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sexta-feira, 21 agosto 2026

África Central: riqueza mineral e passado colonialista alimentam conflitos e crises humanitárias

© AP Photo / Brian Inganga

Sputnik – Especialistas ouvidas pelo Mundioka apontam que a exploração de recursos estratégicos por atores externos, somada à fragilidade dos Estados e às heranças do colonialismo, ajuda a explicar a instabilidade e os deslocamentos forçados na região.

Abrangendo do Chade a Angola, a África Central possui uma enorme riqueza em biodiversidade, cultura e recursos naturais. A região abriga a bacia do Congo, que contém a segunda maior floresta tropical do mundo e o segundo maior rio em volume de água do planeta, além de ser o lar de mais de 400 espécies de mamíferos – como gorilas e elefantes – mais de mil espécies de aves – como o pavão-do-congo – e mais de 700 espécies de peixes adaptados para rios – como o peixe-tigre-golias.

Embora inclua nove países oficiais segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), esse número pode chegar a 11 se considerados Ruanda e Burundi, que participam de blocos regionais, como a Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEAC/ECCAS). Culturalmente falando, estima-se que existam entre 250 e 300 grupos étnicos na região, tanto por conta das características geográficas existentes quanto pela presença destruidora e agregadora do colonialismo europeu.

No aspecto geopolítico, o colonialismo ainda está presente, especialmente na República Democrática do Congo (RDC), Chade e Gabão, sobretudo no domínio de minerais estratégicos e disputa por territórios. Corporações transnacionais e potências globais exercem forte controle econômico sobre recursos como o cobalto, o petróleo e o coltan.

Essa dependência externa perpetua a exportação de matérias-primas sem valor agregado, deixando os Estados locais vulneráveis a pressões políticas e econômicas externasem uma clara dinâmica de neocolonialismo.

Vista da Grande Barragem do Renascimento, em 9 de setembro de 2025. Construída pela Etiópia no rio Nilo Azul, estrutura promete dobrar a produção de energia no país - Sputnik Brasil, 1920, 14.08.2026

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Instabilidade como forma de controle de recursos estratégicos

Camila Andrade, professora na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e research fellow no Institute for Pan-African Thought and Conversation da Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, pontua que a instabilidade na região dos Grandes Lagos, envolvendo Ruanda e RDC, não pode ser compreendida apenas a partir dos combates recentes, já que resulta de processos que se desenvolvem há décadas e envolvem dinâmicas domésticas, regionais e extracontinentais.

Como explica, a crise tem raízes nas décadas de 1990 e 2000 e também está ligada às consequências da colonização. Conflitos iniciados internamente acabaram transbordando para países vizinhos, fazendo com que questões domésticas tivessem consequências transfronteiriças e afetassem segurança, desenvolvimento e comércio regional.

Sobretudo a atuação de atores externos na exploração dos recursos minerais também coloca em debate a soberania do Congo, ressaltando que minerais extraídos no território congolês estão presentes em produtos tecnológicos utilizados globalmente, enquanto empresas estrangeiras participam da exploração.

“Quando a gente vê quais são os celulares que a gente está utilizando, quais são os computadores que estamos utilizando, ou seja, o que está relacionado com tecnologia, geralmente esses recursos vêm da República Democrática do Congo.”

Por isso, é preciso questionar quem controla essas riquezas e para onde elas são direcionadas. Essa relação também ajuda a explicar por que o conflito interessa a atores de fora do continente.

“A gente não pode achar que a questão na República Democrática do Congo é algo isolado, é algo que é de política doméstica.”

Andrade também critica a falta de atenção internacional para conflitos africanos, vendo que a redução do interesse das grandes potências pelo continente após o fim da Guerra Fria coincidiu com a eclosão ou o agravamento de diferentes conflitos, muitos dos quais recebem pouca cobertura da mídia internacional. Assim, isso contribui para que as conexões entre segurança, exploração econômica e heranças coloniais permaneçam pouco discutidas.

