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quarta-feira, 17 abril, 2024

A MISÉRIA DO JORNALISMO BRASILEIRO

Por Mario Vitor Santos, no blog Nocaute

A publicação das mensagens trocadas pela força-tarefa da Lava Jato com o então juiz Sérgio Moro, pelo site The Intercept Brasil, do qual o jornalista norte-americano Glenn Greenwald é um dos fundadores e diretores, representa o momento mais constrangedor da história dos meios de comunicação do Brasil. Desse episódio é impossível outra constatação: os grandes jornais, revistas, redes de rádio e televisão do país fracassaram e estão desmoralizados.

Do ponto de vista da razão maior de sua existência jornalística, a busca da verdade, os grandes meios, com suas equipes de diretores, editores e repórteres, foram ‘furados’ e estão todos a reboque de um site diminuto, com uma equipe reduzida de cerca de dez jornalistas com base no Brasil.

Mais do que isso, o furo do Intercept Brasil revela uma verdade que fez subitamente jogar no lixo anos de cobertura avassaladora dos grandes meios de comunicação. A verdade apareceu: o jornalismo brasileiro ao longo dessa cobertura, com raras exceções, não passou de propaganda. Enquanto abandonavam a independência e envergavam a camisa de torcedores de Sergio Moro e da Lava Jato, cantando em coro que ela era uma operação judicial angelicalmente isenta, “técnica”, apolítica e afinal salvadora de um país imerso na corrupção, o furo agora revelado por Glenn Greenwald e sua equipe escancarou uma realidade oposta.

A Lava Jato é essencialmente uma ação de velhacos atuando à socapa, à margem da lei, comandada por justiceiros sedentos de cargos e poder, executando um projeto político na verdade “isento de isenção”.

Enquanto posava de vestal diante da nação extasiada, Moro encabeçava na escuridão dos tribunais uma operação fraudulenta, destinada a condenar um réu sem provas, voltada para a gravíssima tarefa de usar o poder e a Justiça para fraudar o resultado da escolha democrática e barrar o candidato favorito na eleição para o cargo mais importante do país. Enquanto posava de semideus, Moro se divertia abusando da crendice nacional. Que o populacho se deixe enganar é lamentável, mas que seja o jornalismo a conduzi-lo à cegueira chega a ser criminoso.

De acordo com os vazamento publicados pelo Intercept, Moro, Deltan Dallagnol e a Lava Jato conspiravam (“reservado, claro”) em grupos de chat para se comunicar com ministros e procuradores, combinar procedimentos, constranger testemunhas, manipular a opinião pública e incriminar Lula. A mídia conservadora, a quem cabia investigar por seu ledo a verdade, reproduzia em uníssono, sem críticas, as versões inventadas pela Lava Jato e chancelava bovinamente seus métodos.

Enquanto a Justiça era achincalhada com objetivos criminosos, por aqueles mesmos que deveriam zelar pela sua neutralidade, a mídia se oferecia para criar um culto, reverberar as versões oficiais sem exercer o ceticismo, sem cobrança, sem apurar os reais interesses que orientavam a cozinha venenosa da Lava Jato. Vem à tona agora o que alguns observadores e veículos isolados alertavam impotentes: a mídia foi parte essencial de um massacre engendrado por agentes sumamente poderosos, incrustados no aparato judicial de características improvisadas especialmente para a ocasião, contornando prerrogativas constitucionais instâncias, prazos processuais e garantias legais.

Seria ilusão considerar que esse evento devastador para a imagem do jornalismo pátrio tenha se dado por um descuido casual e que esteja restrito a este caso, mas aqui o mecanismo mostrou suas engrenagens.

Assim como a Justiça, também o jornalismo ignorou seus próprios princípios éticos fundamentais de distância crítica, trocados por uma ânsia moralista que recobria uma torcida ideológica dos meios de comunicação, agora posta a nu. Os meios de comunicação conservadores sem exceção, sempre procuraram criminalizar os seus oponentes à esquerda agitando o espantalho da corrupção.

