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quarta-feira, 12 junho, 2024

Balcão de secos e molhados do Lira

César Fonseca*

O negócio está escancarado.

A filosofia predominante na Câmara dos Deputados é o dinheiro.

Dinheirismo.

Se não tiver grana na frente, a mercadoria, o voto, não sai.

Emendas parlamentares, emendas de bancadas, emendas de comissão: no circuito pelo qual os projetos precisam passar para serem aprovados, a lei é uma só: pingar a grana.

O que menos importa é debater o assunto do ponto de vista das idéias.

Os parlamentos se primam por ser locais onde a circulação de ideias e argumentos se unem para formar convicções políticas, morais, éticas, etc.

Esquece, isso é coisa da antiga.

Agora, não, é outro papo.

Para o assunto andar, é preciso molhar as mãos de vossas excelências  com o vil metal, expresso em emenda parlamentar.

A entrega da mercadoria, a tempo e a hora, depende, portanto, desse pressuposto fundamental, como diria Tom Jobim, quando, nos anos 1960, foi contatado por Lúcio Rangel, para fazer música solicitada por Vinícius de Moraes, segundo depoimento de Sérgio Cabral: “Tem dinheirim nesse negócio aí”.

O craque da Bossa Nova, que iria, junto com o poetinha diplomata, explodir no mundo com Garota de Ipanema, na voz de Frank Sinatra, era, naquela ocasião, um tremendo Durango Kid, tocando na noite do Rio, em meio a fumaças e cervejas, nas boates, para comprar o lei das crianças etc.

Mas, então, é isso, voltando ao Armazém do Lira: a galera no plenário, de boca aberta, quer mamar.

E o apetite é profundo.

Lula, hoje, teve que soltar R$ 1,7 bi, para preservar organogranama do seu ministério com 37 pastas.

Caso contrário, o desenho ministerial da Esplanada, voltaria a ser de 23 ministérios, conforme deixou Bolsonaro.

Seriam eliminados os que Lula criou para conformar base social e econômica forte: Povos Indígenas, Cultura, Igualdade Racial, Transportes e Desenvolvimento e Indústria.

Já foram liberados, segundo Planalto, R$ 4,5 bilhões para o Armazém do Lira.

Tem, ainda, em estoque, outros R$ 9,8 bilhões, que corresponderiam ao espúrio Orçamento Secreto, considerado ilegal pelo STF.

A Câmara, na gestão Arthur Lira, virou esgoto.

Lula tentou romper o cerco, para impedir derrota do chamado marco temporal, para demarcação das terras indígenas.

Perdeu, fragorosamente, de lavada.

O avisão foi dado.

Se não acelerar liberação de grana para o Armazém do chefe, que comanda 150 parlamentares, do chamado Centrão, não conseguirá governar, e o drama se arrastará numa briga sem fim, comprometendo o ano parlamentar.

Acossado, o titular do Planalto, sem maiores delongas, resolveu, nessa semana, tapar o nariz é atravessar o mar de merda, para ver se consegue se salvar.

No limite da transação, cada vez mais espúria, emoldurada no formato legal, haverá ou não solicitação ao STF para colocar ordem no cabaré legislativo, como aconteceu com o orçamento secreto?

 

*César Fonseca é repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

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