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domingo, 19 maio, 2024

Amazônia: o boi-bumbá e o zebu da Volkswagen

José Bessa Freire

Boi, boi, boi, boi da cara branca, larga essa menina, que não teme tua carranca.

Afinal, o que o boi legou à Amazônia? No campo da cultura, o bumba-meu-boi diverte e liberta numa ópera performática com música, coreografia, artes plásticas, teatralização e contação de histórias. Em contrapartida, no pasto da economia o boi zebu explora, escraviza e envenena, como na antiga fazenda da Volkswagen e empresas afinsUm celebra a vida, o outro a despreza. Olelê, olalá, olha o boi, o que te dá?

As toadas do boi bumbá ecoam em junho nas ruas, praças, terreiros e bumbódromos da Amazônia, numa explosão da festa coletiva de criação popular. Já o boi que pastou na fazenda da Volkswagen vai “dançar” em Brasília na próxima semana, em apenas um dia (14/06), quando a empresa, em audiência extrajudicial do Ministério Público do Trabalho, em Brasília, deve responder denúncias recentes repercutidas na mídia alemã sobre a escravização de 900 trabalhadores ocorrida há 50 anos.

O crime está documentado no livro “Volkswagen in the Amazon” escrito pelo historiador da Universidade de Zurique, Antoine Acker. Ele consultou os papéis do padre Ricardo Rezende, coordenador no Pará da Comissão Pastoral da Terra da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), nos anos 1970, e vasculhou os arquivos da Volkswagen na Alemanha. Lá encontrou um documento no qual a matriz pergunta a sua filial: “Por que criar gado na Amazônia?”

A pergunta foi retomada há dias pelas emissoras alemãs NDR, SWR e no domingo passado (29/05) pelo jornal Süddeutsche Zeitung: por que uma fábrica de carros alemã, sem experiência agropecuária, derruba a floresta e planta capim para o gado, cujos arrotos e peidos produzem gás metano e, com isso, aumentam o efeito estufa e o aquecimento global? O então presidente da VW, Wolfgang Sauer considerou “um grande negócio” e aproveitou as vantagens indecentes oferecidas.

Patriotismo de araque

Essas vantagens eram divulgadas nas publicidades dos jornais. O anúncio “Volkswagen produzido na Amazônia” traz a foto de um boi zebu (ou Belzebu?). Lá a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), criada pela ditadura militar, prometia mundos e fundos para garantir o lucro fácil sem qualquer risco dos – digamos assim – “investidores”:

– “O Banco da Amazônia dá toda a cobertura financeira. Nada de pagar Imposto de Renda durante dez anos. Você não paga nem impostos estaduais, nem municipais e até o terreno você pode receber de graça. Se for preciso importar equipamentos, você não paga taxas nem impostos de importação”.

“Você” não é você, leitor (a), eram “eles”. Isso fica claro no outro comercial de 1971 – “Toque sua boiada para o maior pasto do mundo” – onde a SUDAM informa que “mais de 250 empresas agropecuárias já estão se instalando na Amazônia”. E assegura cinicamente que “essa gente foi para lá movida por um forte impulso pioneiro patriótico empresarial”. Juro que escreveram isso, invertendo o lema da ditadura: “Entregar para não integrar”. Entreguismo agora camuflado no slogan “Brasil acima de tudo”.

Patriotismo, quantos crimes se cometem em teu nome! Os anúncios omitiam a maior vantagem oferecida: a força de trabalho também gratuita de peões, vaqueiros e outros escravizados pela Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC), conhecida como Fazenda Volkswagen, de 139 mil hectares, com cerca de 300 trabalhadores registrados. O padre Ricardo Rezende calcula que outros 600 recrutados pelos “gatos” na região trabalhavam ali sob regime de cativeiro. O gerente suíço da fazenda chegou a estimar em 7.000 os trabalhadores terceirizados.

Autor de vários livros sobre a escravidão moderna, o padre, que é professor de Direitos Humanos na UFRJ, “ouviu muitas histórias sobre a fazenda”, mas demorou a dar um flagrante, o que ocorreu na visita à fazenda em julho de 1983, em companhia de deputados de São Paulo. Na estrada a caminho da sede da fazenda, a comitiva cruzou com uma caminhonete com alguns trabalhadores aprisionados e amarrados dentro da caçamba. Ao ser questionado, o capataz afirmou que se não fossem amarrados, não trabalhariam direito

A picanha do Brügger

O padre conversou com o gerente suíço Friedrich Georg Brügger que, contratado pela Volks, definiu como “o emprego dos meus sonhos” seu cargo de administrador exercido de 1974 a 1986, ano em que a fazenda foi vendida por US$ 20 milhões, sem julgamentos ou indenizações. O suíço viveu quatro décadas no Brasil e só retornou à terra natal em 2017.