Não é à toa que agora as gravações foram vazadas para o The Intercept Brasil. Um detentor dessas informações deveria procurar veículo jornalístico isento, que dispusesse de independência, técnicas de checagem e compromisso com a verdade. Precisava de jornalistas que tivessem acesso a uma rede de meios de comunicação para multiplicar a repercussão do furo e, mais do que tudo, coragem. A “Garganta Profunda” desse escândalo, provavelmente, observou a paisagem e não identificou nenhum jornalão (para não falar das TVs ou das grandes revistas) capaz de encarar inicialmente a tarefa, seja por razão ideológica, falta de coragem ou baixa fidelidade ao jornalismo. Todos os grandes veículos brasileiros são refratários a qualquer ação que, mesmo justa, viesse a beneficiar Lula – cuja prisão, ao que tudo indica, era o principal troféu da Lava Jato.

Embora o governo e a maioria da mídia se empenhe em desautorizá-lo, é possível que o autor, ou autores, original dos vazamentos tenha feito o trabalho em boa fé, por preocupação com os rumos do país e interessado em que viesse ao domínio público um conluio contra a Justiça operado justamente pelos encarregados de zelar pelo seu exercício.

Houve, além do mais, imensa falta de vontade jornalística dos meios de comunicação diante dos descaminhos de Sergio Moro e da Lava-Jato. Seus excessos, existentes desde os primeiros momentos dessa cobertura, deveriam fazer soar alarmes nas redações. Os times de repórteres promocionalmente rotulados de investigativos aderiram à onda geral de puxa-saquismo lava-jatista que emanava dos comandos das redações. Há aí uma lição velha. Custe o que custar, cabe ao jornalismo duvidar dos poderosos, fazer as perguntas incômodas, remar contra a corrente do clamor público, seguir pistas, testar hipóteses e dar atenção aos indícios. É preciso dar voz aos perseguidos em tribunais de exceção.

Em lugar de investigar e cobrar os deslizes de Sergio Moro a fundo, a mídia empenhou-se em incensar seus métodos e não só isso. Ela dedicou-se a estigmatizar os que se contrapunham a Sérgio Moro. Ainda hoje, os juízes do STF como Teori Zavacki (já morto), Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello padeceram nos programas, nas colunas, nas páginas de jornais e nas capas de revistas. São alvos de torturas midiáticas, tachados como criminosos protetores de corruptos, nos comentários de analistas maldosos.

É verdade que os veículos alternativos de esquerda não investem em investigação jornalística em busca dos furos de reportagem. Isso é um erro grave. É também certo que os sites jornalísticos, os veículos independentes, os blogs de esquerda, os jornalistas que alertavam para o uso político e eleitoral da Lava Jato foram ignorados, ridicularizados, acusados da mesma forma que o Intercept Brasil ainda é tratado ainda hoje. Glenn Greenwald, vencedor tanto do Pullitzer como do Oscar, não faz jornalismo, resmunga a maior parte da mídia tupiniquim.

A história vai registrar que nesse período o jornalismo estava longe das grandes redações da mídia conservadora. A razão estava em deduções jornalistas muitas vezes solitários, corajosos, desligados de grandes estruturas que estavam empenhadas em criar um xerife justiceiro e super-heróis higienizadores à custa da verdade, da democracia, e da Justiça.

O histórico de Sergio Moro no processo anterior à Lava Jato, o do Banestado, já deveria suscitar cuidados. Sua atuação no impeachment de Dilma foi já escandalosa e passou incólume. A condenação de Lula sem provas, no atropelo dos prazos, nas sentenças e procedimentos acertados à margem dos ritos legais, nada disso retirou a mídia de sua paralisia delirante. Em choque pelo furo tomado, a grande mídia em sua quase totalidade ainda resiste a somar-se à necessária investigação e divulgação dos vazamentos obtidos pelo Intercept.

As consequências demolem a imagem do jornalismo brasileiro, posto sob justificada suspeição, batido por veículos liliputianos, mas muito mais confiáveis para quem deseja fazer emergir a verdade. A Justiça e a democracia não estariam tão ameaçados no Brasil se o jornalismo acima de tudo tivesse cumprido com independência o seu papel.

Censura e ameaças atingem jornalistas que criticam Bolsonaro

PH Amorim foi afastado do “Domingo Espetacular” da Record; Sherazade, do SBT, teve a cabeça pedida pelo dono da Havan

Amorim, que mantém o blog Conversa Afiada, criticou decisões de Sérgio Moro e do governo Bolsonaro  – Créditos: (Foto: Divulgação)

Amorim, que mantém o blog Conversa Afiada, criticou decisões de Sérgio Moro e do governo Bolsonaro / (Foto: Divulgação)

O afastamento do jornalista Paulo Henrique Amorim do programa Domingo Espetacular, noticiado nesta segunda-feira (24) pela Record TV, trouxe à tona discussões sobre perseguição e censura aos profissionais da imprensa.

