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terça-feira, 16 abril, 2024

Aos poucos, o Brasil reage para se libertar do cativeiro da ignorância

Teologia da Libertação (Reprodução)

Como profetizou Gramsci, a cultura é o verdadeiro cerne da política, das mudanças, da consciência, da ação e da reação

O segundo livro do profeta Samuel demonstra que a ruína do rei Davi se inicia no momento em que deixa de lutar pelo povo e – pior – trama o assassinato de quem o fazia.

A analogia vale para os atuais dirigentes, ilegítimos, do Brasil: alienam patrimônio que não lhes pertence; destroem a cultura, a saúde e a educação; transformam o país numa grande colônia, socialmente pobre, ambientalmente contaminada, subserviente sob todos os aspectos.

Na Rússia do século XIX, pré-revolucionária, sob o jugo autocrático, similar ao que vivemos, encontraremos a seguinte reflexão do grande Leon Tolstói, em “Escritos sobre a Desobediência Civil e a Não-Violência”: “…vocês querem fazer do tribunal do júri uma mera formalidade; isso é problema seu, mas nós não serviremos de juízes, ou advogados, ou jurados: vocês querem – sob o nome de um “estado de sítio” – estabelecer o despotismo; isso é problema seu, nós não participaremos e chamaremos o seu “estado de sítio” de “despotismo”; a pena capital sem julgamento, chamaremos assassinato: vocês querem organizar corpos de cadetes militares – ou escolas nas quais haja exercícios militares e doutrinação religiosa; isso é problema seu, mas nós não ensinaremos nas suas escolas, ou mandaremos nossas crianças para lá, mas as educaremos como nos parecer correto: vocês decidem reduzir os conselhos municipais à impotência; nós não participaremos disso: vocês proíbem a publicação de literatura que os desagrada; vocês podem apreender volumes e punir os editores, mas não podem nos impedir de falar ou escrever – e nós continuaremos a fazer isso: vocês pedem um juramento de lealdade ao Tzar; nós não acederemos a algo ignóbil, falso e degradante: vocês nos ordenam servir ao exército; nós não faremos isso, porque o assassinato em massa é tão oposto à nossa consciência quanto o individual e – acima de tudo – porque a promessa de matar quem um comandante nos mande matar é o ato mais baixo que um homem possa cometer: você professa uma religião que está mil anos atrasada…; isso é problema seu, mas nós não legitimaremos a idolatria e a superstição – e nós lutaremos para liberar o povo dela.”

A propósito da libertação de falsos deuses, que felicidade o samba-enredo da Mangueira que tão bem alude à teologia da libertação!

O Brasil reage!

Em nossa principal manifestação cultural, a pioneira escola de samba, a Estação Primeira de Mangueira, levará para a avenida, a rua, a praça – “ágora” democrática dos gregos – a libertação, do cativeiro da ignorância, da intolerância e da dependência.

Gramsci mais do que nunca estará presente entre nós: como profetizara, a cultura é o verdadeiro cerne da política, das mudanças, da consciência, da ação e da reação.

No campo da política e da religião, Lula também se mostra à frente de seu tempo e de seu partido: propõe diálogo franco com os evangélicos neo-pentecostais. Um imenso desafio.

Em primeiro lugar, porque é da natureza dos filiados com nível superior tomarem-se por superiores.

Em uma sociedade de castas – em que às classes sociais correspondem etnias, dificilmente poderia ser diferente.

Entretanto, se o partido que lidera a oposição não conseguir superar essa compreensão errônea, tampouco conseguirá dialogar com os neo-pentecostais, pois entre dois pregadores não há diálogo, no máximo uma cacofonia.

Abandonar dogmas nunca foi fácil, mas o Papa Francisco está a demonstrar que isso é possível, saudável e pode vencer eleições.

Em segundo lugar – e sequencialmente – caberá treinar a escuta: ativa, humilde e capaz de decodificar uma linguagem nova, muitas vezes estranha à militância.

Vale notar que muitas igrejas católicas começam a oferecer o serviço de escuta aos fiéis, no Brasil (São Paulo e Santa Catarina, entre outros estados) e no exterior (Portugal parece ser pioneiro).

Em terceiro lugar, será saudável estar atento às experiências exitosas dos países vizinhos, que têm enfrentado o imperialismo de forma desassombrada, alegre e imaginativa.

Doses adicionais de humildade serão necessárias para o país buscar se informar mais a fundo das experiências centro-americanas e caribenhas, pois não será a imprensa oligárquica que o permitirá, evidentemente, sendo ela mero agente da metrópole e lhe devendo suserania.

Espera-nos, portanto, um período de intenso aprendizado, mais do que de ensino. Enriquecer-nos, abrir-nos ao outro, às alteridades, pode ser uma linda viagem.

Muitos guias podem nos ajudar: de Jesus Cristo a Mohamed; de Confúcio a Martinho Lutero; passando por Shakespeare, Tolstói e Dostoiévski; Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Moraes; sem esquecer Rio Branco, Zumbi dos Palmares e Sepe Tiaraju.

Poderíamos aspirar a melhor fortuna? Acho difícil, nos tempos que correm.

Será uma viagem para dentro e para fora de nós mesmos, em busca de uma construção nacional, tão devida e necessária, para que não apenas o Brasil seja digno, mas também o mundo seja muito melhor.

Afinal, com falsa modéstia, permito lembrar que já tive um dos títulos mais ambicionados do mundo, segundo a insuspeita ex-Diretora-Geral do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, a republicana Josette Sheeran, posteriormente vice-diretora do Fórum Econômico Mundial de Davos: o posto de Coordenador-Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome, no Ministério das Relações Exteriores.

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