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domingo, 19 maio, 2024

As supostas “reservas” de gás natural e a EUtanásia EUropeia

Jorge Vilches [*]

Sir Isaac Newton x Comissão Europeia

Esquema do armazenamento de GN no Carriço.

Há uma grande quantidade de artigos revistos por pares (peer-reviewed), documentos publicados em revistas internacionais especializadas de petróleo & gás sobre “grandes volumes” teóricos de supostas “reservas” europeias de gás natural. Também supostamente, tais reservas “resolveriam” a absolutamente desnecessária crise europeia de gás. Além disso, há “cálculos” muito curiosos feitos à pressa com estimativas grosseiras, além de blá com o mesmo prognóstico em mente. Mesmo alguns membros da Comissão Europeia (CE) estão neste registo descrevendo uma perspectiva altamente otimista sobre quanto tempo (meses!) as reservas de gás natural (GN) da Europa “facilmente” durariam depois de a Rússia deixar de fornecer a sua tradicional e altamente confiável (e barata) matéria-prima do GN.

A parte difícil, porém – nunca explicada por burocratas ignorantes – é exatamente como tais reservas de GN seriam forçadas a sair do seu armazenamento atual sem qualquer pressão de fluxo do gás russo a empurrá-las para fora, conforme exigido pela mecânica de fluidos de Isaac Newton, que se estivesse vivo hoje seria obviamente um duro adepto do Brexit.

Física do ensino secundário

O problema começa quando tolos e ignorantes sonham com a ideia de que gás natural em reservatórios pode ser usado como um substituto a 100% para o fornecimento do GN que flui. Simplesmente não pode, ponto final. Na realidade, Deus inventou as reservas de GN como um suplemento para – não um substituto – do GN que flui no período de alta procura (inverno) a fim de que as reservas mais baratas de gás armazenadas durante o período de baixo consumo (verão) pudessem ser adicionadas para ajudar a satisfazer a alta procura do inverno. As reservas de gás servem para nada mais do que isto e, definitivamente, não substituem a matéria-prima que flui.

Entrar reservas de gás natural

Obviamente, é muito difícil saber exatamente que tipos e recursos de instalações de “armazenamento” de GN os diferentes países europeus têm atualmente disponíveis. Com certeza, essas instalações de armazenamento europeias de gás são heterogéneas e também variam de país para país. E também sabemos que, neste caso, a física do ensino secundário ainda importa muito. Assim, muitos/a maior parte dos reservatórios com pressão acima da pressão atmosférica normal, reservatórios enterrados altamente pressurizados, por si só não funcionarão como esperado a menos que uma entrada de gás – mesmo com muito baixas taxas de fluxo e pressão de entrada – seja constantemente mantida a partir do gasoduto russo… empurrando assim o gás armazenado para fora. Caso contrário, no caso de o gasoduto russo estar completamente desligado, a física newtoniana (quão irónico) não permitiria, por exemplo, retirar o GN do seu armazenamento atual, pois seria constituído um vácuo no reservatório tornando o fluxo de saída impossível.

Sem fluxo, como é?

Assim, como a sucção é impossível, uma vez que a entrada a partir dos gasodutos russos parou, está morta (o que a Rússia pretende fazer…), esse gás europeu armazenado não seria naturalmente deslocado ou “movido” para outro lugar, embora possa estar a ser necessário para gerar energia ou qualquer outra coisa. E se o fluxo de pressão do GN russo fosse substituído por qualquer outro gás ou mistura (de ar ou não) o gás puro já armazenado logo se misturaria e diluiria além do possível uso prático, pois as instalações e equipamentos europeus são contratualmente afinadas para o puro gás russo, nada mais…

Apocalypse now

As soluções parciais “possíveis” comprovadas para este enorme problema são três e apenas três, mas para as quais nunca existiu até agora uma tentativa que permitisse uma completa oferta diária europeia. Todas as três têm sérios problemas, incluindo o facto de o baixo volume de gás natural que pode ser extraído diariamente não corresponder às necessidades atuais de consumo europeu. Uma solução possível é ter um sistema de tanque de armazenamento “semelhante a um pistão”, pelo qual o gás já armazenado é “empurrado para fora” por uma enorme superfície semelhante a um pistão dentro de um tanque de armazenamento especial de “geometria variável”. Não podemos saber se essas instalações muito especiais de “seringa” já estão instaladas nos lugares certos e funcionando conforme necessário, mas provavelmente não estão. Geralmente, esses tanques são pequenos em comparação com o que a Europa precisa e apenas práticos para uso ocasional em industrias muito específicas. São muito raros, muito pequenos, caros, não confiáveis… e difíceis de operar.

A segunda (má) hipótese

A segunda possibilidade é armazenar GN sob ultra alta pressão, seja dentro de cavernas subterrâneas ou em tanques de superfície. Estes são terrivelmente caros, bem como superperigosos ao ponto de “não no meu quintal” (not-in-my-backyard) em locais urbanos. Requerem também toneladas de operação e manutenção especializadas. A entrega é muito lenta com muito gás residual que sempre é deixado para trás. O pico de procura de entrega com velocidade de escoamento mais alta só pode ser mantido momentaneamente. E à medida que o GN se esgota, a pressão de saída diminui exigindo ainda mais equipamentos e complicações, além de instalações e perícias complicadas, etc. A saída do GN implica necessariamente problemas de expansão aos quais se junta o do congelamento nas condições do inverno, levantando problemas altamente complicados de gestão de temperatura, algo que ninguém parece saber ou importar-se. Finalmente eles hão de pensar nisso, acredite em mim.