Crítico contundente de Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, Amorim vem contrariando a linha editorial da emissora, próxima ao governo. Segundo o site Notícias da TV, com o acirramento da polarização política no país, desde 2014 o jornalista está na mira do veículo de propriedade do bispo Edir Macedo.

Em nota oficial, a Record afirmou que o afastamento do apresentador, que comandou a atração pelos últimos 14 anos, se deu por um “processo de reformulação do jornalismo” e que o profissional “permanece na emissora à disposição para novos projetos”. O contrato de Amorim vai até 2021. Patrícia Costa e Eduardo Ribeiro ficarão responsáveis pela apresentação do semanal a partir do próximo domingo (30).

Procurado pela reportagem do Brasil de Fato, Paulo Henrique Amorim não quis comentar a decisão da emissora.

O jornalista não é o único profissional ameaçado. Rachel Sherazade, do SBT, também foi colocada na linha de tiro dos bolsonaristas. Pelo Twitter, Luciano Hang, proprietário das lojas Havan – que durante as últimas eleições coagiu trabalhadores a realizarem campanha para o então candidato do PSL – sugeriu que Silvio Santos demita a apresentadora e comentarista.

De acordo com o empresário, a profissional está “contaminada por ideologias comunistas”. Ela havia compartilhado uma reportagem sobre a redução de equipes e o desmonte do jornalismo no SBT.

Apesar de ser conhecida por seus posicionamentos conservadores, nos últimos meses a âncora também tem tecido críticas ao governo Bolsonaro. Em resposta à sugestão de Hang, Sheherazade afirmou que irá processá-lo por chantagear a emissora, já que a Havan é uma das principais anunciantes do SBT.

Também nesta segunda-feira (24), o comentarista político Marco Antonio Villa anunciou sua saída da rádio Jovem Pan após ser suspenso por 30 dias.

Fábio Pannunzio, âncora da TV Bandeirantes, está entre as centenas de pessoas que prestaram solidariedade aos profissionais. “Não tenho nenhum apreço pelo jornalismo do Paulo Henrique Amorim, a quem tenho criticado nos últimos dez anos. Mas a demissão [sic] dele é brutal e inaceitável, produto do macartismo bolsonarista que já vitimou Marco Antonio Villa, Marcelo Madureira e ameaça Rachel Sheherazade”, escreveu o jornalista.

O ator e humorista Gregório Duvivier também se manifestou. “Toda a solidariedade ao Paulo Henrique Amorim, e também ao Marco Antonio Villa e à Rachel Sherazade – mesmo discordando frequentemente dos 2 últimos, é inegável que também caíram pela sua coerência e coragem. Ao que parece, na Record, no SBT e na Jovem Pan só ficarão os covardes.”

Censura explícita

Relatório publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2018, registrou 10 casos de censura aos profissionais da imprensa. Durante o período eleitoral, por exemplo, a direção do jornal O Povo proibiu os jornalistas contratados de participarem do ato “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”.

Em agosto do ano passado, trabalhadores da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) denunciaram, em dossiê, censura na empresa, com veto a reportagens, de um lado, e indução a coberturas favoráveis ao governo Temer.

Um caso emblemático denunciado pelos jornalistas da EBC está relacionado ao assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Silva, no Rio de Janeiro, em março do ano passado. A cobertura foi diminuída após ser criticada por gerentes da Agência Brasil, que disseram estar “cansativa” e que estaria dando “palanque ao PSOL”.

Na  mesma linha, Ruth Manus, ex-colunista do jornal O Estado de S. Paulo, foi demitida após fazer um artigo com críticas ao então candidato do PSL.

Para José Carlos Torves, diretor executivo da Fenaj, a retaliação desnuda a falsa imparcialidade de parte da mídia, que sai em defesa do governo.

“Essa pressão já era exercida no interior das redações. Agora ela se externaliza porque o anunciante e uma parte da população que apoiou o atual governo também pressionam veículos de comunicação para tomar medidas como demissão e afastamento de jornalistas que ainda mantinham independência na sua opinião, para que sejam extirpados dos veículos”, afirma Torves.

“A situação se agrava cada vez mais. Estamos vivendo em uma democracia precária e uma liberdade de expressão precária. Temos que parar de usar neologismos para qualificar o que de fato é uma censura escancarada”, denuncia o diretor da Fenaj.

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