Desde janeiro, os Estados Unidos teriam imposto mais de 240 sanções contra Cuba
Valter Xéu*
Vários analistas têm apontado as razões pelas quais os Estados Unidos estariam adiando uma eventual intervenção militar em Cuba.
Autoridades e pessoas familiarizadas com as deliberações do governo norte-americano ajudam a explicar o que mais preocupa Washington em relação à ilha. A possibilidade de uma operação militar dos Estados Unidos contra o governo cubano teria perdido força na estratégia imediata do governo de Donald Trump.
O principal motivo não seriam as capacidades defensivas de Havana, mas uma questão para a qual Washington ainda não teria encontrado uma resposta convincente: quem governaria Cuba no dia seguinte?
Uma reportagem da Bloomberg, baseada em informações de autoridades e pessoas familiarizadas com as discussões internas do governo norte-americano, indica que a Casa Branca estaria priorizando as sanções e a pressão econômica. A intenção seria enfraquecer o aparato estatal e militar, estimular divisões dentro da elite governante e forçá-la a negociar.
A possibilidade de uma intervenção armada, contudo, não estaria descartada. Derrubar a atual liderança cubana sem que exista uma alternativa capaz de assumir o governo do país representaria enormes riscos. Para Washington, um colapso caótico a apenas 145 quilômetros da Flórida poderia criar um problema ainda mais grave do que aquele que se pretende resolver.
O vácuo de poder em Cuba preocupa Washington
Diferentemente da Venezuela, onde o governo Trump realizou, em janeiro, uma operação que resultou na captura de Nicolás Maduro, em Cuba não haveria uma figura claramente identificada para liderar uma eventual transição. Tampouco existe uma força de oposição que controle instituições, território ou estruturas armadas e que possa assumir imediatamente as funções do Estado.
Esse possível vácuo de poder abre espaço para diferentes cenários considerados perigosos por Washington. Um colapso repentino do governo poderia desencadear confrontos entre setores das Forças Armadas, órgãos de segurança, dirigentes comunistas e grupos civis.
Uma ação militar rápida, portanto, poderia inaugurar um período de ingovernabilidade, violência e até ocupação, sem qualquer garantia de que, ao final do processo, surgiria uma democracia estável.
Sanções ganham espaço diante da opção militar
Diante desses riscos, Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, estariam optando por ampliar gradualmente a pressão sobre os setores que sustentam o governo cubano.
Entre os principais alvos estariam as receitas controladas pelas Forças Armadas, especialmente aquelas relacionadas ao conglomerado empresarial GAESA, além do turismo, das remessas financeiras e do acesso de Cuba ao fornecimento de energia.
Segundo a Bloomberg, Washington pretende reduzir ao máximo os recursos disponíveis para a elite governante e estimular divisões internas. A aposta seria levar autoridades e militares cubanos à conclusão de que manter o atual sistema se tornou mais custoso do que negociar uma transição ou aceitar reformas econômicas e políticas.
Desde janeiro de 2026, os Estados Unidos teriam imposto mais de 240 sanções contra Cuba e interceptado pelo menos sete petroleiros. Segundo as informações citadas, as importações de energia da ilha teriam caído entre 80% e 90%, redução que ajuda a explicar o agravamento dos apagões e da escassez de combustível.
A estratégia, entretanto, também produz graves consequências para a população.
As Nações Unidas têm alertado para a escassez de alimentos e medicamentos, além dos cortes de energia que afetam hospitais e centros de tratamento de câncer. Havana acusa Washington de promover uma punição coletiva contra a população cubana, enquanto o governo Trump sustenta que suas medidas têm como alvo a liderança política e militar do país.
Essa estratégia permite a Washington combinar a pressão econômica com a ameaça permanente de uma escalada. Ao mesmo tempo, amplia a pressão psicológica sobre a liderança cubana, que não sabe até onde Trump estaria disposto a avançar caso as sanções não produzam os resultados esperados.
Por enquanto, a Casa Branca parece preferir um enfraquecimento e uma fragmentação interna do governo cubano a provocar sua queda diretamente por meio de uma ação militar.
A inexistência de uma liderança alternativa consolidada, o risco de uma nova crise migratória e o temor de transformar Cuba em um território marcado pela instabilidade e pela ingovernabilidade funcionam como importantes fatores de contenção.
A nova abordagem não representa necessariamente uma moderação da postura dos Estados Unidos em relação a Havana, mas, sobretudo, uma mudança de método.
Washington continuaria buscando enfraquecer o governo cubano, agora por meio de um processo de estrangulamento econômico destinado a forçar negociações, divisões internas ou reformas políticas e econômicas.
A hipótese de uma invasão estaria, portanto, adiada — mas não necessariamente descartada. Sua viabilidade dependeria da evolução da crise, dos efeitos das sanções e, principalmente, do eventual surgimento de uma força política capaz de assumir o controle do país após a queda do atual governo.
*Com agências


