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domingo, 26 maio, 2024

AS FALSAS DICOTOMIAS POLÍTICAS – NOTAS À BEIRA DA MATRIZ NARRATIVA

Os gigantes da mídia social.

– “O Vale do Silício bloqueia os criadores de conteúdo não porque prejudiquem o bem público, mas sim porque eles discordam do governo dos EUA acerca de uma guerra”.

Caitlin Johnstone [*]
Você pode votar e debater livremente qualquer assunto… desde que não afete o funcionamento do império. Mas quando se trata do modo e das vias pelas quais dinheiro, armas e recursos movimentam-se pelo mundo, você de repente descobre que o seu voto não tem importância, que vale nada; e que sua posição não tem representação em nenhum fórum ou corpo governante.
O império permitirá que você discuta até ficar roxo de tanto falar sobre se alguém pode ou não fazer aborto, ou sobre se as minorias devem ter direitos civis. Eles podem até deixar você votar em decisões sobre esses assuntos. Mas ‘eventos’ como o expansionismo militar e a globalização e desregulamentação neoliberais escapam da cobertura dessas e de todas as ‘liberdades’.
O império depende de falsas dicotomias políticas – como Democratas versus Republicanos – para manter todos lutando por questões que não afetam o funcionamento do Império, de modo que a máquina imperial possa avançar ininterruptamente por dentro da massa da ralé local. Os Partidos políticos existem para fazer esse serviço, de fingir que se garantiriam voto e voz a ‘todos e todas’.
Os grandes meios de comunicações comerciais existem para manter todos hipnotizados por essas falsas dicotomias no nível do discurso e do debate. O ‘jornalismo’ fabrica guerras culturais que dividem a população ao meio, em torno de qualquer questão que não afete o Império. E da divisão em diante, alimentam continuamente esse debate.
As facções da “esquerda populista” de Bernie/AOC/TYT [Alexandria Ocasio-Cortez/The Young Turks] e da “direita populista” de Trump/Tucker Carlson estão lá para atrair partes da população que se tornem curiosas demais sobre os mecanismos mais brutos do império, de modo a garantir que os ‘curiosos’ sejam empurrados de volta à falsa dicotomia política, e parem de fazer perguntas não autorizadas.
Toda a classe política/jornalística existe para esse propósito: não para ajudar as pessoas, não para lutar pelos direitos civis, não para criar uma população bem informada para que a democracia funcione. Sim para impedir que as luvinhas sujas das massas sujas se aproximem das verdadeiras alavancas do poder. A classe política/jornalística só tem essa função. Não presta para mais nada.
A mídia social são onde as pessoas ‘atuam’, para fingir que estão preocupadas com questões de ponta da guerra cultural, para não ter de admitir para si mesmas que estão realmente preocupadas, isso sim, com o colapso econômico, social e ambiental e com o risco crescente de uma guerra nuclear.
A mídia de massa tem pressionado agressivamente para impor uma única narrativa sobre a Ucrânia; o Vale do Silício está censurando pessoas que discordam do governo dos EUA sobre a Ucrânia; as autoridades dos EUA admitiram que fazem circular desinformações sobre a Ucrânia. Mas você, cidadão, só se deve preocupar com os malefícios da propaganda russa.
As pessoas não estão entendendo o significado de o Vale do Silício estar a bloquear os criadores de conteúdo, não porque supostamente prejudiquem o bem público, mas porque discordam do governo dos EUA sobre uma guerra.
A censura que estamos vendo contra a Ucrânia é uma escalada de selvageria sem precedentes.
Eu me opus fortemente à censura que o Vale do Silício impôs sobre questões relacionadas ao Covid. Daquela vez, censura imposta sob o pretexto de que os que foram censurados estariam ameaçando a segurança pública. Agora não existe nem o pretexto. É só “Não devemos permitir que as pessoas tenham pensamentos errados sobre uma guerra”.
A censura financeira, como a desmonetização do YouTube e o corte de pessoas do PayPal, pode ser tão eficaz para silenciar vozes, quanto a censura direta, porque prejudica a capacidade das pessoas para criar conteúdo em tempo integral. Eu sei que não poderia fazer o que faço sem o apoio dos patrocinadores.
Eles já nem fingem que estariam impondo esse tipo de censura para o bem público. Fazem o que fazem, abertamente, para controlar o pensamento público sobre uma guerra, obedecendo ao governo. É passo novo e drástico, e nos faz pensar o que virá depois disso.
Se você silencia mentalmente as justificativas para cada nova expansão dos protocolos de censura e pinta-os como um aglomerado de discurso não autorizado, obterá um círculo cujo raio continua a expandir-se ao longo do tempo. E trata-se disso, precisamente: expandir continuamente esse raio usando justificativas falsas, de trolls russos à segurança das eleições, de extremistas domésticos e Covid à Ucrânia.
E agora estamos no ponto em que o consentimento para essa expansão foi tão amplamente fabricado que os censores já nem precisam dissimular. Podem dizer apenas “Ok. É que o que vocês dizem prejudica a guerra de propaganda do nosso governo contra a Rússia. Não podemos admitir”. Isso é enorme violência.
A propaganda, a censura e a manipulação de algoritmos do Vale do Silício continuam, porque o império centralizado nos EUA precisa impedir que surja um verdadeiro mundo multipolar. E terá de produzir quantidades imensas de consentimento, obediência e servilismo, para poder completar as ações drásticas necessárias para impedi-lo de surgir.
Deter a ascensão da China exige derrubar os pilares que a apoiam, como a Rússia. São agendas enormes e extremamente perigosas, que agredirão financeiramente, e porão praticamente todos em perigo existencial.
Em momentos como esse, os grandes gerentes do império não podem permitir qualquer fluxo livre de informações.
Os direitistas são levados a se fixar no Fórum Econômico Mundial e em Klaus Schwab, como se fossem a fonte e o ápice de todos os males do mundo, porque essa fixação faz com que baste, aos defensores do capitalismo, disseminar a crença de que basta o mundo se livrar de algumas poucas maçãs podres, para que o sistema funcione bem.
“Não é capitalismo, é corporativismo” não é argumento; não passa de insípido jogo de palavras. Ninguém se importa, se você lastima que o seu ‘-ismo’ preferido seja aplicado aos nossos sistemas atuais. Esqueça os ‘-ismos’. Considere o argumento.
Se a sua única linha de argumentação implica discutir sobre definições (erradas, devo acrescentar), então você não tem linha de argumentação. Aborde os argumentos reais ou pare de interromper as conversas dos adultos.
Um império global em expansão é mantido coeso pela crença generalizada – e inteiramente baseada na fé – de que os melhores sistemas políticos, econômicos e de política externa possíveis seriam aqueles mesmos que, durante toda a sua vida, você foi adestrado pelos media de massa e pela educação para apoiar.
[*] Jornalista.
O original encontra-se em thealtworld.com/caitlin_johnston/political-false-dichotomies-notes-from-the-edge-of-the-narrative-matrix.
Tradução de Vila Mandinga.
Este artigo encontra-se em resistir.info

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