Nº 3 sem amuleto da sorte

A terceira possibilidade é tentar substituir o necessário fluxo de GN do gasoduto russo (logo ausente) com o fluxo de GNL dos terminais marítimos de GNL para “empurrar” o gás russo armazenado em tanques de superfície ou subterrâneos. Mas pôr em prática tais experiências não planeadas exige um enorme prazo (!!!) engenharia minuciosa, planos e especificações, muito financiamento, pessoal especializado e equipamentos, etc, etc, a fim de fazer a ligação atempada aos tanques de armazenamento atuais (ou reservatórios enterrados) conectando-os às fontes de GNL que de qualquer maneira não são suficientes para cobrir as necessidades europeias tal como estão as coisas agora. Portanto, não importa o quanto e o quando eles se apressem para concluir tais caóticos projetos e altamente caros – e arriscados – além de que a frota de transporte de GNL necessária a partir de fontes distantes está longe de ser encontrada, enquanto outubro e temperaturas muito mais frias estão a apenas duas semanas de distância.

GNL kaputt?

Além disto, falando sobre terminais de GNL para qualquer uso ou aplicação, é óbvio que todos eles são necessariamente arriscados no que os engenheiros chamam de “um potencial ponto de falhas”. Se, por quaisquer razões – navegação, operação, técnica, comercial ou qualquer outra – tais terminais de GNL estivessem “fora de ordem”… como diriam os alemães … seria um “kaputt” europeu ao GNL.

Pode correr, mas não se esconder

Todas as três possibilidades de armazenamento exigem distribuição adequada através da Europa (!!!), coleta de dados, financiamento, experimentação, ajuste fino, desenvolvimento de modelos 3D geológicos estáticos e dinâmicos, caracterização precisa do comportamento do armazenamento ao longo do tempo, análises de sensibilidade, avaliações de risco, cálculos de custo-benefício, estudos de factibilidade, engenharia, certificação da UE, ensaios, entrada em serviço, interligação para partilha entre países, etc, etc, etc.

Assim, a descrição acima resumida deve ter consequências imprevistas como acontece a cada dois meses na UE.

Reservas de três meses “à prova de inverno” de que ouvimos falar os espertalhões que sabem tudo, provavelmente seriam absurdas sem o impulso constante da entrada de gás pelo gasoduto russo pelo menos a uma taxa mínima de fluxo e pressão para mobilizar o gás já armazenado. Assim, sempre que ouvimos falar de supostas “reservas” europeias de armazenamento de GN, lembre-se que tais foram concebidas e implementáveis apenas se o fluxo de gás do gasoduto russo fosse constantemente mantido (agora não) com pelo menos um valor mínimo de fluxo e pressão.

Achatar a curva?

É claro que podemos supor que essas “reservas” de gás natural podem ajudar um pouco a Europa de alguma forma, de modos ainda não definidos. Ou talvez não, e a ideia é apenas “achatar a curva” um pouco, esticando a narrativa, mas ainda congelando a UE apenas duas semanas depois. Seja qual for a forma como os volumes europeus de reserva de gás são cortados ou fatiados, uma vez que a guerra da UE contra a Rússia é agora óbvia, neste inverno a Europa provavelmente terá de viver sem a compra direta de gás natural russo. Ou talvez a Europa acabe comprando GNL originado a partir de gás russo, mas liquefeito e vendido através de terceiros intermediários a um preço incrivelmente alto e disponível apenas numa base aleatória.

A (não) “perfeição” alemã

Esta não seria a primeira vez que um simples, mas grosseiro erro de cálculo ocorre numa escala enormemente grande. Durante a 2ª Guerra Mundial, a Luftwaffe infamemente errou nas suas capacidades de uma ponte aérea com fornecimentos e equipamento, para o General von Paulus isolado com o seu 6º Exército, para resistir e possivelmente superar as defesas russas em Stalingrado. Este dramático fracasso alemão permitiu a desastrosa derrota nazi na Batalha de Stalingrado e a perda de quase um milhão de soldados da Wehrmacht mortos, feridos, famintos ou presos como resultado do “caldeirão” em que o Exército russo os cercou, alcançando a vergonhosa rendição incondicional alemã. [NT]

[NT] Os números normalmente apresentados para esta batalha são muito inferiores. Mas o autor, tem razão referindo-se aos efetivos do 6º exército, desde o início da ofensiva no Verão de 1942, e por fim liquidados ou prisioneiros, excetuando feridos antes retirados para a Alemanha. A fanfarronice de Goering tem agora réplica nas exigências de Biden para não ser aberto o Nord Stream 2 e as “promessas” de abastecer a UE com o gás dos EUA.

Do mesmo autor:

[*] Escritor.

O original encontra-se em thesaker.is/the-euthanized-european-nat-gas-reserves/

Este artigo encontra-se em c

 

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