuja população foi expulsa pelo exército português que causou intenso terror aos seus moradores.

Mabel Freitas lembra que essas batalhas não se deram apenas em Salvador, só na Ilha de Itaparica foram quatro assaltos ininterruptos. E foi também na ilha, em 07 de janeiro de 1823, que se iniciou a derrota portuguesa. “É importante destacar que nós, baianas e baianos, guerreamos de 19 de fevereiro de 1822 até o dia 02 de julho de 1823, quando ocorreu a batalha final”, ressalta.

Essa série de batalhas foi aos poucos minando o experiente exército português que já havia inclusive enfrentado as tropas de Napoleão em solo europeu. Além disso, cercados pelo Exército Pacificador que se espalhou pelas cidades do Recôncavo ao redor da capital, o exército europeu sofreu com a fome e a falta de armamentos.


Paulo de Jesus ressalta que o exército brasileiro que derrotou os portugueses em 2 de Julho de 1823 era formado pelas camadas populares / Arquivo pessoal

De acordo com alguns historiadores e historiadoras, foi assim que, na famosa batalha de Pirajá, por volta de novembro de 1822, o exército português, com 2.000 homens, foi derrotado pelo exército brasileiro com cerca de 1.200 pessoas. “E é importante que a gente perceba que uma parte desses desses combatentes do Exército Pacificador não tinha nenhuma experiência de guerra”, destaca Paulo de Jesus.

O professor da UFRB defende ainda que acho que a Independência só se consolidou de fato devido à participação do povo, principalmente, da população negra, mestiça, indígena e pobre. “Eu sinceramente espero que, um dia, o 02 de Julho seja feriado nacional e não apenas estadual”, finaliza Mabel Freitas.

Fonte: Brasil de Fato

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