O que para ele era “sonho”, para os peões era pesadelo. Lá se trabalhava sete dias por semana, mais de dez horas por dia, sem qualquer pagamento, com alojamentos em locais insalubres, alimentação precária, sem assistência médica e sem acesso à água potável. Os trabalhadores submetidos a violência, espancamento e cárcere privado, com registro até de estupros e assassinatos, permaneciam em cativeiro, impedidos de sair por causa dos “débitos contraídos”, como no sistema de endividamento dos seringais.

– “Era uma forma de escravidão moderna” – denuncia o promotor encarregado do caso, Rafael Garcia. Confrontado pelo Süddeutsche Zeintung, Brügger se justifica:

– “Quando mil homens estão aglomerados, é óbvio que as coisas nem sempre são tranquilas. Especialmente no meio da selva”. O jornal editado em Munique detalha as reações do entrevistado: “Às vezes, ele contesta tudo, às vezes culpa as circunstâncias da época. Às vezes faz piadas de escravo, às vezes se mostra agressivo, às vezes é educado e cordial”.

Ele é um “homem impulsivo” na avaliação do padre Ricardo, que intercedeu por um trabalhador com malária, ardendo em febre, mas foi repelido aos berros por um descontrolado Brügger, sendo depois convidado para jantar com ele, que lhe ofereceu de presente um cálice e uma patena talhados em pau-brasil, árvore protegida por lei nacional e ilegalmente derrubada.

O suíço reconhece que a VW se apropriou de terra indígena. Ele certamente merece uma parte do boi morto desossado pelo Pai Francisco com a faca amolada na bunda da Catirina, que ganhou a tripa fina. Em homenagem ao novo sanduíche de picanha sem picanha da rede McDonald`s, Pai Francisco entoaria:

– A picanha do hamburger, dou pro Georg Brügger, olelê olalá, olha o boi, o que te dá.

Chã da Sudam

A toada prossegue:

– Eu cortei a chã, é pra SUDAM, olelê olalá, olha o boi o que te dá.

Graças à sua atuação, a SUDAM merece a chã de fora, por sua subserviência às multinacionais, mas também a chã de dentro pelo desvio de verbas públicas, favorecimentos de políticos e empresários locais, liberação de verbas para projetos superfaturados, fraudes em contratos e notas fiscais de compras. Que o diga o senador Jader Barbalho, que renunciou ao mandato em outubro de 2001 e foi preso sob acusação de corrupção e libertado no mesmo dia.

Olelê, olalá, olha o boi, o que te dá. Pai Francisco doaria a tripa cagaiteira pra toda essa bandalheira.

Atenção jovens do meu Brasil varonil, fiquem de olho na audiência da terça-feira, 14 de junho. A escravidão da Volks pode mostrar como a ditadura empresarial-militar, cujo modelo de “progresso” reaparece nos discursos atuais, beneficiou centenas de empresas através da SUDAM. “Fazei isso em memória de mim” – dirão os herdeiros dos escravizados, que fazem a fila do osso, diante do preço abusivo da carne, sem medo do boi da cara branca. Olelê, olalá, olha o boi, o que não te dá.

Referências bibliográficas:

1 – Antoine Acker: “Volkswagen in the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil” Cambridge University Press. 2017.

2- Rafael Ferreira (org): “Sob a pata do boi: como a Amazônia vira pasto”. Rio. Associação O Eco, 2021

3- Eduardo Reina. “Cativeiro sem fim”. São Paulo. Ed. Alameda. 2019

4. Ricardo Rezende Figueira – “A Escravidão na Amazônia: Quatro Décadas de Depoimentos de Fugitivos e Libertos”. Rio. Mauad X. 2021; “Escravidão: Moinhos de gente no século XXI”. Rio. Mauad X. 2019; “Pisando fora da própria sombra. A escravidão por dívida no Brasil contemporâneo.  Ed. Civilização Brasileira. 2004 Entrevista:  https://youtu.be/RAu7rpkqcNMsequestro,

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