Nesse sentido, ela rejeita interpretações que tratam os problemas de Estados africanos a partir de categorias construídas exclusivamente com base na experiência colonial, mas também na continuação de uma nova forma de dominação. Para ela, a independência política não significou necessariamente o rompimento de todos os vínculos econômicos, sociais e institucionais com as antigas metrópoles.

Em destaque, a dificuldade de o Estado congolês exercer plenamente suas funções ajuda a explicar a permanência de interesses externos no país. Andrade cita como exemplo o fato de a emissão do passaporte do Congo envolver, até recentemente, o pagamento de uma taxa a uma empresa belga. O contrato com a belga Semlex foi encerrado em 2020 e, posteriormente, o país firmou parceria com uma companhia da Alemanha. Situações desse tipo mostram como elementos básicos de um Estado soberano podem permanecer vinculados a estruturas herdadas do período colonial.

“A gente não pode achar que a questão na República Democrática do Congo é algo isolado.” Andrade avalia ainda que, caso houvesse interesse efetivo das potências ocidentais em solucionar a crise, elas teriam capacidade para atuar de maneira mais decisiva.

“Se fosse do interesse deles, eles já teriam dado suporte, intervindo de alguma forma.”

Crise humanitária fruto do neocolonialismo e conflitos armados

“Ainda há a permanência do imperialismo”, diz Lucineia Rosa dos Santos, advogada, professora e doutora em direitos humanos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo ela, essa dinâmica mudou de países para empresas internacionais.

Com isso, embora a versão tradicional tenha chegado ao fim, corporações estrangeiras — em especial, europeias — continuam a explorar os recursos locais sem transferir tecnologia ou promover o desenvolvimento socioeconômico regional. Essa exploração predatória perpetua uma profunda vulnerabilidade econômica em nações historicamente ricas em recursos naturais.

Pessoas comemoram enquanto forças de segurança percorrem as ruas da capital Bamako, um dia depois de soldados armados terem disparado para o alto em frente à residência do presidente Ibrahim Boubacar Keita e o levado sob custódia. Mali, 19 de agosto de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 31.07.2026

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Essa fragilidade estrutural remonta à Partilha da África, período em que potências europeias fragmentaram etnias, histórias e comunidades ao imporem fronteiras artificiais. Sob o domínio colonial, as disputas locais foram silenciadas pela força do colonizador, que priorizou unicamente a extração de riquezas. Após os processos de independência, os conflitos territoriais e étnicos antes reprimidos ressurgiram, perpetuando-se por décadas.

A contradição entre a abundância de recursos e a miséria social é nítida na RDC, país marcado pela dependência da exportação de matérias-primas e de onde provém uma parcela significativa dos refugiados acolhidos no Brasil.

De acordo com Santos, o subsolo congolês atrai o interesse predatório global por possuir uma das maiores reservas de minérios estratégicos do continente, como o lítio. Diante disso, iniciativas locais que buscam o progresso democrático são sistematicamente esmagadas pelas estruturas de poder vigentes. “À medida que esses grupos lutam, esses grupos acabam sendo vencidos. E é onde muitas vezes se propõe, se tem o maior número de refugiados.”

Para ela, a desigualdade e a emigração em massa só cessarão quando houver “uma consciência dessa riqueza e dessa transformação para dentro desse país.”

A violência é agravada pela atuação de milícias armadas, cujo principal impacto sobre a população civil é o deslocamento forçado pelo medo. O impacto humanitário atinge de maneira desproporcional os grupos mais vulneráveis.

Ao desembarcarem em portos como o de Santos, essas pessoas buscam o protocolo de refúgio com o amparo de instituições humanitárias como a Caritas e a Missão Paz. Assim, a decisão de abandonar a própria pátria decorre da total impossibilidade de resistência física e política. Na avaliação da especialista em direitos humanos, as organizações regionais não possuem a musculatura suficiente para lidar com os problemas internos e repreender violações de direitos humanos cometidos.

“Isso tudo é o temor, é o medo contra quem, contra o quê e de que forma você vai lutar? Então você acaba sendo vencido e sai em refúgio dessas regiões.”

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